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SONDAGENS

REGINA SARDOEIRA
Desde que passei os olhos pelo Jornal de Notícias, no passado dia10 de Dezembro e vi, no alto da primeira página, as percentagens de uma recente sondagem na qual, alegadamente, 52% dos portugueses quereriam Passos Coelho como Primeiro-Ministro, contra 37% a favor de António Costa, que me tenho questionado, com alguma perplexidade, sobre o fenómeno “sondagem”.
Em primeiro lugar, vejamos: que interessa e a quem interessa, levar a cabo uma sondagem agora, que a situação governativa de Portugal está decidida? Que espécie de jogo ou de brincadeira fútil conduziu a semelhante entretenimento? Mais: quem paga estes exercícios frívolos de suposta auscultação do povo? 
As sondagens são, normalmente, realizadas, telefonando para uma amostra de cidadãos. Faz-se a pergunta: “Quem acha que deveria ser primeiro-ministro de Portugal?” E o cidadão interpelado diz o que lhe passar pela cabeça no momento. 
Multiplica-se o processo pelo número de pessoas consideradas amostras do povo português, que respondem o que lhes ocorrer na hora, procede-se a um tratamento estatístico e estabelece-se, deste modo, a respectiva percentagem. 
Os leitores dos jornais, chamada que foi a sua atenção no topo da capa do jornal, vão inteirar-se do teor da sondagem e ficam, desde logo, reféns de uma opinião. E poderão pensar: se 52℅ dos portugueses pensam assim, alguma razão haverá; quem sou eu para discordar? 
Ora, a sondagem baseia-se apenas numa amostra – portanto num pequeno número de pessoas – e as percentagens, grandes ou pequenas, dizem respeito a esses que responderam e não a todos os portugueses. A estatística não é uma ciência exacta e o seu método é probabilístico, logo, tais resultados, mesmo que não tenham sido viciados, não se revestem de qualquer valor. 
Generalizando a questão, podemos ter a certeza do carácter manipulador das sondagens, pois apresentadas ao público, antes das eleições, por exemplo, vão dirigir os votantes, em especial os indecisos, neste ou naquele sentido, consoante os valores percentuais. Por essa razão, tais actos deveriam ser cuidadosamente evitados, quem sabe mesmo proibidos, para que a liberdade de decisão pudesse ser realmente efectiva. 
Sei bem que a liberdade não passa de uma ilusão e que, se não forem as sondagens, outros mecanismos de persuasão mediática vão apontando o caminho a quem vota ou exerce outro direito democrático. Mas que possamos, ao menos, ficar isentos de aberrações como esta em que, por mero divertimento, alguém gasta o seu tempo a realizar inquéritos sem o menor interesse prático. 
E ocorre-me questionar. 
Por que razão, tais inquiridos (se o foram) preferem o ex-primeiro-ministro ao actual? 
De um, é sobejamente conhecida a frieza – sim, a frieza – de funcionário diligente ao serviço dos chefes estrangeiros. Frieza e subserviência, já que a sua postura foi sempre com a cerviz curvada para fora do país, em bicos de pés para ombrear com os seus maiores. Ficou também bem documentado o cinismo com que, por exemplo, apontou aos jovens licenciados o caminho da emigração, apodando-os de “piegas”, ou o modo cruel com que foi condenando a chamada terceira idade a um destino indigno ou, quem sabe?, à morte prematura. 
A falsidade com que prometeu mundos e fundos, sabendo que não poderia cumprir e negando, desse modo, as promessas, logo que se levantou no pódio, aliada à tendência contínua para mentir, com mais descaramento à medida que ia ganhando autoconfiança, são factores que qualquer um, mesmo entre os menos atentos, pôde observar, já que o homem revestiu-se de absoluta e total impunidade e deixou de ter pejo de mentir às claras. 
Mas o povo português é masoquista, basta analisar a história recente, basta ler os seus heróis literários e observar o género dos seus ídolos, sejam do passado ou presentes ainda ao virar da esquina. O povo português tende a preferir o que o prejudica, o que o faz andar carrancudo, critica e espalha azedumes a torto e a direito sobre aqueles que o vão lesando, mas logo a seguir, a sua ânsia de sofrer atira-o para novos ou para os mesmos verdugos do seu fado. Sim, fado: não é ao acaso que esta é a canção nacional por excelência. 
Apenas a vontade de sofrer, para ser possível erguer lamentações, pode levar o povo português ( ainda que nas linhas pouco credíveis de uma sondagem) a preferir maioritariamente um ex-primeiro-ministro notoriamente cruel. A querer a continuação da tortura, do cinismo, da mentira. 
Relativamente ao actual primeiro-ministro é demasiado cedo para que ele possa ser preferido ou rejeitado. É demasiado cedo para que seja alvo de uma sondagem, onde se estabelece uma comparação absurda com alguém que já mostrou quem era. Por outro lado, é demasiado tarde para chamar o antigo e fazê -lo substituir o actual, já que, por maior que seja a flexibilidade da democracia, tais reviravoltas não fazem sentido. 
Por outro lado, um homem apenas – o primeiro -ministro – não é, por si só, o responsável por tudo o que acontece, de mau ou de bom, num país. Há um elenco de personagens a ele associadas, há uma assembleia representativa da vontade de todos os cidadãos, há dezenas de pessoas e de instituições que, no seu conjunto, determinam o rumo do país. Decerto, o primeiro-ministro não é tão importante como querem fazer-nos crer, não vivemos numa monarquia absoluta, o primeiro-ministro não é o rei, e nós, o povo, não somos os seus vassalos. Por isso, para quê tanta agitação em torno de um só homem? Para quê este culto absurdo da personalidade, seja ela a de Pedro Passos Coelho ou a de António Costa? 
A verdade é que semelhantes atitudes não fazem sentido. Mas a manipulação é soberana no mundo em que vivemos e sê-lo-á, enquanto consentirmos. E o sofrimento dará uma cor cinzenta e um tom melódico lúgubre ao nosso temperamento, enquanto insistirmos em ser masoquistas. 

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