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NOITE BRANCA

“Pré sépio”

Os dias acumulam nuvens cinzentas e a noite espreguiça-se bem mais cedo pelo céu adentro como dona e

MIGUEL GOMES

senhora de um tempo onde moram as lareiras acesas. O vento atiça pinhais, a caruma comprime-se sob os pés, folhas resilientes de eucaliptos resistentes aproveitam a boleia do ar esvoaçante para o seu baptismo de voo.

Um muro baixo de um tijolo fino parece abanar quando as duas mãos de puto içam o corpo e os joelhos primeiro e as biqueiras das botas depois embatem nele, até conseguir alçar uma perna primeiro, outra perna depois, e cair com estrondo no amontoado de caruma, mato, cascas de batata e restos de comida que as raposas, ouriços-cacheiros e outra bicharada do monte não comeram.
A terra exibe peladas graníticas em todos os locais não cobertos pelo húmus e aspirantes a húmus e os locais menos percorridos, onde a erva, verde após as chuvas, menos calcada exibe um padrão de virgindade atrativo a quem busca o mesmo nesta altura do ano. A desvantagem de um caminho menos ou nunca percorrido é a quantidade de giestas que se espreguiçaram para lá do usual e mesmo os matos e fetos parecem aproveitar a ausência de hominais para estenderem a ramalhada urticante. 
A vantagem de um caminho nunca percorrido é a possibilidade de qualquer passo que se dê ser o início de um novo caminho, a construção da estrada nova a cada ano, sempre por atalhos diferentes até chegar onde repousa o melhor, mais entufado, mais almofadado musgo de sempre, um segredo bem guardado.
Até chegar à recompensa, na orla da antiga pedreira, há que pender passadas lentas e firmes, não se caia a inocência num buraco mais esburacado, e também para admirar os cantos que se calam quando um ramo seco, dos poucos que ainda restam, se parte e anuncia a presença de mais do que os habituais animais. Ali, parado, o silêncio da natureza na forma de pinheiros que rangem e ventos uivantes por entre troncos, os pés já molhados pela humidade que vence a fronteira de couro e plástico e se encosta às meias grossas, uma mão sai do bolso e repousa num feito maior, sem beligerância, num gesto inocente de pedir licença ao inanimado afasta do caminho a planta e escuta atento o silvo das nuvens a roçarem umas nas outras no desafio de ver quem delas se choverá primeiro. Por entre passos e descasos, a crista do cedro ao longe, a mão suja entra no bolso e desenterra de lá um saco de plástico à medida que se aproxima da orla da pedreira. O manto verde e fofo convida a descalçar, mas a razão rápida se sobrepõe à imaginação e segreda ao ouvido da consciência os avisos decorados por anos e anos de infância. “tu vê o que vais fazer, o presépio não precisa de musgo!” ou “é melhor que não te sujes, este tempo não ajuda a secar nada!” ou ainda “só tens essas botas secas, vê se queres ficar em casa nas férias”. E posto isto, com um joelho na saca aberta sobre o musgo, na oração de perdão por escalpelar a terra arrancando-lhe o musgo pela raiz, vai-se enchendo o outro saco de plástico com cuidado suficiente para não se rasgar, o saco ou o tapete musgoso acompanhado do pedido de desculpas.
Já em casa, com as figuras perfiladas a aguardar nos tacos encerados há dias, estende o plástico, depois a velha e semi-apodrecida tábua de madeira (na verdade eram dois velhos tacos encontrados na lixeira plantada pelos poucos habitantes ainda existentes no meio de outra pedreira abandonada), o plástico aberto para fechar o caminho à humidade e, por fim, o musgo, ainda com o mesmo cuidado. 
“Não adianta empurrarem, eu escolho quem coloco primeiro”, as figuras rezingavam ansiosas por subirem para o presépio, enquanto a criança pegava uma a uma a ornamentalidade em forma de pastor, vaca, burro, até cão havia, o berço, José extremoso e orgulho, Maria preocupada ainda por não ter pouso para parir, mas confiante nas palavras de Gabriel, outro pastor, ainda outro pastor e, por fim, apeia-se a realeza, acomoda-se a cáfila junto da vaca e do burro, todo o bafo animal é necessário para aquecer quem ainda não nasceu, os reis magos vão para trás dos pastores e irão, sei-o depois movido pela curiosidade de os espreitar quando não estou, colocar nos bolsos dos pastores os tesouros destinados à criança, fieis depositários das riquezas do mundo e, ombro no ombro, plebe e realeza, esperarão pacientes, descansando dos centos de dias passados na caixa de sapatos como longa caminhada pelas estepes guiados por um astro que brilhava dentro deles, que chegue o Salvador.
A ceia pouca importância tem, perde algum tempo a ver o vapor que se solta das pencas e batatas cozidas, esmaga um ovo cozido contra o azeite, cebola e alho picado, faz desenhos na mistela e reza baixinho, “quem dera que todos possam ter comida à frente, família e amigos ao lado e este calor morninho dentro”.
Os mais velhos sairão para a missa, boinas e gorros, cachecóis garroteados ao pescoço, casacos estreados longos e quentes, passos na noite fria até à larga porta da igreja. 
Adormece no sofá, enfeitiçado pelas tremeluzentes luzes do pinheiro, mirado pelos ocupantes do presépio que se cutucam e trocam olhares de ternura, até Maria, a quem José acabou de tapar com a própria capa os ombros, ergue o olhar de pré-mãe ternurenta para a criança que se entrega ao sono como ela a Deus.
Os minutos passam, gestos estremecidos de quem dorme e arrefece porque a manta caiu.
As luzes deixam de tremeluzir, o relógio da cozinha sustém a respiração e os ponteiros, o tempo para e levanta-se para abrir a porta da rua, por ela entra um vulto ou ninguém, vai lesto pela sala, afaga a testa de Maria e nos seus braços deposita a última figura do presépio enquanto com um gesto faz surgir pequenas palhas na manjedoura dos animais que servirá de berço, depois, sorrindo, levanta-se, pega na manta de trapos, tapa a criança que dorme e deposita-lhe um invisível beijo na testa ao mesmo tempo que com a invisível mão afaga o peito que se erguia sobressaltado por algum pesadelo, para o ver agora, sossegado e com um esgar de sorriso, a sonhar que um dia Deus lhe entraria pela porta da cozinha e a sua casa seria o seu coração.

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