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NATAL – UMA QUESTÃO DE HUMANIDADE

REGINA SARDOEIRA

Escrever uma carta ao Pai Natal não me é possível. Aprendi que no Natal se festeja o nascimento do Menino Jesus. Ensinaram-me que é ele quem, na sua grandeza, faz o milagre de trazer uma prenda que depositará no meu sapatinho deixado na chaminé, na véspera do grande dia. Por isso, é sempre ao Menino Jesus que escrevo e é sempre ao Menino Jesus que agradeço quando, no dia 25 de Dezembro de manhã, encontro uma lembrança, no sítio assinalado.

Devo estar muito desactualizada nestas minhas crenças e nestas minhas práticas, porque agora não oiço falar do Menino Jesus. E no entanto, esta data de 24 para 25 de Dezembro continua a ser a celebração do seu aniversário. Que, segundo crenças, histórias e tradições, nasceu em Belém, de uma Virgem, num presépio, dentro de uma manjedoura. Que, de acordo com as mesmas crenças, histórias e tradições, foi bafejado por dois animais de estábulo – uma vaca e um burro – e logo iluminado por uma estrela misteriosa e muito brilhante.
Também aprendi que, a seguir ao nascimento, os pastores das cercanias vieram ao estábulo, iluminado pela estrela grandiosa, e trouxeram presentes ao recém-nascido e aos seus pais. Trouxeram-lhes o que tinham: cordeiros, ovos, frutas… Mas, alguns dias mais tarde, três Reis Magos, montados em camelos, surgiram à entrada da gruta, ajoelharam-se perante o nascituro e ofereceram-lhe preciosidades: ouro, incenso e mirra.
Acerca do Pai Natal, nunca me ensinaram nada. E só tomei contacto com essa personagem, de cabelos e barbas brancos, vestido de vermelho, com um cinto de couro e umas botas pretas, transportando um enorme saco também vermelho e guiando um trenó puxado por renas, muitos anos depois das crenças e dos rituais natalícios cultivados na minha infância.
Agora, que penso neste assunto, creio que tudo o que sei sobre o Pai Natal está indissociavelmente ligado ao mundo do comércio, ao consumo. Creio que conheci essa personagem misteriosa – muito mais misteriosa que o pequeno Menino Jesus, porque não tem história, nem país, nem personalidade – através da televisão. Através da publicidade multimédia, através do específico apelo ao consumo de uma bebida – a Coca-Cola – através da presença do dito velhinho mascarado, a deambular pelas ruas das cidades, pelos centros comerciais, à porta de muitos estabelecimentos…Enfim: por mais que me esforce não sou capaz de estabelecer uma associação coerente entre o Natal – o do Menino Jesus, o do estábulo e dos pastores e dos reis magos – e a figura rechonchuda de um velho que incentiva à compra. Não oferece presentes – o que traz no saco é quase sempre um enchimento enganoso – ou, se oferece, é porque alguém os comprou e os depositou no saco para enganar as crianças… se é que as crianças ainda são, desse modo, enganáveis.
E então, não acredito no Pai Natal – nunca acreditei – porque sei que os presentes são comprados por pessoas, nas lojas e depois amontoados em torno de uma árvore, enfeitada de bolas e luzes, onde cada um encontra o seu, devidamente assinalado com uma etiqueta.
O Natal, este, para o qual as pessoas se preparam afanosamente, calcorreando as ruas, abrindo caminho à cotovelada nas superfícies comerciais – ou então, sorrindo e dizendo: “Faça o favor de passar, afinal estamos no Natal…” – comprando quantidades absurdas de bacalhau, de carne, de ovos, de bolos e abrindo as portas a uma quantidade de gente da família de que nem sempre gostam e que só convidam porque…é Natal, não comemora o nascimento de Jesus. Pouca gente pensa nisso e, mesmo que pense, remete esse facto para uma ou duas missas ou para a ostentação de um presépio, dentro de portas, com a tríade sagrada, o jumento e a vaca, ornamentado de luzes e ao lado da árvore da Natal e do tal senhor rechonchudo de fato vermelho e barbas brancas.
Outros decoram o exterior da casa. Põem Pais-Natal a trepar pelas janelas, mangueiras multicolores recheadas de pequenas lâmpadas que, reluzindo e piscando, traçam o recorte de fachadas e de árvores, e demais aparatos; as cidades usam e abusam de enfeites polícromos, erguem árvores de Natal de arame com muitos metros de altura – e já vemos os municípios a competirem entre si pela árvore de maior porte (e eis que me lembrei de imediato da Torre de Babel), fazem-se centenas de actividades ao ar livre ou nos teatros ou ainda nos restaurantes onde, com o pretexto do Natal, se juntam hordas de funcionários desta ou daquela repartição, magotes de gente, vindos daqui e dali, para, sempre em ordem ao Natal, se encherem de vinho e de comida.
Poderia continuar e aumentar esta lista de comemorações efémeras e fátuas, coloridas e reluzentes, cheias de temperos salgados e doces, mas não creio que valha a pena: qualquer um tem acesso exactamente à mesma panorâmica, ao mesmo guizalhar, às mesmas luzes e cores e atropelos. Ou a outros de idêntico cariz.
Lamento dizer que, quando se aproxima o Natal, sou acometida de uma vontade enorme de fugir para um sítio remoto onde não chegue semelhante anacronismo. Sim, anacronismo, a palavra foi escolhida de propósito, já que absolutamente nada de tudo isto que faz as pessoas agitarem-se, numa insensata correria ao consumo, exprime a festa que deveria ser feita à criança que nasceu naquele dia, em Belém, há mais de 2000 anos e que, pelo seu trabalho na terra e através daqueles a quem ensinou uma nova doutrina, acabou por transformar o mundo. Não falo somente de religião e das crenças ritualísticas com que os homens têm vindo a seguir Jesus. Falo de antropologia, filosofia, história, sociologia; falo de arquitectura, de pintura, de literatura e das artes em geral; falo de guerras santas e cruzadas de todos os tipos; falo de missões e de missionários. Falo do Homem e de tudo o que nele foi alterado – creia ou não creia na religião de Jesus – por esse nascimento que o Natal deveria comemorar.
Não sei especificar, exactamente, de que género deveria ser uma tal comemoração.
Tendo extravasado há muito do carácter estritamente religioso, assumiu contornos de
festa familiar e social, na qual se homenageia a família e se presenteiam os amigos. Por esse motivo converteu-se numa corrida às compras, num périplo por lojas de todos os géneros, estrategicamente preparadas para adular o consumidor. Por esse motivo, ainda, não dispensa lautas refeições com pratos muito esp

ecíficos, mais ou menos tradicionais. Quem, nas famílias, assume o papel de preparar os banquetes, necessita preparar-se para um intensíssimo trabalho, querendo estar à altura e fazer jus à tradição.

Seja como for, parece que não é possível escapar à comemoração da efeméride.
Há alguns anos, porém percebi que há muitas pessoas que comem o almoço do dia de natal em áreas de serviço; soube também que há estâncias hoteleiras que possibilitam fugas do ambiente familiar para locais públicos, onde se come e dorme, no Natal, a troco de pagamento; sei, enfim, que muitos solitários o passam na confinação dos seus espaços privados, como se fosse um dia qualquer. Pensarão no Natal, todos esses e os outros, hospitalizados, dementes, carentes, sem-abrigo?
À medida que ia escrevendo esta não-carta ao Pai Natal, fui percebendo que a época natalícia está entranhada em nós, como se fosse um vício. Desejamo-la para dar e receber presentes, para comer ou servir certas iguarias, para nos deleitarmos com as músicas e os enfeites de casas e cidades, para acreditarmos, por uns dias, que podemos ser melhores, que até já somos bons. Mesmo quando festejamos a contragosto, fazemo-lo: porque nos pareceria mal, de nós para nós próprios, determo-nos, em indiferença, quando todos celebram, porque nos sentiríamos defraudados, na infância que resta de nós, em nós, por não almejarmos a prenda no sapatinho por baixo da chaminé. Mesmo sentindo que é vazio e fátuo desejar boas-festas a torto e a direito, fazemo-lo e até nos sentimos bem, porque do outro lado nos retribuem e a vida parece ganhar brilho. Mesmo se formos pobres, doentes, tristes e solitários, procuramos o enfeite e a sobremesa, erguemo-nos para brindar nem que seja a sós, esboçamos um sorriso: e, magicamente, a tristeza dissipa-se por algum tempo.
Por algum tempo. É essa a verdadeira essência destes dias em que nos aplicamos a ser bons e felizes: é que eles representam um lapso da vida, uma ruptura no correr rotineiro dos dias, uma entrada em esferas de irrealidade, onde sendo o que não somos acabamos por ser.
Conheci um ateu – chamava-se Miguel Torga – que, mesmo negando Deus, mesmo escolhendo, para si, um funeral profano, sem cruzes ou sacerdotes, ou rezas e toques de sino, celebrou o Natal todos os anos da sua vida. Fê-lo em família e também em comunhão com os leitores do seu Diário. É dele este poema de Natal:

NATAL (1987)

Nasce mais uma vez,
Menino Deus!
Não faltes, que me faltas
Neste inverno gelado.
Nasce nu e sagrado
No meu poema,
Se não tens um presépio
Mais agasalhado.

Nasce e fica comigo
Secretamente,
Até que eu, infiel, te denuncie
Aos Herodes do mundo.
Até que eu, incapaz
De me calar,
Devasse os versos e destrua a paz
Que agora sinto, só de te sonhar

Natal?! Mesmo os que o não querem ou ignoram ou maltratam sabem que, lá no fundo, ao evocarem o Menino-Deus e o seu nascimento. estão a celebrar, afinal a sua própria humanidade.

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