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MARIA "BONITA"

HELDER BARROS
A Maria, conhecida por “Bonita”, nasceu numa freguesia de Amarante na década de trinta do século passado tinha uma história de vida, fora do normal, tendo em conta a forma de viver da altura. Filha de uns cabaneiros muito pobres que viviam na serra, não passava despercebida a sua beleza feminina. Desde muito nova, ganhou a alcunha de “Bonita”, pois tinha um rosto e um corpo que eram deslumbrantes… sempre suja e mal-arranjada, não passava despercebida a ninguém. Quando frequentava a escola já parecia uma mulher, desenvolta, trigueirinha e maior e mais bem constituída que as demais raparigas que tinham a sua idade.
Cedo se fez mulher, pois a sua Mãe morreu de tuberculose, quando ela tinha três anos de idade, logo desde muito nova aprendeu a defender-se sozinha, a carregar lenha para a lareira da cozinha, a cultivar a horta e a tomar conta dos animais e dos seus dois irmãos e pai que, embora mais velhos, não tinham o desembaraço e maturidade da “Bonita”. Quando ia à feira com os manos e o pai, todos os homens da Vila, solteiros, casados, viúvos, olhavam-na discretamente, mas de forma quase instintiva, o que a deixava toda vaidosa e ainda mais desempenada, a fazer os negócios que considerava bons. O pai e irmãos, pouco argumentavam, pois, o diabo da moça conseguia com a sua maneira de ser, alegre e despachada, dar a volta aos mercadores que ficavam como que enamorados pela sua presença. O seu poder de sedução extravasava, na sua sensualidade feminina, de mulher muito linda e perfeita, muito segura de si!
Se algum homem de forma mais arrojada, tentava seduzir a Bonita, os seus irmãos, rapazes fortes e musculados pela vida difícil e de trabalho que levavam, estes rapidamente se aproximavam e anulavam rapidamente qualquer avanço menos correto para com a sua irmã, o que a fazia sentir ainda mais poderosa e mais desinibida. Bonita, que vivia no meio daqueles três homens, era como que a sua Mãe, mas ao mesmo tempo, era a protegida deles, mais parecendo filha dos três. Mas, o tempo passa e Bonita estava no esplendor da idade, linda e formosa como poucas, com uma daqueles belezas, sorrisos e posturas que parece que desafiam os homens, começou a inquietar os seus guardiões, com a sua forma de ser, quase descarada, deixando qualquer homem louco, só com a sua simples, mas vistosa presença.
Um dia no fim da missa, saindo Bonita da igreja com as mulheres do coro pastoral que ela frequentava, o Manuel Moreno, homem alto, desempenado e senhor de muitas conquistas femininas, investiu para ela, no sentido de lhe perguntar o nome. A Bonita riu-se do atrevimento e com uma gargalhada desafiadora, logo lhe disse: “Isso querias tu saber magano, pergunta ali aos meus irmãos…”. Estes, quando avistaram a proximidade de Moreno para com a sua irmã, irromperam por entre a multidão que se juntara no adro da igreja da freguesia, tendo o José puxado a irmã dali pelo seu braço. José era o irmão mais velho, vinte e quatro anos, Joaquim tinha dezanove e Bonita uns belos catorze anos, mas que deitava as moças da freguesia mais velhas a um canto…
O Manuel Moreno não era homem de se ficar e nas tascas da freguesia lá ia dizendo que casaria com Bonito, não fosse ele mais o Moreno! Ora também o Toninho, o Lobo, alcunha que tinha por ter fama de matar lobos e cães selvagens à varada, se havia enamorado de Bonita e um dia numa dessas sessões de tagarelice que o Moreno promovia para fortalecer a sua vaidade, o Lobo enfrentou o Moreno, interpelando-o violentamente: “Morra aqui eu se não te roubo a Bonita, oh Moreno, que mais pareces um cigano!”. Moreno calou-se, com medo ao manejo que o Lobo tinha da sua vara que sempre o acompanhava e o Lobo saiu rindo do silêncio geral da sala… 
Dizem que somos gente de brandos costumes, que quase sempre é só fumaça, mas sabemos bem que, designadamente, em questões passionais sabemos ser muito irracionais, qual maldição da nossa latinidade… desde este acontecimento, em que os machos foram altamente colocados à prova, perante a comunidade, não se poderiam esperar tempos de paz; ademais, Moreno calou-se e não enfrentou o Lobo pelos cornos, salvo seja, mas na qualidade de presa esperta, esperará o seu momento para ficar na mó de cima.
Passaram uns dias e aparece na casa de Bonita, o Lobo, mais a sua vara, pelas costas presa nos braços, como ele gostava de caminhar, pelos trilhos da aldeia. Dirigiu-se ao patriarca e sem mais demoras pediu a mão de Bonita em casamento. O pai e os dois filhos é que não acharam graça ao descaramento do lobo, Bonita também não e correram o homem com má fama à pedrada. Este como se viu em desvantagem e sem margem de manobra para manejar a vara por entre a chuva de pedras, qual lobo vivaço e bateu em retirada a praguejar e a rogar vingança.
A situação agudizava-se, Lobo e Moreno, não queriam ficar mal e num dia de feira na Vila, depois de bem bebidos, embrulharam-se num diálogo buçal e decidiram resolver a demanda à paulada no centro do campo da feira. A multidão criou uma clareira onde os dois se começaram a bater e o entusiasmo popular era grande. Lobo era forte e mais físico, Moreno mais raposa, mais calculista e esperto. Numa situação em que os paus se cruzaram no ar, os dois dobraram-se e baixaram-se, Moreno retira o pau, Lobo cai sobre si, moreno saca de um punhal e matou-o, ali, no meio de todos, num ato de grande cobardia. Todo o povo começou a fugir, só o Moreno ficou com o punhal espetado no seu ventre… vieram dois polícias e Moreno foi preso!

Provérbio Francês: A quem tem mulher bonita e castelo de fronteira, nunca lhe falta debate nem guerra.

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