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TEMPO DOS SONHOS EM DIAS DE NATAL

ALVARO GIESTA
Lavro as minhas crónicas, e tudo quanto ao ofício da palavra em verso arranco à imaginação, sempre com a mesma ferramenta: usando a velha caneta de tinta permanente Parker 51, made in USA, modelo Aerometric da 2.ª geração de 1950; para quem está afeito a este tipo de instrumento da escrita, saberá, certamente, que ela tem antiquíssimo aparo ultrafino em ouro de 14 quilates e a tampa do mesmo metal nobre encimada por uma madrepérola de cor branco baço. Tem, exactamente, a minha idade e eu sou a 3.ª geração que a usa – a 1.ª foi o meu avô maternal. Aquele venerando velhinho de oitenta anos, nessa data, a quem eu, aos oito anos de idade, já lia, correctamente, o jornal “O Século” que mandava ir do Porto pelo velho método do único transporte de então: o caminho de ferro da (ex) Linha do Douro. O jornal que só lhe lia no dia seguinte à edição depois de ter calcorreado os mais de 150 quilómetros, até à estação do Vesúvio naquele “pouca-terra” estonteante e enfadonho, bafejado a fumo negro do carvão que alimentava o estômago da velha máquina a vapor, não contabilizando os mais de 300 que o distanciava de Lisboa ao Porto.
Esta é a velha caneta que serve para contar dum menino dos anos 50 que sonhou sonhos que (quase) nunca se cumpriram e que hoje, homem na recta final da vida, bem anseia ver alguns deles cumpridos. Um filme de curta-metragem que bem pode ser real!
Que saudades desses tempos! Saudades que hoje mais se acentuam por ser época de Natal. Época em que os meninos sonham sonhos sempre novos. Sonhos virgens ainda por sonhar.
Vêm-lhe, à memória, as imagens dessa infância inocente que o tempo há muito ocultava, a seu pedido, no mais fundo do seu ser. Imagens de que, pelo menos de duas vezes no ano – a época Natalícia e a da Páscoa -, fazem parte do seu rosário de dores.
E recorda esse tempo longínquo que situava a sua aldeia, num lugar onde nem Cristo desceu com medo de aí perder as sandálias, engalanada com as melhores e mais ricas colchas de renda fina, seda pura e veludo colorido, debruçadas das janelas e sacadas entre vasos floridos, à espera do «Menino» para se beijar. A velha aldeia a lavar as lágrimas nas águas do Douro, que desciam escorregadias pelos pedregulhos e seixos do seu leito, enquadrada pelo Picoto, na margem esquerda do rio e pelo Monte Meão, na margem direita, como se o mundo ali terminasse e este monte escondesse, o paraíso, do outro lado de lá, oásis de vinhas férteis a formar a Quinta de Vale Meão, reino que foi de Dona Antónia Ferreirinha, a maior celebridade do Vinho do Porto.
Nesse tempo ainda se sonhava. Naquele tempo, ele ainda sonhava!
Lá ao fundo o feroz Cachão de Vargelas, que aqui o Douro, desse tempo, era traiçoeiro. Hoje perdeu o senho bravio com que ontem dominava, pelo medo, nos precipícios; hoje, é um longo lago tranquilo que a Barragem da Valeira produziu onde se passeiam longos barcos – quase paquetes – desde o Porto a Barca de Alva, para gaudio dos nossos “hermanos”.
Naquele tempo, o rio cavalgava as rochas do leito, vindo desbragado das altas terras de Espanha como se ele fosse, apenas, o único dono da vida e do tempo. E o sonho do menino desse tempo começava aqui com a visão dos barcos rabelos carregados de pipas de carvalho subindo, a custo, o Cachão da Valeira e depois o Cachão de Vargelas que a aldeia de Arnozêlo velava noite e dia. À força de ombros e de pulsos de meia dúzia, ou mais, de homens que, em cada uma das margens enfrentava a fúria das águas para vencer o obstáculo do cachão, ao compasso uníssono do “vai, força… agora”. Depois a mansidão do resto do percurso, entre os túneis até ao Vesúvio, onde se estendiam as possessões vinícolas da Ferreirinha. O tal paraíso sonhado para lá do Monte Meão.
O sonho dele descia, rio abaixo, com os mesmos barcos rabelos, uns dias depois, rumo às Caves da Régua e de Gaia – outro mundo por sonhar! -, a toda a força dos rápidos das águas bravias e do saber do mestre que, altivo, no quadrante, libertava a direcção do longo remo à popa que servia de leme (a espadela), tirava o seu boné e, em seguida, erguia as mãos ao céu, cruzava os braços e exclamava «agora vai com Deus».
Ontem, o sonho que nunca se cumpriu, continuava à espera na bota colocada à beira da chaminé.
O pedido desse tempo pouco ia além da bola de borracha que tinha visto na feira do mês em Freixo de Numão ou do carrinho de plástico vermelho e verde (as cores da ditosa bandeira) que lhe aguçava o apetite na tenda das bugigangas. Até o cego do bandolim que com voz dolente conseguia grandes ajuntamentos, para o ouvir cantar e levar a troco de dois tostões os folhetins com o triste fado da cigana Carmencita, a contragosto dos defensores da Lei e da Grei porque podiam levar ocultos propaganda contra o regime, lhe despertava o sonho e o desejo de um dia poder ter, na bota que todos os 24 de Dezembro punha ao lado da lareira, ao menos uma flauta de plástico. Nunca tal sonho e desejo se lhe cumpriu.
No dia seguinte, manhã cedo, apenas a promessa, mais uma vez, de que o Pai Natal não pudera descer à aldeia devido à neve no caminho sinuoso e ao negrume da noite e que voltaria, para o ano e não se esqueceria dele.
A avó Ana lá lhe acalentava o soluço que arrancava à alma com a oferta de um trigo de quatro “cornelhos”, como então se baptizava o pão-trigo de quatro cantos redondos. Ao canto da cozinha, perto da mesa de pinho, esperava-o o brinquedo de sempre e de todos os dias até ao Natal seguinte: a bola de trapos que a mãe lhe fizera da meia de algodão, tecida à mão, meio-rota, que fora pertença do pai que há muito embarcara para a longínqua África à procura de melhores dias.

Hoje, a sombra desse menino de antanho desenhada no corpo dum homem meio- acabado, que subiu a corda da vida à força do pulso e à custa do suor e da honra, prestigiando o nome de que se orgulha, e que trabalhou para um final feliz, depositando a confiança na mão de quem o enganou, mais não almeja do que a justiça divina, se é que a há, que na dos homens, que (des)governam, há muito perdeu a fé.

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