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BOM 2016, TODOS OS DIAS

“És perança” 
MIGUEL GOMES
A esperança parece espreitar de cada vez que as nuvens soltam as mãos e, afastando-se, deixam que o céu noturno e escuro exiba a escuridão polvilhada de luz, como se uma atenta e bondosa cozinheira, de avental mascavado de sabores e cores de outras receitas, afundasse uma mão na bacia onde descansam infinitos flocos de fé e a tirasse, em seguida, fechada e prenhe, com pó a soltar-se acompanhando o movimento do braço como a flamejante cauda de um cometa, para a espalhar sobre a vítrea mesa da cozinha. Estaremos abaixo da mesa, crianças, como que a brincar com os pequenos brinquedos que nos dão adultos, crianças ainda, sem saberem que olhar para cima, acima e por dentro de nós mesmo, é o brinquedo que nos permitirá ter esperança.
Na noite de ano novo, quando as badaladas se vão repetindo ao redor do berlinde azul esverdeado que é o nosso, salpicamos o céu noturno de estrelas que atiramos ao ar, aspirantes de cozinheiros e aprendizes de agricultores, semeando no firmamento uma limitada infinitude de pontos luminosos que ribombam como trovões, fugazes, ascendendo rapidamente como a nossa vontade para bruxulearem no auge e, depois, como os nossos dias em vidas que por aqui perpetuamos, deixando-se cair de costas, levados e lavados pelo vento e pela noite, num pendular e, por vezes, espiraldado movimento, de olhos fechados, com o resto de luz que nos sobra depois da explosão, e com o sorriso típico de criança que vamos esquecendo no percurso, de vida e de faúlha, para cairmos já esmaecidos e invisíveis por tão negros ausentes de luz.
Temos a aspiração de aspirar, por isso vamos querendo foguear artificiamente na noite em que prometemos deixar para trás parte de nós, erguendo-nos do casulo que nos pariu para sermos qualquer espécie de esperança. Mas a esperança, seja pela falta de polvilhadores, seja pela proliferação de profissionais do amedrontamento que pintam o dia que se segue com as mesmas ideias e sonhos urdidos que existiam antes do esperançoso vislumbre do céu noturno, com as passas na mão, o copo na outra, os pés firmes no chão e um efeito de não sei o quê a palpitar onde em tempos morou o coração, acaba por se esvair como a trémula centelha que restou da explosão que originou a própria esperança.
O dia seguinte, em sequência do anterior, continua a acrescentar a esperança aos nossos dias, embora com menos protuberância, vai renascendo como se seguisse os mesmos passos orbitais nos nossos astros. 
Existirá vida antes da esperança? Como um lançamento à vida de um desafio, nasce baixo, lento, até harmonicamente se tornar melodioso per si. A esperança como respirar, como o bater sincronizado com uma fonte inesgotável de certeza, um coração que ganha vida pela própria vida, como o renascer que soluça no medo e é resgatado pela esperança.
A esperança, o renascer, a certeza da mesma em nós leva-nos ao término de uma jornada em crescendo até se tornar inaudível, invisível, apenas palpável pela serenidade do olhar de quem se sabe imortal. Assim é o renascer da esperança: Ser esperança.
É fácil deixar que o embalo deste calor ainda morno que a esperança pariu leve-me para fora de um caminho de terra, calcado por animais e gentes, em labuta ou assim a modos de vida, como quem luta. 
Vou enchendo o alforge com histórias que não vivi, encosto a um lado o pão que me resta, falta-me o bagaço, mata-bicho, mas sobeja-me em sofreguidão de uma aldeia perdida, um local ermo, como são todos os locais para onde nos dirigimos, mais cedo ou mais tarde, em busca do nosso lugar. O silêncio e o som dele mesmo. O antagónico e o complementar. Uma criança chora. Um colchão range e eu sei que alguém se sentou ao lado dela, colocando as mãos nos cabelos, afagando o amor para que, lentamente, vá afastando o medo e exorcizando monstros, enquanto as lágrimas secam e se deixam adormecer, elas também, pelo carinho.
Um corpo acocorado vai raspando entre paralelos, arranca ervas como quem cata a cabeça de um petiz com piolhada. Alguém resmunga. Conversas que se têm com aparelhos estranhos. O corpo acocorado, arrasta pernas numa coreografia que ninguém aplaudirá, ouve passos e já nem levanta o olhar, ainda que o levantassem a ele. Está habituado a deitar corpos à terra, emoldurados numa redoma de madeira, cetim, a falar com eles enquanto eles, a rigor vestidos, se deixam sentar ainda confusos da recente condição de ser e não ter corpo. Acocorado. Como quem tivesse sustentado a vida e, cansado, ou acordado, decidisse sucumbir ao peso da carga e manter-se assim, acocorado, longe dos olhares que nada perscrutam, porque não há solidão maior que olhar para os olhos de quem quer que seja e não ver vivalma. Como quem abre uma porta de madeira e esta se desprega das dobradiças de couro, sem ferrolho ou trave, na esperança de ver e ouvir o lume crepitar numa lareira onde um caldo se aquecia e ver, apenas, o negro que sobrou depois da ausência de corpos terem incendiado o abandono. Há uma esperança que alimenta a vida. 
Uma noite ainda por viver. A calmaria descansa enquanto a tempestade se afoita e corre mundo, montada na ignorância humana, queimando e agredindo, para se colher, esperançosamente, a calma que ressoará quando o último foguete arder no ar e os nossos rostos, juntos, virem apenas a luz que somos.

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