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BIRD Magazine

O TEMPO E AS ESTRATÉGIAS DOS BONS E DOS MAUS MALANDROS

Uma senhora pergunta ao médico:
– Doutor, sexo anal engravida?

Responde o médico:
– Mas claro, minha senhora! De onde pensa que vem a maioria dos nossos políticos?
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ALVARO GIESTA
Há muitos anos escrevi esta anedota que um velho amigo de Angola, há muito residente em Carcavelos, me contou, como introito de um artigo de opinião para o Webjornal Balaio de Notícias, de Sergipe, Brasil, para onde escrevia na altura, a que dei o nome “A estratégia: dos bons e dos maus malandros”. Ao mesmo tempo, mais ou menos sobre o mesmo assunto, embora com outras cambiantes, escrevia um outro, como alternativa ao primeiro, com o título “A fome do poder”, e que destinei que fosse, também, apresentado ao jornal impresso (ora extinto) Notícias do Barreiro para onde eu também escrevia. Acabou por ser o segundo o eleito para o citado Webjornal, publicado na sua edição n.º 81, enquanto que o mesmo artigo, apresentado também ao jornal português, morria às portas da redacção, ao que penso por tecer algumas considerações criticas sobre um político, que se julgava o dono do poder, da democracia, da verdade, numa palavra, o dono do Povo. Morria o artigo e evaporava-se (evaporaram) este autor das colunas de opinião do (ex)Notícias do Barreiro para quem escrevia apenas pelo prazer de escrever, portanto, a custos zero.
O passado
O artigo “A estratégia: dos bons e dos maus malandros” ficou na gaveta, não a fazer a criação de caruncho mas, a fermentar, a levedar como requer a farinha com que se fabrica o pão, para a ocasião mais adequada – ela surgiu anos depois: aquando do anúncio da candidatura (tão desejada então) do professor Cavaco Silva às presidenciais de 2006. E escrevia eu, nesse ano e nessa altura, a propósito destas eleições presidenciais, na “Estratégia: dos bons e dos maus malandros” em versão adequada à nova realidade de 2006, que também publiquei no Brasil, onde já fervia a campanha de recandidatura à presidência de Lula da Silva, no já citado órgão de imprensa: «Para a sua candidatura ter o peso que merece e “empolgar”, (que hoje para as coisas sérias, os políticos já se habituaram em transformar em festas), o País numa campanha pré-eleitoral à altura deste candidato de peso político (a Cavaco Silva me referia, então) – a quem as sondagens dão (davam, voltando ao tempo passado) a maioria absoluta logo à primeira volta (!?) (a exclamação e a interrogação a mim pertenciam) – nada melhor do que ter, pela frente, um candidato como Mário Soares, apesar dos vários “apesares”».
E continuava o artigo: «Mário Soares (ao tempo das presidenciais de 2006 era apenas um nome, que a idade não perdoa), que fez vibrar emoções que catapultavam massas, que mais das vezes se lançavam de olhos fechados para a frente de combate na certeza convicta da defesa do ideal socialista.» Também nesse meu escrito dizia que Mário Soares «já não é (não era, repondo o tempo passado) o elo que une, mas o divisor que divide (dividia, ao tempo de 2006) um partido: o “seu” partido socialista. E “seu” porque se julga (julgava, ao tempo) o único dono dele (do PS). Porque a sua “sede de poder” (ao tempo em que eu escrevia esse texto) cega, surda e muda se sobrepõe/sobrepunha ao bom senso, culpa dos seus vertiginosos mais que oitenta anos, para não reconhecer competência ao seu velho, mas bem mais novo do que ele, camarada de tantas lutas políticas no exílio: o “o crucificado” socialista Manuel Alegre.»
Acrescentava eu em tom interrogativo nesse artigo de opinião de então, acerca do “velho lobo” da política que se julgava o “dono” do “seu” PS: «Será a fome desmesurada do poder que leva Soares a não reconhecer competência ao velho companheiro de muitas lutas, Manuel Alegre, ou será porque ele se julga o dono da democracia que entende usar quando lhe apraz e lhe dá jeito, ao apregoar mais de seis décadas de militância contra um regime extinto (e referia, a seguir, dos dados cronológicos colhidos do ensaio publicado em 2004, no Público, por Pacheco Pereira), desde que “em 1942, altura em que entrou para o PCP e de onde foi empurrado em 1951, por não convir à ideologia do mesmo, passando depois, sucessivamente, pelas organizações de oposição moderada e anticomunista em 1954”, ou porque se julgou arauto da democracia “denunciando o crime da morte de Delgado em 1958 e denunciando onze anos depois (em 1968) a hipocrisia do regime no “Portugal Amordaçado” que escreveu após esse ano até fundar, em 1973, o “seu” Partido Socialista”, passando uma esponja, como lhe convinha, pelo “ano de 1969 quando demonstrou esperança em Caetano de que ele era capaz de liberalizar o regime salazarista” (pura utopia enquanto houvesse guerra colonial)?»

Reflexos do passado no tempo presente
Apregoar 60 ou 40 anos de actividade política, como então e hoje, não confere direitos, ao apregoador ou apregoadora, de se considerar melhor que os seus adversários, não para a condução dos destinos do País como se pretende fazer crer aos incautos, mas de controlador daqueles que têm nas mãos a sua condução, obrigando-se ao garante do cumprimento do que está instituído constitucionalmente. Em contraponto, aqui está quem ontem se arvorava no melhor que o outro e hoje o único capaz de garantir tudo sobre todos – leia-se: Mário Soares (versus) Maria de Belém.
Lembram-se (?) dos resultados finais que ditaram os portugueses, para citar apenas os três primeiros dos 6 candidatos às urnas – que 13 foram os “gulosos aventureiros” a anunciar candidatura naquele longínquo ano de 2006: Cavaco Silva 50,54 %, Manuel Alegre 20,74 % e Mário Soares, que se arvorava vencedor, não apenas contra o candidato da direita mas, também, e principalmente, contra o seu camarada de trincheiras, com a estrondosa derrota de 14,31 %. De que lhe valeu, em 2006, a gula, a ganância, a fome do poder, a sede da cadeira presidencial que aquecera, já, durante 10 anos, no interregno de tempo desde 1986 a 1996? Serviu-lhe apenas, e só, para destronar o seu velho amigo e camarada de tantas lutas democráticas contra o anterior regime? Não! Serviu, também, para ajudar a sentar em Belém quem, desde essa data até hoje, favoreceu sucessivos governos nos desgovernos e práticas de actos de má gestão que levaram o País à bancarrota e à penúria a maioria dos portugueses.
Isto, para dizer que hoje, em 2016, em termos de ausência de lucidez, ganân

cia e falta de escrúpulos na corrida ao assento de Belém, é tão igual à de ontem, 2006; ontem, dez anos de loucura tão igual à de hoje nesta corrida ao palácio-cor-de-rosa para estadia de luxo de cinco anos, ainda que haja quem iluda os eleitores, com as suas promessas românticas, da devolução do palácio-cor-de-rosa ao povo se o povo o eleger Chefe do Estado. Desiludam-se os que ainda teimam viver do e no sonho e da ilusão das promessas.

As evidências do presente
Hoje, o “Cavaco” que inquieta já não é o Cavaco Silva que atormentou aqueles que têm sempre prontos o dedo para colocar em riste na acusação; já não é aquele que inquietantemente governou ou depois fiscalizou, como lhe convinha; já não é este que se despede desta longa estadia de dez anos com marcas assaz negras na sua derradeira meta presidencial, ou aquele que antes fora o divino salvador da Pátria graças aos divinos dinheiros de Bruxelas, mal colocados, pessimamente distribuídos e, pior que isso, nunca fiscalizados; já não é o condutor e gestor sábio que se quis, então, útil a um destino que se queria sério a um país e para um país que caminhava – e de que ainda não levantou completamente a cabeça – a passos largos para o desânimo e inconformismo, quase se limitando a acolher (então e ainda agora) de braços cruzados ou pendentes, a desgraça de todos os dias, esperada de cada vez que se adivinhava (e ainda hoje se teme) o primeiro ministro ou o seu ministro das finanças públicas a vir à liça a dar a notícia de mais um buraco a fazer ao cinto ou a dar o dito pelo não dito nas promessas eleitorais que o guindaram ao poder.
Hoje, o gestor, está prestes a ceder a cadeira do poder a um sábio sofista, a quem a grande maioria chama “o professor” ou o analista político. Eu chamo-lhe “o sofista” – aquele que convence o povo pelo dom da palavra. Aquele que, como outros opositores se lhe dirigem, não tem a craveira política de 40 anos ao serviço da causa pública para ser um bom presidente. E não terá os tais 40 anos de saber político, o que não quer dizer que, por não tê-los, não possa vir a ser um bom Chefe do Estado.
Embora, ainda ontem (refiro-me ao último dia do ano de 2015), quando o ouvia em entrevista no telejornal da estação televisiva que há 15 anos o lança para o poder de/a Belém, depois de eu ter espremido as suas ideias programáticas vertidas no dito jornal (ele é quem chama “ideias” ao que não disse, pois eu chamo-lhe “coisa-nenhuma”) concluí o que, daí a pouco, dois analistas concluíram: o sofista (o termo é meu) e professor Marcelo do programa eleitoral disse nada. Disse menos do que deita um limão seco depois de bem espremido!
O que ele quis nesse sábio não-dizer, foi agradar a gregos e troianos para não perder as simpatias de todos os quadrantes: da esquerda à direita e aos indecisos. Sabe ele bem (!) que tem que granjear a simpatia de todos os eleitores, mas muito principalmente daqueles que duvidam e hesitam se vão ou não votar naqueles que dão razão à resposta do médico àquela senhora que lhe perguntou se “sexo anal engravida” – é que destes depende também a garantia de eleição, à primeira volta, do professor Marcelo.
Sem pretender desvirtuar o artigo, digo: expectante, sou daqueles que penso que a grande maioria dos outros candidatos são políticos igual àquilo que o ânus da anedota expele – com todo o respeito para a substância expelida que apenas incomoda pelo mau cheiro, mas garante, pelo alívio que o nobre órgão dá à tripa, quando a expele, a perfeita saúde ao corpo todo.
Face a isto, o que resta ao povo: escolher o “sofista” que “cometeu o crime” de prender durante 15 anos as massas ao pequeno écrã? escolher quem diz que é o/a único/a garante que a constituição se cumpra, sem convicção de o ser, ou antes, com a convicção de que, se não é coisa-nenhuma é, pelo menos, coisa-poucochinho, coisa-pequenina, coisa-sem-perfil para cumprir e fazer cumprir a constituição que jura, coisa como caldo-de-galinha-sem-sal que se dá ao doente anémico iludindo-o que cura, na certeza de que esse caldo-sem-sal serve apenas para iludir o paciente? ou escolher qualquer coisa julgada útil do resto que sobra igual ao produto que o nobre órgão se atreveu a expelir?
A finalidade objectiva de qualquer destes últimos, para além da busca feroz pela cadeira do poder, é colocar o adversário do outro lado da barricada, erguendo as suas bandeiras afinadas pelo mesmo diapasão, com desprezo absoluto para os verdadeiros interesses de todos os portugueses.
O tempo dos figurantes e dos figurinos
As chamas inflamadas ainda agora estão no princípio: não tardarão a incendiar ânimos e a fazer decidir indecisos mesmo do lado da barricada donde nunca os houve. As pessoas de hoje já não são pequenas de inteligência. E sabem decidir e separar o trigo do joio para que a semeadura dê bom pão. As pessoas de hoje já não são os labregos, os pategos e os borregos doutros tempos!
Vai longe o tempo em que os labregos e pategos, escondidos numa ignorância vergonhosa e envergonhada, embarcavam a penantes e calcantes manhã cedo ainda longe de romper a “alba” – com a devida vénia ao género literário da poesia provençal – para aplaudirem Sua Excelência o Presidente do Conselho, de passagem nas suas “precárias” saídas, não mais longínquas do que para os lados da Batalha ou de Alcobaça, das poucas que se lhe conheceram. Esses labregos, desse «Portugal Profundis», lá iam eles vaidosos nas suas faixas brancas de cruzados onde se estampava a rubra Cruz de Cristo, enquadrados pelos esbirros da União Nacional, qual manso rebanho de cordeiros com os olhos pregados ao chão que os possantes carneiros não deixavam encarar de frente a luz do dia.
Longe vai o tempo em que esses borregos, ensinados a balir sempre a mesma canção monocórdica “Sim, Senhor Presidente”, calcorreavam os tais caminhos, pedregosos ou enlameados, caísse chuva ou espessa neve ou soprasse agreste vento, para irem “deitar o voto” a mando do senhor Doutor ou barão Fulano de Tal da paróquia. E sempre o mesmo voto. Dormisse já, o votante, o sono eterno à beira do cipreste, ou andasse a fazer pela vida nas longínquas áfricas ou distantes brasis. Desses, nem a borrega-cônjuge ou borrego-descendente precisava de “pôr-a-cruz” no quadradinho, que há muito o tal doutor ou barão a desenhara na perfeição.
Era assim o «Portugal Profundo» de outros tempos para lá das escarpadas montanhas levantadas até onde o céu é mais próximo e mais azul e das planícies eternas estendidas, qual muro de Berlim, a separar os labregos, os pategos e os borregos dos figurantes e figurões que ontem, tal como hoje, formam a faustosa civilização dos presumidos, convencidos e vaidosos maus políticos que se julgam bons e mais honestos que os outros, só porque são citadinos e ostentam um canudo.Sopram agora novos ventos que os portugueses de hoje já não são “parva intelligentia” nem desprovidos de olfacto – che

iram à distância se os novos ventos trazem nas asas os prometidos bons aromas ou os cheiros dos produtos defecados tão iguais aos que tais políticos exalam.

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