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UMA SOCIEDADE SEM REFERÊNCIAS, É UMA CASA SEM ALICERCES

HELDER BARROS
Todos os anos se repetem os votos de Bom Ano Novo, quando se aproximam as doze badaladas, impreterivelmente, na meia noite de 31 de dezembro. E se na componente pessoal de cada um, isso pode perfeitamente acontecer, já no que toca à vida sociopolítica, ecologia humana e natural, problemas do Mundo, os votos de melhorias, fazem parte de um ritual simpático e do politicamente correto, mas com consequências nulas. É dito quase maquinalmente e nem nos apercebemos verdadeiramente daquilo que afirmarmos. Neste ano novo tudo vai ser melhor; ano novo vida nova; deitar para trás das costas o ano velho e esperar que tudo melhore a seguir às doze badaladas; comer as doze passas para dar sorte: eis o grande logro, a nossa previsão encosta-se ao nosso desejo e, no entanto, tudo seguirá, na maioria dos casos, igual ou pior.
É natural desejar aos outros, principalmente aos nossos familiares mais diretos, votos de um ano melhor, isso é até muito humano! Mas quereremos nós todos fazer parte da mudança. Não me parece. Continuaremos a poluir o planeta de forma descontrolada, isso é uma certeza. O Homem é o maior destruidor do meio ambiente, do seu habitat. Vivemos neste dezembro com temperaturas primaveris, as alterações climatéricas são visíveis, estamos a senti-las de forma inexorável e real. Noutros pontos do planeta os fenómenos climáticos extremos fazem parte do nosso quotidiano. Não me parece que o tão propalado acordo climático, nos traga motivos para sorrir, pois, mais uma vez, se adiaram decisões que já vão tarde… à nossa volta, cada vez mais carros a poluir; limpam-se valetas e campos agrícolas com herbicidas que serão levados pelas águas das chuvas, para as linhas de água principais; os sistemas de tratamentos de resíduos orgânicos são ainda muito deficientes, no processo de tratamento dos mesmos e da reciclagem, que também polui… a água que vamos beber e os oceanos. Quanto em miúdo ouvia falar de alterações climáticas nunca pensei em vida sentir os seus efeitos, mas elas aí estão e o pior estará para vir, esse facto é consensual na comunidade científica mundial.
O preço do petróleo continuará a oscilar numa trajetória de altos e baixos, de acordo com os interesses corporativos daqueles que mandam nisto tudo, em matéria energética e não só. Para quando os carros movidos a energias mais verdes, afinal quando deixaremos de lançar toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera e quando deixaremos de poluir as linhas de água e os oceanos que, estão mais ácidos e com toneladas de detritos que não são biodegradáveis, como plásticos e afins. A reciclagem tem que ser obrigatória, temos que nos deixar de continuar a tratar mal o planeta de forma insana e impune, numa esquizofrenia que vai afetar de forma tremenda as novas gerações… é todo um capital que ficará como um legado hipotecado…
Quando seremos mais tolerantes e deixaremos de maltratar o próximo… enquanto escrevo este texto, flutuam num equilíbrio frágil, barcaças de toda a espécie, carregadas de seres humanos no mar mediterrânico, em que múltiplos migrantes fogem à guerra, à fome, à miséria que os assola. Quando é que deixarão de se imolarem pessoas, numa violência que gera mais violência, matando em nome de Deus, numa inversão total de valores, pois o nome de Deus não deveria ser invocado em vão e jamais Deus será sinónimo de morte, pelo menos, para pessoas de Bem… afinal é de vida que falamos, quando o tema é Deus, seja qual for o credo que se professe…
Agora neste grandioso nível de desenvolvimento que a sociedade ocidental atingiu, no pico da automação industrial, em que as máquinas programadas por nós, fazem cada vez mais em menos tempo, tendo uma produtividade jamais alcançada, começam alguns pensadores da área da economia e sociologia a lançar a ideia dos estados atribuírem um rendimento mínimo a cada pessoa, sendo que este conceito já foi testado em laboratórios sociais concretos, com evidentes vantagens. Será que isto interessa à nossa classe política muito bem colocada na vida e dita de esquerda, mas de luxo, alguma mesmo de lixo?… Ando a ler sobre o fenómeno e penso que seria uma boa ideia para uma humanidade, que à custa de lidar com tanta informação em tão pouco tempo, não consegue pensar… não há muita gente a querer repensar o status quo depressivo, cinzentão e urbano em que vivemos, maioritariamente!
Preocupa-me a destruição daquilo que deveriam ser os pilares de uma sociedade mais justa e harmoniosa. A instituição família deveria ser a base de todas as formas de organização social e já não o é… a paróquia que era uma importante estrutura social de agregação, começa a deixar de o ser. A política que tinha uma vocação de proximidade, no domínio dos municípios, das freguesias, em que o presidente da junta conhecia os seus fregueses, começa a perder estatuto e importância, levando a que sejamos praticamente representados por deputados que elegemos, mas não conhecemos, nem jamais os iremos conhecer…
Uma sociedade sem referências, parece-me uma casa com alicerces muito débeis, sempre na iminência do desmoronamento. Penso que estamos enquanto humanidade num ponto sem retorno e numa encruzilhada: ou paramos para pensar e repensar a nossa existência, ou a decadência será o futuro mais provável; ao mesmo tempo, temos tanta informação, tantas interpretações da mesma, que nos cria uma forma de entropia social… da qual não conseguimos sair e continuamos na nossa correria diária e louca, numa espécie de alienação, autismo ou de esquizofrenia social…
Além disso, somos uma sociedade onde a corrupção impera, um mal que vem de tempos longínquos, vide o exemplo das nossas ex-colónias ultramarinas, onde a mesma é um autêntico cancro social, com teias vastas e intrincadas, e que se mimetiza de geração em geração, não havendo sinais de mudança a esse nível.
Resta-nos a esperança num Grande ser humano que nos apareceu, o Papa Francisco I, a sua forma de afrontar as ideias feitas de acabar com os consensos hipócritas, o seu modo de estar sem medo da verdade, um Homem que é capaz de travar lutas difíceis, que jamais se acomoda; que faz do seu Ministério uma oportunidade para a mudança dos nossos ideias, do nosso conceito errado de vida. A vida deveria ser esperança e não morte; ou por outro lado, se a morte faz parte da vida, antecipa-la não deveria fazer…
Citação de Albert Enstein: “Os ideais que ilumi

naram o meu caminho são a bondade, a beleza e a verdade.”

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