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A POESIA HOJE – A VALORIZAÇÃO DO PARTICULAR, DO CIRCUNSTANCIAL E DO PRIVADO

«Enquanto a glória de Fernando Pessoa ia subindo todos os degraus, e os seus versos tornados pasto para toda a mediocridade universitária exibir um amor pela poesia que nunca teve, uma discreta aura iluminava a espaços Camilo Pessanha – e isso era um sortilégio suplementar. E havia ainda aquela vida sua vivida (ou antes: não vivida) exemplarmente à margem da impenitente e sentenciosa e sobranceira verborreia nacional, com o poeta apenas empenhado numa crítica da eternidade que era o seu caminhar para o silêncio, mais interessado pelos seus cães que pelos seus contemporâneos.»
Eugénio de Andrade in “Os Afluentes do Silêncio” (Camilo Pessanha, o Mestre)
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ALVARO GIESTA
À semelhança do interseccionismo, classificado por J(oão) C(orreia) de O(liveira) como «uma intoxicação da artificialidade», a escrita do “não-obvio” de alguns poetas de hoje – o hoje a que me refiro é o tempo dos últimos anos do século XX e primeiros do XXI -, é uma «tentativa» de «emocionalizar uma ideia» na busca de um espaço, não novo mas, que seja seu, só seu, criando artificialismos egocêntricos em que as abstractas ideias e divagações de «palavras carregadas de tanta excepção» se entrecruzam com o vago, a maior parte das vezes com coisa nenhuma, chocando pela falta de sentido estético e pelo repisar constante e monocórdico da mesma ideia que se perde em divagações, naquilo que nem sequer é tema. Falta-lhes o diferente, o tal “novo”, ainda que simples, mas que seja arte, para que possa ser, à semelhança do interseccionismo, uma «demonstração brilhante de inteligência estética e de capacidade inovadora» ( Dic. da Lit. Port.). São divagações inócuas que deixam tão embevecidos, quanto perplexos, ao mesmo tempo, pelo não entendimento, os seus leitores e ouvintes que, embora ignorantes na interpretação do texto, que não percebem, porque de labirínticas frases-compostas se compõem tais escritos, envaidecem o(s) seu(s) autor(es) com efusivas palmas de parabéns. Contradição de pasmar… a pretensa sabedoria duns e a ignorância fatal, bem mal disfarçada, de outros!
Este modo de escrever, principalmente em poesia, centrado no ego e implodindo, necessariamente, em temas de circunstância tão mal cantados e repetidos e, pior que isso, mas por isso, também, tão artificialmente vulgarizados, não indicia coisa nenhuma senão ignorante endeusamento dos seus autores que se convencem, convencendo-os ou, pelo menos, fazendo-os crer de que perseguem uma qualquer nova época literária ou pseudoescola que dê cobertura àquela. Nada disso. Nada daqui nasce de novo porque nada, nesta escrita do culto do particular, se faz com sabedoria. Esta tendência não é arte. Para o ser, torna-se necessário desembaraçarem-se, os seus autores, de tudo o que é vago e plasticidade. Nada se faz sem sabedoria!
Podia aqui citar alguns autores de textos, principalmente poéticos, nascidos e a medrar no alfobre dessa rede social chamada facebook (por onde também eu ando, aspirando a aprender) e publicados por uma teia de prestadores de serviços – ganho fácil para essas autointituladas “editoras”(!) – endeusando o que julgam que estão a endeusar, que delas (das obras) apenas se percebe a artificialidade do conteúdo no aglomerado, muitas vezes, de palavras inventadas colocadas no texto-poema sem qualquer critério e/ou sentido, mas fico-me, apenas, pela generalização do texto, sobre tantos dos que leio e só entendo sempre a mesma coisa – a repetição do mesmo tema particular e circunstancial que se vulgariza de tantas vezes repetido. Perde-se a POESIA: a forma mais nobre da escrita.
Quereria e gostaria, antes, de dizer desses poetas como Eugénio de Andrade escreveu de Teixeira de Pascoaes «magnífico e luminoso: espontâneo e simples como crianças, mas também terrível e acusador como um profeta do Velho Testamento», mas não posso. E não posso porque da maioria dos poetas que ora leio – àquela rede social me refiro e mesmo a muitos que proliferam nos escaparates e que se escapam a essa rede social – nenhuma presença, em seus escritos, inquieta, nada em seus poemas deixa os espíritos sequiosos por algo de novo, inquietos e desassossegados, muito pouco em seus escritos é inquietante, fracturante e incomoda em nome da verdade. Quase nenhum deles incomoda em seus versos, como o moscardo atormenta o asinino em dias de verão abrasador. Nenhum deles inquieta e desperta consciências adormecidas, porque se prefere que as mesmas continuem anestesiadas, entorpecidas com a cadência ritmada e cansativa dos «derrames líricos» ou com as metáforas tantas vezes incompreendidas, porque mal usadas no texto que pretendem complicar, como que a conferir-lhe propriedade exclusiva como se de cunho próprio se tratasse.
Atrevo-me a pensar deles, como Eugénio de Andrade dizia sobre Camilo «Preciso de me livrar de tudo o que nele me repele: o seu ódio ao corpo, os seus derrames líricos (…) a sua ambiguidade (…)» e acrescento eu: “o seu virar a cara aos problemas do mundo que desassossegam, que inquietam, que fazem reflectir e questionar nesta procura de respostas”. «Se me livrar disto…», ficam-me tudo, menos escritores/poetas da língua e almas atormentadas capazes de escrever em nome da verdade. É que, como dizia o grande escritor Eugénio de Andrade «Escrever é desobedecer» e a maioria dos poetas que me entram pelos olhos dentro vindos deste alfobre que o facebook criou, diz como Camilo «Escrever é obedecer».
E eu sou alérgico aos grossos títulos de poesia, especialmente antologias de temas múltiplos e desordenados, espelhando excessos de lirismo decorativo e folclorizante, numa profusão obscura de cores semitonadas. Prefiro os livrinhos quase insignificantes, pelo número de páginas, mas com significado pela qualidade do conteúdo, ainda que sejam de uma escrita levada ao osso, «dissecada e dissecante» como em «Manual de Instintos Assassinos» do actual Eduardo Roseira, ou tivessem sido misteriosa e intelectual transparência como «Clepsidra» de Camilo Pessanha. Prefiro-os, assim, de lâmina cortante e afiada, aos namoros exibicionistas das metáforas e imagens para além do útil e que transborda em desnecessário: estes últimos dons de simpatia não me conseguem embruxar!
Devido a estes três sujeitos incómodos e subversivos: a proliferação dos maus poetas, dos maus leitores e dos editores oportunistas – a que eu chamo prestadores de serviços – , a eficácia da poesia, hoje, tornou-se completamente inócua, mesmo sobranceira à verborreia de poemas medíocres. A maioria do que se escreve em verso, hoje, são palavras de água morna sem pretensão a efervescência, sem a capaci

dade magistral de sugerir, de insinuar, de dizer “não”, incapazes de «coar o sarro» dos «derrames líricos» que, de tão repetidos, tornam banal esta forma mais nobre da escrita: a POESIA.

Os autores de tal poesia repetida, confusa e artificial, que intoxica de tanta artificialidade, em que o repetitivo cansa e causa enjoos com pretensão literária, parecem erguer a bandeira de qualquer coisa próxima dum sensacionalismo já tão longe no tempo! Já tão afastado! E, por isso mesmo, tão gasto. Pretendem criar sensações em quem os escuta e os lê, embevecidos, mesmo não percebendo nada do que está escrito. Nem uns, nem outros. Nem quem escreve, nem quem lê. Porque, se perguntarmos a tais autores de tal poesia de circunstância e sensacional, que se perde em palavras rebuscadas e depois, com recurso ao dicionário, traduzidas noutras de maior dificuldade de entendimento dando ao poema um sabor sem sabor, (des)valorizando-o como coisa sua abstracta e confusa, o que querem dizer com ela, a resposta é simples: a poesia não se explica, explica-se (o que é certo) e, a explicar-se, fica a critério de quem a lê (não menos verdadeiro).
Parece que o meu teorema ficou de pernas partidas pela dificuldade de demonstração para se tornar evidente. Mas não! O predicado da conclusão da premissa diz-me que a «intoxicação da artificialidade» continua válida: ou seja, para esses poetas (nascidos do e com o facebook), à semelhança dos do século passado, o que conta é a sensação. É despertar sensações com recurso à artificialidade. É despertar a mesma sensação que se repete – sempre a mesma sensação(!) – pela (in)sabedoria de despertar outras, ou porque estão socialmente bem colocados na vida e se esquecem dos que vivem no mundo da sombra, e têm medo de escrever outras inquietações pelo receio de perderem audiência, ou, então, desprezam simplesmente o despertar dessas outras inquietações que também merecem a escrita da denúncia, a palavra da recusa, a poesia do medo e da fuga ao medo, a poesia da ausência, a palavra da dificuldade em alcançar algo neste tempo desabitado, a poesia da falta… com palavras cruas e nuas, sem recurso a jogos malabarísticos de palavras de impossível entendimento.
Para esses poetas e escritores o que conta é criar malabaristicamente sensações sem intenção de serem sentidas, fazendo sentir mesmo que eles não sintam coisa nenhuma, mesmo que eles tenham a certeza de que o seu fingido sentir não é criar. Quase me atreveria a afirmar que, o que conta para eles é vender mais uns livritos dos que mandam imprimir por encomenda e não um trabalho sério em prol do social e, até, de uma carreira literária.
Para esses poetas, à semelhança dos intersecionistas «a sensação é a única realidade». Para eles e por eles, despreze-se o real, mesmo sabendo-se da decomposição da sociedade, da destruição dos verdadeiros valores morais e sociais do mundo em desassossego, em inquietação, em revolta pelo que vivemos. Para eles, o importante é não nos preocuparmos com a inquietação da tentativa de resposta nesta ânsia de busca e de procura: isso é um sortilégio suplementar à margem da sensação e do platónico.
O que importa, a esses escritores/poetas, é o choradinho e o chorrilho em trocadilhos de palavras inócuas, ao invés de se debruçarem sobre a inquietude social dramática em que o ser humano vive em interrogações constantes sobre o presente e o devir, porque não é esta inquietação que os faz crescer nos seus círculos de amigos que lhes compram os (maus) livros que mandam editar, mesmo sabendo que jamais alcançarão foros de literariedade!

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