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OS QUATRO ELEMENTOS

REGINA SARDOEIRA 
Hoje vou escrever sobre a velha teoria dos quatro elementos, descoberta na Antiga Grécia, quando os primeiros filósofos (ou físicos) procuraram o elemento primordial. 
Tales afirmou que era a Água, Anaxímenes que era o Ar, Heráclito elegeu o Fogo e finalmente Empédocles fez uma síntese, pela qual surgiu a teoria dos quatro elementos, a saber, Terra, Água, Ar e Fogo. Mais tarde, Aristóteles fundamentou a sua Física nesta teoria, segundo a qual os elementos se organizavam na Terra, constituindo todas as substâncias e seguindo uma ordem, determinada pelo seu peso. Os seres pesados eram essencialmente formados pelo elemento terra, pelo que tendiam para o seu lugar natural – o solo -, a água, mais leve que a terra, flutua acima da terra, o ar, mais leve que a água sobe, através dela, em bolhas que rebentam à superfície e o fogo, mais leve que o ar, sobe, feito chama, até às alturas. 
Mesmo parecendo ingénua esta física lógica, uma vez que na cosmologia aristotélica, cada elemento ocupa ou deve ocupar o seu lugar natural – e é por isso que as pedras atiradas à agua ou ao ar, descem, em virtude do seu peso e as chamas de uma fogueira sobem, através do ar, por causa da sua constitucional leveza – temos que admitir alguma veracidade empírica ou poética nesta organização elementar da Terra. E então, quando uma aparente desordem acontece, e as águas jorram dos céus em catadupas, varridas por fortes rajadas de ar, feito vento, e se abatem sobre a terra, empapando -a, quando o solo não consegue absorver tão rapidamente quanto desejaríamos a massa liquida que nos invade as ruas e as casas… revoltamo-nos. Ora, não há aí qualquer razão para revolta. Os elementos têm razão, cumprem a lógica crua da sua organização, estabelecida desde os primórdios; nós, humanos, engendrámos, no mundo, uma racionalidade, feita de crescente desordem, pela qual tentamos dominar os elementos insubmissos, porque originários e coerentes na sua imutável hierarquia. Por mais que façamos, as pedras continuarão a cair, fendendo o ar e buscando o seu lugar natural; a água manterá a sua leveza, em relação à terra sobre a qual desliza; o ar persistirá mais ligeiro que a água e borbulhará para libertar-se, sempre que a água quiser aprisioná -lo; quanto ao fogo elevar-se-á nas alturas quando uma labareda eclodir. 
E, ainda mais leve que o fogo, a quinta essência, ou éter, o quinto elemento, subtil e imponderável, pairará na região das esferas superiores, fora da Terra, como material constitutivo dos astros, em rotação perpétua nos espaços siderais. A Terra deveria estar lá, no centro, imóvel e pesada, rodeada de astros etéreos, a cumprir a sua função sublime de morada do homem – o animal racional, por essência e diferença específica. E esta construção, ingénua e simplista, se quisermos, poderá ter sido anulada pelo avanço científico e tecnológico que descobriu e criou novos elementos. Mas não deixa de ser fascinante observar os elementos em fúria e perceber que são a terra, a água, o ar e o fogo precisamente aqueles de que não podemos prescindir, mas que nos arrasam quando se exaltam, pondo em risco a nossa condição.

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