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CARTA ABERTA A ANTÓNIO ANTUNES, TAMBÉM CONHECIDO COMO TONY CARREIRA

Amarante, 20 de janeiro de 2016

Meu caro António Manuel Mateus Antunes (também conhecido por Tony Carreira):
Começo esta missiva por uma declaração de princípios. Não sou seu fã, nem tenciono ser, uma vez que não me revejo de todo na sua proposta musical. Por tal motivo, certamente, nunca me terá a assistir a um concerto seu. Mas por paradoxal que isto possa parecer, admiro-o. Admiro a sua persistência, admiro o facto de os seus espetáculos serem extremamente profissionais, ao nível de som, luzes e da qualidade dos músicos que o acompanham. Admiro o facto de arrastar multidões atrás de si, em cada concerto que faz. A culpa não é sua. O Tony faz o seu trabalho e as pessoas gostam. Ponto. Tanto quanto sei, também é de admirar a forma como trata pessoal e profissionalmente os que o acompanham. É precisamente por todos estes motivos que, também eu me sinto insultado e indignado pelo facto de lhe ter sido recusado receber uma condecoração que o Governo Francês entendeu atribuir-lhe, na Embaixada de Portugal em Paris. 
Essa recusa tem um nome – Embaixador Moraes Cabral, enquanto responsável máximo pela mesma. Diz o Senhor Embaixador que “a condecoração deveria ser entregue num local do país que homenageia o artista”, uma vez que “seria um bocadinho estranho que uma condecoração francesa fosse imposta na Embaixada de Portugal e porventura até por mim… pois não é essa a prática corrente”. Acrescenta, ainda, que “lamenta se o cantor Tony Carreira se sente melindrado com esta atitude pois não houve qualquer intenção, mas apenas atuar de uma forma consistente com a prática internacional que tem regras”.
Eu e muitos portugueses, é que lamentamos que o nosso país seja representado em Paris por este Embaixador. Mas vamos a factos.
Em primeiro lugar, concorde-se ou não com a atribuição, não estamos a falar de uma condecoração qualquer. Estamos a falar da Ordem das Artes e Letras (Ordre des Arts et des Lettres, em francês), que é uma condecoração concedida pelo Ministério da Cultura da França para recompensar “as pessoas que se distinguem pela sua criação no domínio artístico ou literário ou pela sua contribuição ao desenvolvimento das artes e das letras na França e no mundo”.
Em segundo lugar, a “prática corrente”, a “prática internacional que tem regras”. Será corrente e terá regras. Pena é que já tenham sido quebradas em 2004, aquando da entrega da mesma condecoração à fadista Mísia, que por sinal já demonstrou o seu desagrado pela situação. Já para não falar em Siza Vieira, João Fernandes, Paulo Cunha e Silva e o encenador Joaquim Benite (por duas vezes), que foram condecorados e cujas cerimónias aconteceram em solo português. 
Alguém lhe deve uma retratação e um pedido de desculpas. Não apenas um “nunca consegui cumprir um dos meus sonhos sociológicos que foi assistir a um concerto de Tony Carreira, porque me dizem que é um dos acontecimentos que um sociólogo deve observar.” Não chega. À Sociologia o que é da Sociologia, ao Ministro o que é da sua alçada política. 
Termino como comecei. Não sou nem passei a ser seu fã. Mas o meu respeito por si como pessoa, artista e português, esse aumentou.
Atenciosamente,
Paulo Santos Silva

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