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EM TRÂNSITO PELO PALCO TERRESTRE

JOSÉ EMANUEL QUEIRÓS
DR FOTO: ELSA CERQUEIRA
O mundo observado pelo indivíduo vai muito para além daquilo que o Universo fez deles (mundo e indivíduo). 
Entre mais de 400 milhões de sóis como os que se crê que possam constituir a galáxia, é bem possível que diversos astros-planetários tenham sido igualmente propensos ao despontar da Vida e neles prosperem outros indivíduos em diferenciados estádios da existência, mais e menos evoluídos, cumprindo um processo similar ao que na Terra partilhamos com displicência quanta baste. 
Se estivéssemos colocados à distância da Terra nos longínquos lugares da galáxia em que brilham as estrelas no céu nocturno nem suspeitaríamos da existência de um planeta com vida nestas órbitas solares e, nele residente, de uma Humanidade empedernida na faculdade de acessar livremente a consciência de sua própria natureza.
A percepção com que aferimos as condições físicas que nos são legadas neste singular endereço do Cosmos, traduzindo-se em conhecimento, tem em si mesma a limitação do significado da existência oculto para cada um. 
Todos somos protagonistas de uma grande odisseia astronómica que se cumpre na órbita ao Sol, em diferenciado estágio individual, sem memória de alistamento, condicionados e conduzidos por dogmas, paradigmas e preconceitos condutores criados pelo próprio homem, aceites como divinos ou tutelares e quase nunca questionados. 
Se existimos como individualidades e não somos gerados por iniciativa própria, algum propósito individual maior tem esta brevíssima emergência biofísica tridimensional ocorrida em palco terrestre e que a civilização vem mascarando no modo como as sociedades criaram todas as ilusões, poderes e submissões de que se alimentam, sem conseguirem apagar faculdades humanas intrínsecas, constituintes naturais da diversidade do Universo reflectido em cada um. 
Mais ou menos conscientemente, estamos envolvidos num processo individual e colectivo de auto-superação do qual ninguém está dispensado. É uma inevitabilidade inerente à própria existência em que vamos sendo caldeados pelas correntes do Universo que nos trouxeram ao plano terrestre, e nos concede as têmperas obtidas nos impulsos que nos levam depurados de volta à origem. 
Neste trânsito terreno os fluxos universais não são explícitos e, pelo facto, não se configura exercício de fácil compreensão para quem nele está posicionado sob a regência de normativos comuns da civilização, em consequência do consensualizado empirismo individual. A evolução de que todos tomamos parte ocorre a cada instante da vida de cada um, de modo insuspeito e diáfano. 
Perscrutando o planeta e a Vida desde a remota noite primordial dos tempos, entenderemos melhor o campo de ensaios que o cosmos joga na Terra, em permanente pulsar de superação entre o caos e a ordem, onde não há mal nem bem pelo qual o processo seja aferido ou regulado, senão à luz do entendimento e do critério humano.
Em suma, neste ínterim físico em que estamos mergulhados, cada um tem para si «coisa» que chegue para (re)solver.
No contexto físico planetário, a Natureza com os seus diversos sistemas terrestres – litológico, hidrográfico, atmosférico e magnetosférico – não são passíveis de adequação ao indivíduo ou aos interesses que este desenvolve no seu seio, quantas vezes distanciando-se inexoravelmente da ordem natural de funcionamento do próprio planeta onde estamos acolhidos. O contrário é, exactamente, o que deve ocorrer. Isto é, como seres inteligentes e conscientes devemos ter presente a noção de que o mundo não é nosso – nada no mundo nos pertence – e, enquanto seres biofísicos, nós é que lhe pertencemos, tal como tudo o que a Terra integra em seu amplo campo astronómico.
No decurso do nosso processo evolutivo, a ciência conquistou espaço de conhecimento aos domínios que antes tinham sido propriedade exclusiva das religiões, e o que parecia ser bem conduzido por regras e valores inquestionáveis, enquanto pilares inabaláveis da moral doutrinária, têm vindo a soçobrar diante da maturação consciencial a que o homem está fadado a percorrer como um desígnio superintendente ou um caminho inevitável a ser feito por todos. 
Neste processo, estamos permanentemente colocados e dispostos (mesmo sem que o suspeitemos) para a nossa própria auto-superação, seja no modo como valoramos o Mundo e nele colhemos as suas harmonias ou desarmonias correctoras, seja como o vemos, percepcionamos e dele fazemos nosso cadinho de vida em apuramento cosmoterreste. 
Perante as múltiplas circunstâncias e contextos diversos em que somos colocados no plano físico, jamais deixaremos de ser parte integrante do Universo iniciado algures de um caos gerador de ordem e de Vida do qual só nos afastamos por alguma conveniência cultural estranha, por esquecimento ou por desconhecimento. 
Nos tempos da existência comum, carecemos de vínculos mais elevados com a vida, urdidos no plano da consciência, que nos permitam abrir as portas das humanidades que trazemos esquecidas e que nos podem colocar num outro alinhamento consentâneo com a escala da nossa inserção nesta estação do Universo.
Ainda assim, fica um enigma insolúvel e uma dúvida consequente cuja resolução aportaria, de certo, os fundamentos para a instauração de uma outra ordem para as sociedades e um novo alinhamento para o homem: com que fim universal a Humanidade está em trânsito na galáxia por este dorso terrestre?..

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