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DESATENÇÃO E NARCISISMO

REGINA SARDOEIRA
Um dos problemas mais complexos da nossa época é a tendência para a desatenção. Se estar atento significa permanecer focado num assunto, por exclusão dos outros, de modo a ser capaz de dar resposta, caso ela seja necessária, estar desatento representa, muitas vezes, a dispersão errante por este ou aquele universo ou a fixação num objecto diverso daquele para o qual a nossa atenção deveria ser activada.
A desatenção é, nessa medida, uma atenção múltipla e variegada ou o desvio para outros sectores que nos dispersam do motivo que deveria ser a nossa meta.
Procuro razões para este facto e encontro algumas.
Um destes dias, almoçava num restaurante e aconteceu-me observar uma família que se sentava ao redor de uma mesa, à minha frente. Creio que se tratava de um casal com três filhos, de idades compreendidas entre os sete e os quinze anos. Todos eles, desde os pais, na casa dos 40, até aos filhos, se ocupavam, individualmente, dos seus aparelhos móveis, consultando páginas do facebook, enviando e recebendo mensagens e outras distracções do género. Uma das crianças, creio que a mais nova, tinha postos um par de auscultadores e, enquanto digitava no seu telemóvel, acenava a cabeça ao som da música – provavelmente em elevado volume.
Aquela família deslocara-se ao restaurante, decerto, para quebrar a rotina – estávamos num fim de semana – e usufruir em conjunto de uma ou duas horas, certamente pouco vulgares no dia a dia apressado que crianças, jovens e adultos são compelidos a viver no tempo que corre. Provavelmente, se falaram com um amigo naquele ou no dia seguinte, acerca do fim de semana, referiram o almoço de sábado como tendo sido de convívio, de reunião familiar, de recuperação dos outros dias em que os respectivos horários não lhes deixam tempo para o desfrute da companhia em família. E contudo, absolutamente nada, naquele grupo reunido à volta de uma mesa indicava que os pais estivessem a aproveitar para, unidos, trocando mútuas impressões, estabelecerem contacto com os filhos – e vice-versa.
Um profundo isolamento em universos distantes e diversos foi o que me pareceu estar a acontecer ali.
Deitando os olhos um pouco mais além, pude observar gente que se levantava para ir falar ao telemóvel no exterior, saindo da mesa onde almoçavam, acompanhados, gente ensimesmada em volta dos mecanismos móveis, repletos de informação; muito poucos dialogavam entre si, apenas com a voz e o corpo, afastados os intrusos. Sim, verdadeiros intrusos, uma multidão de intrusos, eis o que levam consigo para onde quer que vão, homens, mulheres e crianças de praticamente todas as idades e condições. E outorgam a esses intrusos um papel fundamental, dão-lhes um estatuto de absoluto privilégio, pois sentam-se com eles à mesa, levam-nos para a cama, transportam-nos quando precisam de ir à casa de banho, usam auriculares quando conduzem, põem-nos em silêncio e consultam-nos, sub-repticiamente (ou nem por isso), quando estão na missa, nas aulas, numa conferência, num concerto…
Observando atentamente este comportamento, verificado ali, na sala de um restaurante, mas também pelas ruas, onde as multidões de transeuntes aproveitam para falar ao telemóvel, quantas vezes alto e bom som, ou, de olhos fixos nos pequenos ecrãs, se afadigam a comunicar exaustivamente, vou percebendo a anormalidade da civilização a que arribamos.
Também sou testemunha do ruído a que as pessoas se acostumaram, pois não há praticamente nenhum lugar público, café, restaurante, sala de espera de hospital, lojas dos mais variados tipos, etc. onde não sejamos confrontados com um ou vários aparelhos de televisão e, muitas vezes, ainda, com música ambiente, quase sempre estridente ou de má qualidade.
Vejo, assim, que a desatenção que refiro se deve, provavelmente, a tantos e tão variados motivos. Vejo que a mente não descansa, não se detém num pormenor ou num assunto, constantemente desviada para múltiplas e díspares orientações. E, como é impossível, captar devidamente e reter um conjunto tão avassalador de informações e estímulos, visuais e auditivos, principalmente, a mente dos homens de hoje e das mulheres e dos jovens e das crianças é um turbilhão de pequenos indícios e fragmentos de tudo e de coisa nenhuma.
Como todos, pairo, também eu, neste universo de ruído, sou obrigada a conviver com as aberrações sonoras e visuais das quais nem sempre consigo desviar os sentidos. E também eu experimento o estigma da desatenção, quando quero concentrar-me e sou bombardeada pelos mais diversos estímulos a que não apelei, mas que me entram portas adentro à revelia de mim.
Neste momento, por exemplo, são quase seis horas da tarde. Passou quase todo um dia de trabalho, cumpri os meus deveres profissionais e poderia sentir-me plena, convicta das tarefas realizadas. Contudo, parece-me que o meu dia, verdadeiramente, ainda não começou, que ainda tenho meia hora em que o horário me obriga, um pouco absurdamente, a permanecer na escola e que só lá para as sete e meia ou oito poderei chamar meu ao tempo, ao espaço e à actividade a que decidir lançar mãos. Sim, actividade, porque embora sinta algum cansaço, depois de nove horas quase consecutivas de trabalho, com uma pequena pausa para almoço, o certo é que percebo que o mais importante de mim, enquanto ser humano activo e actuante, ainda não se revelou. Já acordei há muitas horas; e afinal parece que estive adormecida todo este tempo e só acordarei mais logo quando, no silêncio (ou nos sons por mim produzidos) e na posição que ao meu corpo convier, der ouvidos a mim mesma para, enfim, me encontrar. Mas também sei que não terei muito tempo para tal, sinto que logo que me der um hiato de relaxamento psico-físico, terei que começar a pensar no dia de amanhã, onde uma nova avalanche de ruídos, tarefas, contrariedades, etc. me absorverão inevitavelmente, pelo que precisarei de recolher, cedendo ao sono e à necessidade de recobrar energias.
O sono é necessário, sei-o bem. Mas, muito embora ouça dizer que dormir é bom, o certo é que não me apercebo desse tempo, passo nele como se não existisse. Por essa razão, dou comigo a levar a noite até ao limite, a obrigar o dia a duplicar-se, estendendo essas minhas horas pessoais muito para além da hora a que devia recolher-me. 
Também eu sinto pro

blemas de atenção, vejo-me a fazer uma acção e a pensar noutra ou a tentar multiplicar tarefas num mesmo tempo, creio-me devorada por um vórtice em que as horas encolhem e as vinte e quatro horas de cada dia se revelam manifestamente insuficientes.

Esta é uma séria doença dos nossos dias, a maior, decerto. Mas há mais.
Ao mesmo tempo que todos vamos sendo devorados por uma plêiade de artifícios a que chamamos, convictamente, a nossa vida, os nossos amigos, as nossas festas, reuniões e convívios, rendemo-nos sem darmos conta a um individualismo feroz, caímos num abismo narcísico em cujo lago nos deleitamos sempre e apenas com a nossa imagem. Do mesmo modo que usamos os aparelhos tecnológicos para fingir que comunicamos, também usamos cultivar a nossa pessoa, fotografando – nos sem cessar, exibindo a nossa face e o nosso corpo pelo palco virtual e esperando o elogio ou fazendo -o desde logo , quando o dos outros tarda. Todos são bonitos, “especiais” , únicos. Os pais e as mães não têm filhos, mas “princesas” e “príncipes”; aos velhos dizem que estão “sempre iguais” e que” os anos não passam por eles”; as mães e os pais tornaram-se para os filhos (neste mundo de aparências) “os melhores do mundo” , os maiores, os mais bonitos. Os jovens ostentam despudoradamente as formas, crendo-se modelos – e os pais estimulam e alimentam esta exibição de si e dos dotes dos seus filhos adolescentes, guindados à categoria de deuses e deusas.
Vejo passar ao meu lado, a toda a hora, gente engalanada de todas as idades, gente que se acredita ímpar, gente que considera a auto-estima um direito a ostentar defeitos e a sentir-se muito “especial” no contexto dessas mesmas imperfeições. E já que a palavra “especial” me acontece por mais do que uma vez, eu afirmo que não entendo bem se é elogio ou crítica cognominar assim esta ou aquela pessoa. “Tu és muito especial!” – diz-se. E eu pergunto: o que significa ser deste modo “especial”?
Esvaziaram-se as palavras, ao mesmo tempo que muitas sombras caíram sobre as consciências, perdidas que estão num mundo que homogenizou, em amálgama indiscernível, talentos e imperfeições, erros e rasgos de génio, criatividade e insolência, beleza e aparato. E todos, insensivelmente, vão caindo na cilada, nas muitas ciladas que nenhum ser sobrenatural ou extraterrestre urdiu, mas que nós mesmos, nas nossas minúsculas torres de marfim, agigantadas pelo ego monstruoso que vamos construindo e deixando como legado, estamos, cegamente, a edificar.

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