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O PÂNICO DA PÁGINA EM BRANCO

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«São precisos dois para dançar o tango. Aqui surge-nos (…) o seu parceiro de escrita, que lhe fica desde já apresentado, (…): o leitor. Mas como? Não é a escrita sobremaneira um labor solitário, de alguém que se debate contra uma página em branco (Ah!, a angústia da página em branco…) no esconso duma mansarda, ao cimo duma escada interminável a cheirar a mijo de gato? Talvez a velha ideia romântica da mansarda tenha o seu quê de verdade – porventura de verdade cénica -, mas a solidão irrefragável do escritor é quase sempre falsa.» – Mário de Carvalho in “Quem Disser o Contrário é Porque tem Razão”, Porto Editora, 2014
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ALVARO GIESTA
Quantas vezes eu me encontro frente à página em branco, muito principalmente nesta “missão” quase messiânica de, às segundas-feiras de todas as semanas, fazer sair a minha crónica na Revista BIRD, e entro em pânico por ausência (não do tema, que esse é desde o início definido), mas da palavra certa para o começo, pela dificuldade de encontrar a frase que me servirá de arranque e será impulso para me empurrar ao longo do papel, tal acção dos pistões do motor que contribuem para o andamento do carro.
Quanto ao tema, muitas vezes ele é inspirado no manancial de pensamentos de muitos escritores, outras vezes com recurso aos tabloides, até mesmo a certas notícias naquelas revistas que se leem por aí. Às vezes recorto notícias de jornais que me vão servir de “mola inspiradora” para a crónica a escrever. Portanto, o problema do tema quantas vezes fica resolvido por aqui. O pior não é o tema, disse-o no início desta crónica.
O pânico da página em branco assalta-me e aflige-me, às vezes até me inibe de, por dias seguidos, conseguir escrever, levando-me a pensar e a dizer que “desta vez não sou capaz”… oiço tanta vez a minha própria voz a dizer-me isso mesmo.
Nessas alturas a criatividade – repare-se que eu aqui não digo inspiração -, para dar início ao que me propus escrever, falta-me e o receio de defraudar o meu parceiro de escrita – o leitor – atormenta-me tanto quanto me assusta a página que continua em branco.
Há por aí quem diga que, quando escrevem, para si o fazem. Nada mais falso. Quem escreve, escreve sempre para o outro, para o destinatário que pretende sujeitar a si sem o subjugar, sem que seja à medida do leitor impingindo-lhe o produto: o leitor inteligente e criativo que não se quer ver diminuído, de imediato rejeita esse escritor, que assim se desprestigia.
Não há musas que me ajudem a escrever porque não acredito em musas. E sou avesso a falar em inspiração, quando às musas ou outra divindade estranha atribuem a força da escrita. A inspiração simplesmente não existe. Existe é a criatividade; existe o acto de criar. Um acto nobre, com mais nobreza ainda se, quando o fazemos, o executamos de corpo inteiro, com arte, com o pensamento naquele que vai ser o nosso mais severo julgador: o leitor.
Porque o escritor, quando escreve, não é para si que o faz, mas para o leitor que o julga. O bom leitor. E, este bom leitor, espera do escritor um espírito crítico que o leve a distanciar da falange vulgarizadora que escreve sem crivo banalidades do senso comum (não confundir senso comum com bom senso).
É isto que me aflige. Saber como começar a escrever nesta página em branco que me agonia e me faz entrar em pânico e recear que não consiga conduzir as ideias – que muitas vezes são turbulentas – ao longo da folha de papel de ordem a levar comigo o “par da dança” a que se refere o escritor Mário de Carvalho: o leitor.
As musas, como disse, não existem, como não existe a inspiração. Existem, sim, uma variedade de fontes externas que permitem exercitar a imaginação do escritor, que ajudam o poeta a criar, e a criar com arte, com a tal arte que fuja às banalidades e que seja capaz de prender, a si, o leitor durante todo o percurso da escrita.
Ramos Rosa, na Antologia “Cantoário” publicada em 2000, escrevia: «Ao contrário do que muitos pensam, o poeta não escreve a partir de imagens formadas na mente ou na imaginação. Essas imagens surgem ao nível da escrita, embora correspondam a um imaginário latente no inconsciente do poeta. Daí a primazia do poema». Ele próprio dizia, quanto a si, “o que determinava, essencialmente, a sua poesia, era a própria criação poética”.
O homem ao criar põe no que cria engenho e arte sem estar sujeito a qualquer entidade inspiradora. É esse pânico de não conseguir criar, com engenho e arte, que me atormenta frente à página em branco antes de nela começar a verter a ideia.
Depois das primeiras ideias fluírem, as palavras correm vertiginosamente ao longo do papel – às vezes em catadupa que, de caneta em punho, tenho dificuldade em as acompanhar! Assim continuo a “obra” a partir do nada, fazendo-a crescer à medida que vai saindo da sombra, dando a possibilidade à palavra de adquirir valores diversos dos que comummente lhe são atribuídos.
Obra assim feita a partir da página em branco, comparo-a à criação do mundo a partir do caos – o ponto gerador de todas as coisas: ganham, assim, um e outro – o branco da página e o caos – significado e poder.

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