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À ESPERA DA MORTE, AO LADO DO CANCRO

Cancro, palavra maldita que nos leva a refletir sobre a vida humana, o que é, o que fazemos cá e, sobretudo, qual a nossa missão, enquanto seres efémeros.
Susana Dias escreveu, em 2009: “durante este ano aprendi a ser uma doente oncológica. Nome maldito, o

Susana Dias rapou o cabelo em 2009

cancro tem um estatuto especial dentre as doenças temíveis. Mata milhões de pessoas por ano em todo o mundo, e muitas vezes de forma fulminante. Daí, (e apesar de nos últimos anos o desenvolvimento de novos fármacos permitir a cura e aumento da esperança de vida dos doentes) ser uma doença deveras estigmatizante, em que a sociedade sentencia o doente com uma pena de morte, nem que seja social. Por esta razão muitas pessoas evitam o doente, não querem incomodar, às vezes até mudam de passeio para não se cruzar com ele. Como a ignorância impera, vaticinam-se diagnósticos, preconizam-se tratamentos, idealizam-se fábulas médicas à distância do doente, e este, sem recurso, transforma-se em coitadinho, figura esquálida e macilenta, de olhos encovados, vivendo numa espécie de limbo. Este é o mau caminho.

É urgente ultrapassar preconceitos. É imperativa a aproximação ao doente, ele precisa de conforto e de apoio. A ideia de que se incomoda quem faz tratamentos violentos como a quimio protege mais quem não quer dar o primeiro passo, quem tem medo de quebrar barreiras do que quem está doente. A única opção para quem está ao lado de alguém doente é aproximar-se, sem medo, investindo no carinho, na transmissão de confiança, de optimismo para que o seu sistema imunitário afectivo o proteja da vulnerabilidade física intrínseca à doença. Porque o ser humano é estruturalmente um ser de diálogo, de comunicação, de relação com o outro, não deixemos que essa sua apetência se esgote nos momentos agradáveis e “fáceis” da nossa existência. Mais difícil mas, simultaneamente mais profundo e transformador, o encontro como outro em estado de doença, abre caminho a uma troca de experiências inefáveis, a um desvelamento de receios e angústias mas também de qualidades até aí desconhecidas, num caminho de auto conhecimento para ambas as partes. Não se confundindo apoio com violação de privacidade, o encontro com o doente, é um sublime gesto de amor.”
Em janeiro de 2015, a Susana dava conta da sua «última consulta», que ainda assim deixa marcas para a vida: “Quando saí do IPO, depois de receber a notícia da alta, o vento frio e a chuva fizeram-me apressar mas não resisti a voltar-me para um último olhar para aqueles edifícios que conhecia agora de modo tão familiar mas que em tempos me pareceram labirínticos. Nos meus olhos cabiam todas as memórias que guardo ciosa e silenciosamente daquele hospital onde vivenciei a ténue linha que separa a vida da morte”.
E quando o cancro não tem cura? E quando acompanhamos alguém às urgências hospitalares com uma ligeira indisposição e, chamados ao gabinete médico, na esperança de ouvirmos que se tratou de uma qualquer infeção, gastrite, quando, numa questão de segundos, vemos a presença da morte à nossa frente?

Até que a morte nos separe 

Relato médico: “Fizemos todos os exames de despiste e encontrámos já várias metástases no fígado, elucidativas de um cancro, algures entre o estômago e o intestino. A partir daqui, a medicina nada mais tem a oferecer em termos de cura, apenas no alívio da dor e do bem-estar do paciente, nestes seus últimos dias, horas de vida.”
Como dizer isso a uma pessoa extremamente lúcida, em plena faculdade mental? Impossível dizer, era como tirar um doce a uma criança, era contribuir para o agudizar do seu equilíbrio emocional, já dele debilitado.
Alguém que se senta ao nosso lado, diariamente, com uma cor pálida, um ar triste, onde temos de sorrir, quando só nos apetece chorar, onde temos que estar sempre presentes, quando nos apetece fugir para um lado, onde nos dissessem que tudo não passou de um pesadelo!
Cancro, palavra maldita, que vai tirar a vida a uma pessoa que era tão alegre, que já resistiu a tantos problemas, enfim…
Como levantar a cabeça, diariamente, quando não temos qualquer vontade para o fazer, onde sentimos sugarem-nos a energia positiva, envolvidos numa nuvem cinzenta, recheada de melancolia e dor?
< span style="font-family: "Times New Roman","serif"; font-size: 12.0pt; mso-ansi-language: PT;">Tentar entender a dor dos outros é fácil, o problema é quando ela recai sobre nós, quando sentimos que nos retiram o chão para caminharmos na direção da paz interior. Difícil, muito difícil…

(este texto foi escrito no âmbito do Dia Mundial da Luta Contra o cancro. Lembre-se, hoje é ele, amanhã pode ser você). 

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