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SEGUNDA CARTA A UM SUPOSTO MESTRE DA PALAVRA POÉTICA

[Entre o Barreiro e o Terreiro do Paço, em Abril de 2009, numa viagem de barco, escrevi esta reflexão, no intuito de a enviar ao meu imaginário mestre, depois de ter lido, já nem sei de quem, um texto mais ou menos como este]

«Definir é circunscrever, é isolar, é limitar, e a área de uma palavra é extremamente vasta; como tal, incorrecto seria enclausurá-la nos muros cerrados de uma definição.» (sic)
ALVARO GIESTA
Meu caro Mestre,
Hoje vou falar-lhe, daquilo que eu entendo, dos dois fenómenos poéticos abaixo designados:
O primeiro – DA RELAÇÃO ENTRE OBJECTO E A PALAVRA COM QUE O POETA O NOMEIA -, mais me não resta do que dizer-lhe que defendo o jogo da palavra no uso duma poética do plurívoco. Isto é, sobre várias vertentes, podendo ter, mesmo, vários sentidos na sua interpretação. Contudo, que haja inteligibilidade na construção frásica e não seja carregada de nebulosidade, essa escrita.
Ou seja: o FAZER POÉTICO, nesta lógica do plurívoco, requer uma nova significação para a “coisa” que o poeta nomeia. Isto é, entre “objecto” e a “palavra” com que o poeta o nomeia, há uma nova relação que permite ao destinatário descobrir e revelar – na interpretação o objecto desliga-se da sua função de objecto e nomeia-se aos olhos do interlocutor pela leitura que a sua memória afectiva lhe permite, adquirindo novos sentidos: é a POÉTICA DO PLURÍVOCO – aquilo que foge ao unívoco e do unívoco.
Na poética do plurívoco, a palavra pode ter significado diferente daquele com que nomeia a coisa: é a ambiguidade de sentidos pela construção de um mundo poético amplo de imagens e metáforas, de assonâncias e dissonâncias encadeadas que, dando ao poema um tom de presságio e novo augúrio, permitem a estes dois polos da mesma realidade, AUTOR-LEITOR, fazer a interpretação e a exploração de visões significativas diferentes. E é salutar que assim seja.
É esta peculiaridade que transporta em si um carácter de novidade, que imprime ao texto o seu sentido e valor verdadeiramente literário. Nesta poética do plurívoco, utilizando uma linguagem que não é a da conversação, sequer a do discurso, oferecendo uma certa resistência de sentido ao texto, permite ao leitor que seja ele a decifrá-lo, que seja ele a recriar atribuindo outro sentido novo à palavra. A linguagem do plurívoco, no texto, permite ao leitor que seja ele a redescobri-lo, com a leitura que faz do mesmo, como nos diz a escritora Manuela Fonseca: «O bom leitor reinventa, recria o texto ou tenta fazê-lo, num intertexto infinito.»
Veja-se, da leitura deste poema de Herberto Helder (ELEGIA MÚLTIPLA (III) de A COLHER NA BOCA) quantas possibilidades não tem de redescobrir novas leituras, recriar interpretações? Muitas…
«Havia um homem que corria pelo orvalho dentro. / O orvalho da muita manhã. / Corria de noite, como no meio da alegria, / pelo orvalho parado da noite. / Luzia no orvalho. Levava uma flecha / pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado / loucamente / por um caçador de que nada se sabia. / E era pelo orvalho dentro. / Brilhava.»
Quanto ao segundo fenómeno poético – A APREENSÃO DE UM OBJECTO POR UMA RELAÇÃO DE INTERSUBJECTIVIDADE -, temos que partir do fenómeno fenomenológico para o compreender. Segundo Husserl, explorador da filosofia fenomenológica, «toda a consciência é consciência de alguma coisa». Ou seja, a todo o objeto (NOEMA) corresponde uma determinada modalidade de consciência (NOESIS).
Para os fenomenologistas, TODA A PALAVRA É SEMPRE AMBÍGUA: ela diz e não diz, sabe e não sabe, é e não é. Fica-se, a palavra, pelo momento da realidade, porque não é suficiente para a compreensão do fenómeno literário na sua totalidade.
Ora, o FAZER POÉTICO exige uma compreensão mais profunda, mais lata da palavra, da realidade, segundo um processo que una SENTIDO e FORMA. É necessária uma leitura hermenêutica, isto é, é necessário interpretar o sentido da coisa escrita em todas as suas formas, com uma abertura tal que permita abarcar totalmente as significações da obra literária. O homem, em constante comunicação, interroga-se e interroga a própria existência da palavra, e entende que dela deve ser feita uma abordagem sob uma perspectiva ontológica, interrogando-se sobre o ser em literatura.
O fenómeno poético não ajuíza, pois se situa aquém do conceito. Por isso mesmo transcende-o. Isto é, o fenómeno poético não afirma um conceito, nem o nega. Tanto a afirmação como a negação têm igual abertura para permitir múltiplas explorações do texto. É isto, no meu entender, que permite ao crítico exercer a sua função.
Atentamente, o seu pseudónimo
Alvaro Giesta

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