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OS ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO E OS DILEMAS MORAIS

REGINA SARDOEIRA
Os dilemas morais são, sem dúvida, uma prova de fogo para o nosso discernimento humano. Constituem momentos, quantas vezes decisivos, em que somos compelidos a agir, fazendo opções, cujos efeitos desconhecemos em absoluto, dado envolverem o futuro, do qual não temos percepção. 
Em Julho de 2015 ofereceram-me um pequeno animal – uma gatinha siamesa, de três meses, que havia sido adoptada por uma outra gata, que não a mãe, que a amamentou e cuidou. Eu tinha perdido, alguns meses antes, o meu gato “bobtail”, depois de dezasseis anos e meio de amizade e relutei em trazer para casa outro felino. Disse à minha amiga: “Vou aí ver a gatinha. Se ela me tocar a sensibilidade, fico com ela.” 
E uma tarde fui a Tabuado (Marco de Canaveses), segurei nas mãos o pequeno corpo sedoso, vi o fulgor, um pouco temeroso, dos seus extraordinários olhos azuis e soube que traria comigo a Nini. Assim lhe chamara a dona que ma entregou; mas eu já tinha decidido dar-lhe o nome de Mia e assim a registei, alguns dias depois.
Afeiçoei-me profundamente à gatinha Mia e percebi que o lugar do imponente “bobtail”, meu amigo felino de muitos anos, cuja doença e morte vivi confrangida, nunca seria preenchido pela presença e personalidade deste outro animal, em tudo distinto. 
Passaram alguns meses. E um dia percebo, no pequeno animal do sexo feminino, os inequívocos sinais do primeiro episódio de cio! Oiço-lhe os miados pungentes, vejo-a a andar rente ao chão, com a parte traseira do corpo erguida e a cauda posta de lado, tento afagá -la e ela toda se enrola oferecendo o corpo às carícias…sinto que o meu animal sofre, que não sabe porque sofre, mas não pode escapar à sua condição de animal, mesmo não conhecendo conscientemente as razões e o modo de apaziguar as sensações. 
O meu dilema começou aqui. E agora, que faço eu à Mia? Permito-lhe que acasale em tão tenra idade, abrindo-lhe a porta de casa e entregando-a aos caprichos ou às necessidades dos machos? E depois aceito a inevitável gravidez e as crias? E quando for altura, de novo, e a ninhada estiver madura, deixo-a, uma vez mais e outra ainda, encontrar companheiro e trazer novas crias? 
Não consegui tomar semelhante decisão, a crise da Mia passou e só vim a reflectir, de novo, sobre o caso

GATA MIA

quando, algumas semanas mais tarde, outro episódio de cio veio abater-se sobre o animal. 

A minha vontade seria trazer-lhe um gato, vários gatos, e permitir-lhe a realização normal e integral do seu impulso instintivo. Mas funcionaria, desse modo, a natureza profunda da minha pequena Mia, sujeita à inexorabilidade da sua condição? 
A segunda crise passou, e consultei a veterinária que lhe tinha prestado os primeiros cuidados acerca da atitude a tomar para apaziguar ou resolver os episódios cíclicos da necessidade de reprodução da minha pequena companheira. Ela não teve dúvidas quanto à solução mais eficaz e cómoda para ambas as partes: submeter o animal a uma intervenção cirúrgica, pela qual os órgãos reprodutores lhe seriam extraídos, tornando-a estéril e acabando, de vez, com as angustiantes e nunca resolvidas crises de cio. 
Fui deste modo posta perante um dilema muito mais radical. Deverei permitir a mutilação sexual da minha gatinha? E por que razão insisto em chamar-lhe “minha” como se ela fosse uma coisa, um objecto? 
Nenhuma razão, do foro médico, do meu interesse ou do interesse da Mia, foi capaz de calar o meu profundo e absoluto repúdio por esse tratamento cirúrgico invasivo. Detive-me a imaginar o tamanho minúsculo do útero e dos ovários do pequeno animal e a crueldade de consentir na sua ablação; contemplei o pequeno corpo e o brilho dos seus olhos azuis, senti a confiança com que ela se encostava a mim, procurando o abrigo do meu colo e a calidez das minhas carícias. 
Incapaz de resolver o dilema múltiplo, sabendo que novos episódios de cio nasceriam, para gerar o desconforto dela e a minha absoluta incapacidade de o resolver, marquei a operação; e, completamente desconcertada, num enorme conflito comigo mesma, submeti-a à esterilização cirúrgica, no passado dia 28 de Janeiro. 
Neste dia em que escrevo, trato-lhe ainda das sequelas da intervenção, dou-lhe antibióticos e anti-inflamatórios, vejo-a, perturbada, com os movimentos manietados e a cabeça presa num estranho turbante, tipo abat-jour – o colar elisabeteano -, o desespero com que tenta inutilmente, lavar-se ou coçar -se; e conto os dias – ainda faltam quatro – para que a Mia possa ser libertada e restituída à sua condição normal. Mas logo que escrevo esta palavra “normal” sou assaltada pela dúvida e presa do incómodo. Terei comigo, de novo, a Mia de antes, ou a excisão radical do seu “ser uma fêmea felina” trará modificações comportamentais e de personalidade irreversíveis? 
Dir-me-ão que procedi acertadamente e que assim é melhor para todos. Mas eu continuo a sentir que nenhum direito me foi dado, por nenhum código ético ou moral, capaz de justificar, ao nível mais profundo do meu discernimento, enquanto pessoa, a esterilização da minha gatinha Mia. 
Sei que ao trazê -la comigo, do ambiente campestre onde nasceu e viveu os primeiros três meses e onde poderia ter realizado a sua condição de fêmea, lhe impus esta nova natureza. Sei que a dona anterior da Mia – que era Nini – me quis presentear com esta oferta, sabendo que eu tinha perdido o meu gato e talvez desejasse preencher essa lacuna. Sei que, após várias hesitações, vim a render-me ao encanto da pequena criatura. Mas isso dar-me-á o direito de tomar decisõe

s extremas, como esta, pela qual extingui nela o instinto reprodutivo e geracional? 

Parece uma questão fútil e menor, neste mundo humano de grandes problemáticas e intrincados dilemas existenciais. Sem dúvida, a veterinária que realizou a intervenção, habituada a tais procedimentos, como se de uma rotina profissional se tratasse, não terá perdido um minuto a hesitar, antes de pôr em acção o bisturi. Não a critico, obviamente. Como não a critiquei quando me sugeriu a eutanásia do meu “bobtail”, apanhado nas malhas de uma enfermidade fatal. Não aceitei a eutanásia, deixei o gato morrer no meu colo e velei-o uma noite inteira até perceber que tinha soltado o último suspiro. Mas cedi no caso da Mia, escolhendo, sem poder perguntar -lhe qual era o seu desejo, truncar a sua capacidade reprodutiva. 
De modo nenhum considero esta minha angústia uma questão menor, quando vejo os três pontos cirúrgicos no ventre da Mia, quando tento minorar-lhe o desespero por estar manietada, presa numa armadura de plástico que lhe torce e distorce os movimentos. 
Há fome no mundo e guerra e genocídios? Há violências perpetradas, de humanos contra humanos, diariamente e por toda a parte? Há atritos e cisões entre pessoas e dificuldades económicas e doenças e todo um arsenal dramático de pessoas em choque? Devemos ocupar-nos prioritariamente destes e desvalorizar incidentes, tidos como menores, em que um minúsculo útero e uns ínfimos ovários foram extraídos de uma pequena fêmea, para que eu a possa conservar em casa, como minha companheira e amiga, anulando -lhe o instinto e o subsequente e periódico incómodo de um cio sem lenitivo? 
Creio firmemente que este problema é tão crucial como os restantes, já que radica, igualmente, nas linhas da nossa racionalidade. Trouxemos os animais para as nossas casas e chamamos-lhes “nossos”; moldámo-los à nossa existência, fazendo com que, uma vez domesticados, já não consigam sobreviver por sua conta e risco.
Esses animais, cães, gatos, peixes ou pássaros, herdaram de nós resquícios de humanidade, são, de uma certa forma, animais racionais, mesmo que teimemos em negar-lhes o pensamento, a consciência, a deliberação e a decisão. 
Apenas nesta perspectiva sou capaz de justificar a esterilização que achei dever autorizar no corpo da gata Mia: porque lhe outorgo a minha humanidade e assim posso suprir as lacunas que o seu nível actual de consciência e de pensamento não lograram atingir.

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