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QUANDO A COMUNICAÇÃO GERA A DISCÓRDIA

REGINA SARDOEIRA
A palavra comunicar faz parte do vocabulário deste nosso tempo, onde múltiplos meios parecem apostar nessa característica que, atendendo ao que conhecemos sobre a nossa espécie, representa a marca essencial do ser humano. 
Comunicar, estar com, ter em comum. 
Estas e outras palavras e expressões, indicam a necessidade humana de viver e conviver com os outros – e eis aqui um pleonasmo neste “conviver com”, visto que o “com” é parte intrínseca do verbo “conviver”: mas é assim que nos expressamos, reforçando a nossa condição comunicacional – e, desde o nascimento, que nos vemos envolvidos em grupos, mais ou menos amplos, para reconhecermos que pertencemos à humanidade e que esta funciona como um conjunto organizado de seres que interagem, fundamentalmente, através das palavras. 
Ora, custa muito perceber, admitir e sustentar que essa capacidade que nos estrutura e garante a nossa especificidade, no seio da natureza, seja, cada vez mais, um equivoco. 
Dispomos dos meios para sermos coesos, afáveis, solidários. Temos os mecanismos racionais e linguísticos para nos entendermos, no contexto da sociedade global que formamos e das múltiplas sociedades em que a língua, os costumes, a localização geográfica nos separaram, sem contudo inviabilizarem a comunicação. Somos, em toda a parte, seres humanos, provenientes, todos nós, de um tronco genealógico comum; e as nossas diferenças específicas não deveriam constituir obstáculo à comunicação e logo ao entendimento. 
Apesar disso, fazemos a guerra. E a guerra, sabemo-lo, pode ter muitas causas e visar muitos objectivos – mas representa, sem sombra de dúvida e em primeiro lugar, a falência da comunicação. Se os povos comunicassem entre si, elevando esta prerrogativa humana ao ponto máximo (ou seja: querendo entender-se à justa medida da sua humanidade), desnecessário seria, alguma vez, pegar em armas.
Os animais, ditos irracionais, envolvem-se em combates mortíferos, é certo. Mas não o fazem gratuitamente, ou por diversão ou por ganância, antes usam a força, o veneno, as garras ou a manha para garantirem a subsistência e o território numa natureza que, deste modo, lhes programou o ser. O homem, contudo, superou a besta – dizem. Engendrou em si a consciência (de si, dos outros e de si com os outros) e com ela arvorou-se em ser supremo da natureza. Não vive, na terra, confinado a um território, para além do qual se agigantam perigos ignotos, vindos de espécies ignotas. Não; por maiores que sejam as diferenças entre os homens, o certo é que somos todos homens e logo dotados de idênticas características, pelo que é sempre mais o que nos une do que aquilo que nos separa. E acima de tudo somos, estruturalmente, uma espécie engendrada na e pela comunicação. 
Se a guerra representa o absoluto logro comunicativo (e tem havido sempre guerra no decurso da história dos homens), outro tipo de discórdias se acende quotidianamente entre grupos sociais ou indivíduos particulares. 
Somos governados, em cada país, por outros homens, como nós, que ali estão para garantirem o êxito da sociedade a que presidem, por sua vez ligada a outras, também elas desejosas de sucesso. Se, ao que parece, os governos lideram mal os povos que deveriam conduzir à felicidade, fomentando, em vez disso, discórdias e radicalismos múltiplos, provocando a controvérsia e gerando oposições em lugar de compromissos, isso significa que degeneramos enquanto pessoas e já não sabemos liderar, permanecendo isentos. 
A outro nível, enchem-se os tribunais de processos, no seio dos quais, indivíduos se opõem a outros indivíduos em querelas infindáveis, onde as acções e os procedimentos em conflito são avaliados por outro indivíduo – o juíz – que produz sentenças de acordo com o que ouve e observa na liça artificial que são as salas dos julgamentos. No final, todos perdem, do ponto de vista humano – porque usaram o discernimento, a inteligência e as palavras para proferirem juízos, pelos quais condenam ou absolvem aqueles que desconhecem (permanecendo, todavia, tão humanos, como esses que até eles chegam para serem julgados). 
Há os pais e os filhos e as famílias, núcleo motor da sociedade geral. E contudo, os pais não sabem comunicar com os filhos e os filhos, tarde ou cedo aprendem a não saber comunicar com os pais; estes, por sua vez, se algum dia comunicaram entre si, esquecem-no a médio prazo e desentendem -se quotidianamente numa existência que uniram, exactamente, em ordem à comunicação plena. Irmãos da mesma criação, procedem, mais tarde ou mais cedo como desconhecidos, ausentes da sua comum identidade de raiz. 
Quanto aos amigos, se os há, eis que inúmeras vezes geram, entre si, equívocos e atritos, usando-se uns aos outros e traindo. E apenas como hiatos de excepção encontraremos a concórdia, o acordo, a colaboração. 
Afinal, o que é isso que deste modo nos divide, aniquilando a comunicação que subsiste em nós qual marca suprema do nosso ser humano? Julgo que necessitaremos de ir bem fundo, dentro do nosso âmago e do que constitui a história humana para captarmos o gérmen da discórdia que parece ter-se tornado, muito mais do que a comunicação, a marca privilegiada da nossa natureza.

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