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PALACETE PINTO LEITE – AS RAÍZES CULTURAIS QUE NÃO SE PODEM PERDER

PALACETE PINTO LEITE
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PAULO SANTOS SILVA
Será certamente desconhecido este nome para si, caro leitor. Muito mais, se lhe disser que originalmente era conhecido por Casa do Campo Pequeno. 
Embora o nome nos transporte para a cidade de Lisboa e para a conhecida Praça de Touros (também palco de espetáculos e musicais e outros eventos), esta residência burguesa do século XIX fica situada na cidade do Porto, mais propriamente na Rua da Maternidade. Se porventura alguma vez se dirigiu por algum motivo à Maternidade de Júlio Dinis, certamente lá passou e reparou na beleza do edifício. Mandado construir em meados do século XIX pela família Pinto Leite, acabou por ganhar o seu nome. Esta família, teve uma enorme importância social e económica na cidade do Porto e no país, tendo sido variadas as vezes que fizeram donativos em dinheiro e em bens às causas em prol dos mais desfavorecidos. Tinham, inclusive, linhagem da nobreza ostentando Sebastião Pinto Leite o título de Conde da Penha Longa e a sua esposa, Clementina Libânia Pinto Leite os títulos de Condessa da Penha Longa e de Viscondessa da Gandarinha.
O autor do projeto é desconhecido, mas pelo seu estilo que se poderá denominar de neopalladiano, percebe-se as influências da arquitetura inglesa da época, num claro contraste com a influência das belas-artes francesas, muito em voga na altura. Ao construir uma casa apalaçada desta dimensão, presume-se que Joaquim Pinto Leite pretendia um espaço onde pudesse receber com todo o conforto a família, incluindo os que não residiam habitualmente no Porto. Os quartos além de confortavelmente luxuosos, eram tecnicamente inovadores uma vez que já eram servidos de torneiras banhadas a ouro e sanitários em porcelana de Sèvres. A azulejaria que cobre o edifício, era originária de uma fábrica inglesa, a Minton, Hollings & Company, de Stoke-on-Trent.
A esta altura, certamente que já se interrogou acerca do porquê desta escolha para uma crónica. Fácil. É que a Câmara Municipal do Porto adquiriu este imóvel em 1966 aos herdeiros da família, para aí instalar o Conservatório de Música do Porto, instituição de referência do ensino da música na cidade do Porto e onde este cronista que vos escreve realizou grande parte dos seus estudos musicais. No entanto, o Conservatório de Música só ocupou as instalações em 1975, no período pós-25 de Abril, de uma forma no mínimo curiosa. Sabendo os alunos que o edifício lhes estava destinado e temendo as ocupações em que esta época foi tão pródiga, mudaram-se de “instrumentos e bagagens” para o mesmo. Deve ter sido uma das poucas vezes em que os pianos serviram para outros fins, que não apenas o tocar música… 
No entanto, tudo na vida tem o seu tempo e as instalações acabaram por deixar de ter as condições necessárias e suficientes para a função a que se destinavam, tendo o Conservatório mudado para as novas instalações em 2008, que resultaram da reabilitação da Escola Secundária Rodrigues de Freitas. Desde essa data, que o edifício se encontra devoluto.
Acontece que depois de várias tentativas, a Câmara Municipal do Porto conseguiu finalmente proceder à sua venda em hasta pública, pelo valor de 1,643 milhões de euros. Este valor, cerca de um milhão abaixo da avaliação feita em 2012, implica uma cláusula que obriga o comprador a dar-lhe uso num projeto de âmbito cultural e artístico. Nem de outra forma poderia ser, digo eu. As histórias que aquele local alberga, os milhões de notas musicais que ecoaram por aquelas paredes, por aquelas salas, por aqueles jardins, a isso obrigavam. Os músicos fantásticos que lecionaram e se formaram naquela casa, a isso obrigavam. Todos nós, os que por ali passamos, não o conseguiríamos certamente ver transformado em outra coisa qualquer. 
É da Cultura da Cidade do Porto, por isso, é nosso. Pelo menos um pouco de cada um de nós, os que lá estudamos e não só, porque a Cultura é de todos e não apenas de uma elite. 
Ficamos, pois, a aguardar o que o comprador com ele irá fazer, uma vez que se compromete a fazer do espaço “um ex-libris, que passará a fazer parte do roteiro cultural do Porto”.

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