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A PALAVRA ESCRITA: UM OBJECTO DE ARTE E COM ARTE

«ARTE E SENSIBILIDADE
1) Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade.
2) A sensibilidade é pessoal e intransmissível.
3) Para se transmitir a outrem o que sentimos, e é isso o que na arte buscamos fazer, temos que decompor a sensação, rejeitando nela o que é puramente pessoal, aproveitando nela o que, sem deixar de ser individual, é todavia susceptível de generalidade, portanto, compreensível, não direi já pela inteligência, mas ao menos pela sensibilidade dos outros.
4) Este trabalho intelectual tem dois tempos
a. intelectualização directa e instintiva da sensibilidade, pela qual ela se converte em transmissível (é isto que vulgarmente se chama “inspiração”, quer dizer, o encontrar por instinto as frases e os ritmos que reduzam a sensação à frase intelectual (…)
b. a reflexão crítica sobre essa intelectualização, que sujeita o produto artístico elaborado pela “inspiração” a um processo inteiramente objectivo – construção, ou ordem lógica, ou simplesmente conceito de escola ou corrente.
5) (…).»
Fernando Pessoa, in “Carta a Miguel Torga, 1930”
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ALVARO GIESTA
Escrever, para mim, depois de vencido o tenebroso pânico da página em branco, esse grande obstáculo que tantos tortura antes de por eles ser vencido, torna-se quase como um fluxo imparável de palavras que jorram como a mágica fluidez da respiração até onde algo desconhecido, na minha sensibilidade, me faz parar e voltar atrás num processo de leitura crítica sobre o que até aí escrevi, para ver se o que deixei escrito possui a qualidade necessária à minha exigente satisfação, como escrevente, e à minha ainda mais exigente satisfação, como o leitor que me leio antes de me dar a ler aos demais leitores. Mas, estes “demais” leitores não significam, para mim, o leitor comum que se satisfaz com a notícia banal do mais vulgar jornal ou com obra escrita dos vulgares “escritores” hoje muito em voga, que a submetem ao leitor sem que sobre ela tenham feito, antes, um cuidadoso trabalho reflexivo e crítico. Os leitores para quem penso as minhas obras, são aqueles que construtivamente me criticam exigindo, de mim, a maior das perfeições.
Dir-me-ão, de certeza (e quase adivinho quem o dirá), que é tão válida, como arte, a coisa feita – aqui “coisa” significa obra escrita – sob impulsos não pensados sem um mínimo de trabalho de intelectualização num processo de leitura atenta, reflexiva e crítica, do que foi escrito antes de ao leitor mais atento, e crítico também, a dar a conhecer, como a que, antes de a transmitir a outrem, «por necessidade orgânica» a reflectimos e criticamos, não só a obra como a nós mesmos, escreventes, com nova elaboração «sobre o já elaborado». Só assim se fará arte!
Este “pensar e voltar atrás” para me ler num processo de decomposição do texto a fim de sobre mim mesmo, e à minha escrita, me auto criticar, não anula nem bloqueia a minha sensibilidade, vontade e decisão sobre aquilo que me propus escrever – porque previamente o estabeleci -, tão-pouco tem por objectivo ferir a inteligência e a sensibilidade dos outros: sejam escritores, sejam leitores. Este meu processo reflexivo e crítico, de mim mesmo e da minha escrita, tão colado ao meu método de escrever como a derme à epiderme, não visa dizer aos outros que sou melhor que eles, como muitos ousarão pensar.
Este processo tem apenas um objectivo: tornar a palavra escrita um objecto de arte e com arte, raciocinando-a antes, durante e depois de a ter debitado no papel.
Porque é num trabalho de intelectualização constante, de aperfeiçoamento exaustivo retirando o supérfluo, o acessório, o pessoal (este, sem deixar de ser individual num processo de definição de estilo), rejeitando o instinto, ou seja, o que surge instintivamente no processo da escrita sem à mesma voltar para a tal análise reflexiva e crítica, que a arte nasce. Dificilmente o objecto da arte se tornará arte apenas no e do movimento primevo que lhe deu o ser. Porque, para ser arte, a palavra tem que ser, em primeira mão, sujeita à crítica intelectual de quem a escreve: não basta ser, tem que «dever ser». E isto porque dificilmente há génios resultantes de impulsos: também eles, os génios, exercem sobre a sua obra de arte, para que seja arte, operativos trabalhos de intelectualização.
Podia arvorar para mim e como se meu fosse, e genuíno, também, este modo de pensar a escrita; porém, isso seria usurpação injusta de coisa alheia porque, efectivamente, e aqui fica bem expresso, a minha escola está nos ensinamentos dos grandes mestres que leio com enlevo.
Ora, toda esta prelação visa os artifícios da palavra na poética com arte:
1. seja o poeta o “engenheiro da palavra” elaborando-a com alguma secura de linguagem e rigor construtivo, negando aquilo a que chamam “inspiração” – a vulgar “inspiração” que os vates atribuem às divas e às musas – porque, na verdade, inspiração não é mais do que criatividade intelectualizada: ou seja, converter o sensível no intelectual de ordem a que o leitor no seu movimento crítico de leitura veja, no que lê, arte;
2. seja o poeta sem alma que constrói poemas frios sob o rigor da razão, como o eram os concretistas dando valorização ao fim da poesia intimista, ao desaparecimento do eu-lírico, ao fim do verso e da sintaxe tradicional, valorizando a desmontagem das palavras incorporando-as na arte da montagem do poema, dando-lhes aspectos geométricos;
3. seja o poeta da busca e da interrogação, o poeta da procura e da tentativa de resposta neste tempo desabitado, indagando, sem revelação nem

encantamento – à “inspiração” das musas inventadas, aqui me refiro -, mas com raciocínio, fazendo da poesia um trabalho intelectual, aquilo a que eu chamo um pacto-não-lírico;

4. seja o poeta sentimental que põe arte nos versos que o coração dita – mas não aquele que apenas constrói poesia ornada de chavões líricos cansados de já o serem tanto e gastos de tão repetidos, oscilando entre a falta de rigor construtivo com mestria e o excesso de retórica.
Ao ler-me, perplexo estará o leitor nesta altura, pensando que eu apenas defendia um tipo de poesia: a minha que, afinal, não é minha. A que eu escrevo, depois de a deitar ao mundo, ao mundo pertence.
É que, caro leitor, a poesia deve funcionar como um pêndulo – já de alguém o ouvi ou li e, ao mesmo, reconheço razão:
· um dia oscilará para o rigor da filosofia e da razão ou da ausência de uma e outra, como nos anos cinquenta com essa corrente de vanguarda em que três poetas “loucos” do país irmão acreditaram que a poesia era fruto de um trabalho mental e do esforço que implicava em refazer o texto várias vezes até que ele atingisse a sua forma mais adequada, excluindo dele, e redondamente, tudo o que fosse emoção e sentimento;
· outro dia aprofundará a palavra, crítica, racionalmente e com maturidade para conquistar a arte e a estética: será a obra do engenheiro da linguagem geometrizada e exacta que leva o poeta, antes do seu leitor, a reflectir nesse mistério da criação literária;
· outro dia, ainda, ela oscilará para a poesia do coração hesitante entre os olhos que veem mas também sentem e o coração que muitas vezes é forçado a sentir sem sentir coisa nenhuma, sem a grande aspiração ao reconhecimento que o rigor da criação literária exige.
É entre os limites deste movimento pendular que moldo a minha poesia sempre na tentativa de a tornar arte. Umas vezes me revelo um poeta quase sem alma em poemas frios, racionais, como que medidos sob o rigor da fita métrica e do compasso: isso é evidente em obras já publicadas como sejam “Meditações sobre a palavra”, “Um Arbusto no Olhar” e “O Retorno ao Princípio”; outras vezes, ainda que o coração esteja presente no rosário de palavras, ele se ausenta do exagero usual do lirismo repetido para não cansar nem banalizar o tema cantado: isso é evidente no meu livro “Onde os Desejos Fremem Sedentos de Ser”, no opúsculo “Oblíquo é o tempo” e noutros poemas que publico por aí e cujo tema é o eterno feminino.
Sem pretender fazer ruir os edifícios poéticos que por aí proliferam, uns construídos e outros em fase de construção, no seu excesso de lirismo, pretendo demonstrar que o acto de escrever poesia deve ser um trabalho de constante catarse e depuração. Controlar o fenómeno poético é o que eu proponho com as obras que vou escrevendo, se bem que outras leituras se possam fazer e diversas conclusões tirar da minha obra deixada escrita.
Em homenagem singela a Ramos Rosa, o poeta do rigor absoluto, defendo que se pode e deve dar novo uso à palavra poética, um uso que não seja apenas lírico, onde o «artefacto rigoroso da busca» e da construção e emprego da palavra no todo do edifício poético, dê verdadeiro sentido intelectual à obra construída. É que fazer poesia, é: reflectir, organizar, construir e integrar; duma forma lógica e justa, sonhando, mas materializando e intelectualizando de forma racional.

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