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NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER

“Todos sabemos que somos animais, da classe dos mamíferos, da ordem dos primatas, da família dos hominídeos, do género homo, da espécie sapiens, que o nosso corpo é uma máquina com trinta biliões de células, controlada e procriada por um sistema genético que se constituiu no decurso de uma longa evolução de dois a três biliões de anos, que o cérebro com que pensamos, a boca com que falamos, a mão com que escrevemos são órgãos biológicos, mas este conhecimento é tão inoperante como o que nos informa que o nosso organismo é constituído por combinações de carbono, hidrogénio, oxigénio e azoto. ” [Morin,  Edgar,  O Paradigma Perdido (A evidência estéril)]

REGINA SARDOEIRA
Escolhi como epígrafe este excerto de “O Paradigma Perdido” de Edgar Morin, por me parecer que estas e outras constatações acerca da natureza humana, acertadamente intituladas como “uma evidência estéril” , podem fornecer um sem número de informações sobre o homem e o seu funcionamento, enquanto organismo e enquanto ser excepcional da natureza, produtor e produto da cultura, e tudo o mais que sobre nós podemos afirmar – mas tal conhecimento é inútil, na justa medida em que não consegue explicar-nos, enquanto natureza. 
As mulheres pertencem à classe dos mamíferos, à ordem dos primatas, ao género dos hominídeos (…), tal como os homens; e, tal como eles, escapam a uma absoluta e total conceptualização. 
Durante muito tempo classifiquei-me como uma pessoa – um ser humano, idêntico a qualquer outro, feita mulher por um acidente biológico nos trâmites da aleatoriedade genética, que junta um par de genes XX, diferenciando -se assim do XY que produz o ser masculino. Nessa ordem de ideias, nunca vi qualquer razão para ser tratada de modo diferente ou para me considerar diferente dos homens, só por consequência desta combinação automática dos genes. 
Dizia eu, na época : “Sou, acima de tudo uma pessoa e é assim que me vejo e quero ser vista; nasci mulher, por acidente biológico. Nessa ordem de ideias, nada pode separar-me, do ponto de vista humano, do sexo masculino, porque o meu ser feminino é apenas uma condição cromossómica. “
Só mais tarde, ao tornar- me mãe, fui capaz de absorver de forma radical – jamais poderia compreender o que significa a maternidade, se a não tivesse experimentado – a dimensão do meu erro: não, de facto, não sou apenas mulher por acidente biológico e, quanto ao resto, absolutamente idêntica ao homem. Tenho, em mim, uma faculdade única e exclusivamente feminina, esta, que me permite acolher um embrião, criá-lo em mim, estabelecer com ele uma profunda relação simbiótica e admitir, no fim do tempo, dá-lo à luz e permitir-lhe a autonomia. Nenhum homem pode realizar este papel, substituindo a mulher; nenhum homem experimenta esta odisseia dentro de si, esta unidade na diversidade, esta transcendência de si, através de um outro de si – o filho. 
Foi deste modo que estabeleci a desigualdade entre os sexos e assimilei a respectiva diferença. Mais: percebi que toda a morfologia do corpo feminino, todas as transformações decorrentes da puberdade, mais não são que o caminho para essa função suprema e intrinsecamente feminina – ser mãe, dar novas vidas ao mundo. Percebi que o homem não precisa, no âmago de si, da forma constitucional de ser pai, para se afirmar por inteiro, na sua condição. Ao longo da vida, o humano do sexo masculino desperdiça milhões de espermatozóides ou sementes de si; e, mesmo quando gera, através da mulher, um filho, é apenas uma dessas sementes que fecunda o óvulo receptivo. Ser pai não representa a afirmação suprema da masculinidade. Essa, ele poderá encontrá -la de outros modos – os mesmos que, hoje em dia, a mulher tem ao seu alcance para elevar-se a certos patamares sociais. Quanto à mulher, nem sequer o será, de facto, enquanto não aceder a esta experiência sublime. 
A partir do momento em que tirei estas conclusões, não teoricamente, mas com a carne e todas as faculdades a ela inerentes, percebi a dimensão da minha diferença face ao sexo masculino. E percebi, no momento em que fui, pela primeira vez, mãe e depois, quando outras maternidades me aconteceram, que o filho não me limitaria, que, com ele e enquanto fosse preciso, constituiria um só corpo, uma só voz, uma só alma. 
Sempre me chocou ouvir certas mães dizerem: “Ah, se não fossem os filhos!… “, como se eles fossem as correntes da sua subjugação, os verdugos da sua liberdade. Quanto a mim, fui adiando as outras tarefas, fui marginalizando as outras vocações, fui mãe absoluta – mesmo admitindo falhas, já que criar um filho para a individualidade é uma incomensurável tarefa para a qual não existem receitas infalíveis – e sei que a minha feminilidade se criou, inteira, nesse acto. 
Devo então celebrar na mulher esta especificidade que a torna, de facto, um animal racional, mamífero, sapiens, e tudo o mais de que fala Edgar Morin, mas que, infinitamente, a acrescenta e a separa do bípede macho da mesma espécie. Por mais que qualquer mulher procure realçar os seus dotes e distinguir-se, em tudo quanto o mundo oferece à sua inteligência, à sua criatividade, ao seu génio, se a maternidade não lhe acontecer, nunca poderá intitular-se mulher, em pleno. 
E como hoje é o Dia Internacional da Mulher – e por essa razão também é o Dia Nacional da Mulher – e semelhantes efemérides devem servir, segundo creio, para dar visibilidade (ao menos por um dia) ao respectivo tema, vou expressar aqui o meu absoluto desconcerto perante três casos, dos quais me chegaram apenas indícios, grandes indícios . 
Uma mãe, movida sabe-se lá por que estranhos mobiles, dirige-se uma noite à margem de um rio e tenta matar-se, matando, consigo, as filhas. Sobrevive ao suicídio, é isolada e presa, e abre-se o circo especulativo sobre causas e motivos. O certo é que a carne da sua carne é encontrada sem vida, já que aquela que as gerou, com o mesmo ser as suprimiu. Outra, num vigésimo primeiro andar de um prédio, consente a si própria sair de casa para jogar, deixando sozinha a filha pequena que, decerto procurando os pais no meio da noite, abre a janela, debruça-se talvez, talvez grite…e cai. Outra ainda, percebe que o seu filho adolescente não regressa a casa depois das
aulas, e, quando entrevistada, dez dias depois, adopta um discurso frio, fala dos acontecimentos como se fossem uma coisa de somenos importância, uma trivialidade…e o filho, jazia morto, assassinado, a escassos metros da casa de onde – disse a mãe – terá saído pelo seu pé, normalmente, a caminho da escola, onde nunca chegou.
Estas mães, feitas mulheres em pleno nas maternidades respectivas, não podem ser celebradas, nem sequer justificadas, no Dia Internacional da Mulher. Podem ter ademanes que as religam à especificidade da mulher, mas, pelo indícios (que nada mais temos que nos permita entender os factos) não o são de direito. Tiveram os filhos, é certo, mas vasaram sobre esse momento sagrado toneladas de escória e fizeram de si aberrações. 

Dir-me-ão que estas mães, estas mulheres, são excepções, num oceano de sublimidade. Talvez sejam. Ou talvez haja, por esse mundo fora, centenas, milhares de simulacros, com ar de mulheres e trazendo filhos pela mão – e contudo, senão matando-os com as próprias mãos, pelo menos fazendo deles vítimas do seu desejo frustrado de ser outras coisas na vida (que os filhos pela mão não consentem). 

Por mim, gostaria de poder dialogar algum tempo com estas três caricaturas de mulheres, longe do tumulto das câmaras de televisão e das notícias – a ver se almejava perscrutar que género de doença vem destruindo a mulher e a sua especificidade realmente identificadora de uma condição. 
Não sou capaz de exprimir seja o que for acerca da mulher e do seu dia internacional, para além do que deixo aqui como testemunho – testemunho da mulher que sou. 
Há mulheres infelizes, violentadas, injustiçadas. De igual modo há homens infelizes, violentados, injustiçados. Há mulheres de grande inteligência e criatividade e arte. De igual modo há homens de grande inteligência e criatividade e arte. Mulheres fazem carreira, nos palcos, nos fóruns, nas organizações. De igual modo, homens fazem carreira nos palcos, nos fóruns, nas organizações. Por mais que acrescentemos a lista, sempre encontraremos, para o feminino, a alternativa no masculino. Não será por essas razões que devemos enaltecer a mulher neste seu dia – porque só a maternidade lhe dá o estatuto de privilégio único e não permutável, é essa e apenas essa a nossa diferença face aos homens. E, se acaso todas as mulheres percebessem este seu estatuto criador e lhe fizessem justiça, em si mesmas e naqueles que geram, nem seria necessário este dia no calendário para uma e outra vez debater as mesmas e aparentemente insolúveis questões.

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