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MARCELO, UM PRESIDENTE QUE AMA VERDADEIRAMENTE A LIBERDADE

GABRIEL VILAS BOAS
Na última aula que deu na faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa lamentava, já um pouco nostálgico, a perda de liberdade que o cargo de Presidente da República implica.
Não porque já não o soubesse, mas porque uma perda é sempre difícil de digerir. Marcelo bem se esforça por sugar os últimos instantes de pura liberdade, escapando o mais possível ao protocolo, impondo a sua vontade até ao limite do aceitável. O Marcelo que foi a pé para a Assembleia da República no dia da tomada de posse é o mesmo que decidiu continuar a viver em Cascais, em vez do Palácio de Belém, e aquele que não levou os filhos nem a companheira dos últimos trinta anos para a sua entrada oficial no Palácio cor-de-rosa. São pequenos gestos mas significativos. Marcelo dá um claro sinal que não pretende render-se ao conveniente, ao protocolo. Quebra-o, não porque tem a mania de ser diferente, mas para continuar a ser genuíno e porque sabe que há leis protocolares que apenas esperam um homem com alguma coragem para conhecerem a sua exceção.
Estou convicto que Marcelo será uma espécie de Papa Francisco de Portugal. Tentará fazer com que o seu povo volte a sorrir, a acreditar em si, independentemente das rugas ou das mazelas, porque a vida continua.
Marcelo Rebelo de Sousa será um presidente muito diferente dos seus antecessores, não por mania mas por convicção. Ele acredita que pode ajudar, que pode exercer uma verdadeira magistratura de influência junto de quem decide e executa as leis que nos regem. Apesar de chegar uma década atrasado a um lugar que lhe assenta que nem uma luva, Marcelo ainda tem muita energia para contagiar novos e velhos, a que acrescenta uma longa experiência política e um savoir-faire excecional que o fazem próximo do rico e do pobre, do erudito e do pouco qualificado, do jovem empreendedor ou do velho descrente.

O grande poder de Marcelo na presidência será a sua liberdade e independência. Isso ver-se-á na ação política como na esfera social, económica e cultural. Daqui a alguns meses já não diremos que Marcelo quebrou o protocolo, mas apenas que o simplificou. Perceberemos então que não era assim tão difícil. Talvez seja a partir da forma que Marcelo comece a aquecer novamente a esperança dos seus compatriotas.

Não deixa de ser curioso que depositemos tantas esperanças na capacidade de iniciativa e na sapiência de um sexagenário, mas a verdade é que ninguém tem a coragem de apostar que ele não será capaz.

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