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AS FERROADAS DO MOSCARDO

Ferroada 1. – ANARQUISMO POÉTICO
ALVARO GIESTA
“O homem é um ser em permanente evolução”, já o dizia Darwin na sua “Teoria da Evolução das Espécies”. Teoria que se aplica a tudo, no meu entender. À evolução do ensino, por exemplo, se bem que, e ainda no meu entender, esta evolução tenha dificuldade em atingir a velocidade mais alta para o bom desempenho do andamento. E, ensino, também é poesia, também é literatura, também é saber literário. Neste campo, também a teoria do velho botânico, aplicada aqui, se dispersa entre velocidade de carros antigos que não saem dos 30 km/h e dos modernos supersónicos, voando por vários céus a velocidades-luz, mas que no campo verdadeiramente literário, e na vertente poesia, pouco ou nada acrescentam ao já dito. Ou, antes, talvez assim esteja mais certo, quase nada dizem de novo.
Procuram-se rimas forçadas, e a poesia, para o ser, não requer, necessariamente, rima; repetem-se temas, ou antes, repisa-se sempre o mesmo tema “o velho amor do velho romantismo tão mal cantado” (sem desprimor para os poetas que “bem” o cantam), não cuidando em o refinar neste cantar, dando outra exploração literária à palavra; constrói-se, tanta vez, na tentativa de dar novo uso à palavra, o verso desconexo sem cuidar de o analisar antes de o pôr na rua, para ver se o escrito que se oferece ao leitor, o primeiro crítico, contém matéria digna de julgamento literário. A poesia até pode ser obscura e hermética na sua semântica ou sintaxe (atente-se na poesia de Herberto Helder) mas, se de autêntica poesia se tratar, essa obscuridade servirá para dar nova luminosidade à língua pela sua violência reveladora. A poesia é «uma arte do rigor, da obstinada busca (…) do mistério das coisas», mas é também «a procura da palavra que diga o indizível, que fale onde a linguagem se cala», como nos diz Sousa Dias em “O Que é a Poesia?”. A poesia maior é o silêncio que envolve as palavras e seduz por aquilo que as palavras deixam por dizer e se lê na voz que o silêncio cria na ausência das palavras.
Argumentar-se-á aqui, e com razão, que a liberdade poética admite todas as possibilidades da escrita. Pois sim, mas liberdade poética não é anarquismo poético que tantas vezes enferma de erros gramaticais que as editoras-prestadoras de serviços não cuidam em corrigir nas revisões que ficam por fazer, limitadas que são no saber do staff editorial, tantas vezes casal marido-mulher com uma quarta classe mal feita, encaixadas no espaço caseiro em que funcionam, exíguo e atafulhadas de caixas de livros por vender à espera do lucro fácil nesta exploração do poeta feito à pressa. Em boa verdade a poesia que se faz, actualmente, salvo raríssimas excepções, visa, apenas e só, o conhecimento do já sabido. Não explora e quase nada interroga; parece, que, com medo de desagradar a alguém, não sai do intuito, apenas, de agradar aos amigos com os já demasiado gastos versos de amor cansado. A tal ponto de, tanto o usar cantando-o, e a maior parte das vezes bem mal cantado, se vulgariza. Como, aliás, acontece com qualquer tema que se cante. Em boa verdade este tipo de poesia ao amor, hoje, quase se limita aos lamentos… mas, o mais angustiante, é ver e ler a análise (pseudo-análise) que pseudo-críticos fazem, por encomenda, a esses pseudo-poetas, autênticas catástrofes de tragédia no panorama literário actual. De “pseudismos” estão as redes sociais atulhadas! E levedam com o fermento dos pseudo-leitores!”
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Ferroada 2. A POESIA CIRCULAR OU REDONDA
Embora não exista tal conceito nem sequer definição firmada do que é a poesia circular ou redonda, o meu entendimento sobre ela passa por uma leitura pericial da questão em que o poeta, numa atitude lírica e que raramente passa além da lírica, parte em busca de uma identidade pacífica, unificadora, que não vai além do círculo das suas próprias águas, talvez com medo de perder a auréola que julga ter atingido, com medo dos percalços que possa haver se sair do seu círculo poético. Entendo por poesia circular, redonda ou elíptica aquela que tem sempre a mesma temperatura. Logo: não interroga, não se inquieta, não suscita, não acusa, não ousa procurar uma tentativa de resposta para as inquietações deste tempo desabitado. Porque, se o fizer, esse “meter o dedo na ferida”, esse mergulhar na chaga que supura e gangrena, essas interrogações que deve fazer, poder-lhe-ão ser fatais pela (in)sabedoria – embora não conste no dicionário, esta palavra, ela está aqui pelo que é de rebelde, pelo que é de inquiridor, pelo que é de diferente do tal modo de poetar “circular” – em conseguir ir além do lírico “sem sabor”, do elíptico, do que não fere susceptibilidades, do que não faz virar a cara do poeta para o lado pela falta de coragem de fazer a denúncia.
Poesia redonda, neste meu entendimento, será aquela que se fecha num movimento circular – aqui circular quer dizer “repetido” – como o nome indica. Comum em dois tipos de poetas: o primeiro, aquele que quer ser poeta à força, porque o vizinho do lado também o é, e enquanto não (se) cultiva o tal fiozinho de “inspiração” com vista a consolidar(-se) fazendo da poesia um trabalho intelectual; o segundo, o poeta que faz poesia sempre igual e sempre subordinada ao mesmo tema em toda a sua existência humana: feita de repetição, regida pelo ciclo do retorno, sem diferenças de ênfase, de temperatura, de cor e luz. Nestes últimos, escrevendo-a sempre assim até ao fim da vida, a poesia circular funciona neles como se fossem fixações obsessivas: sempre as mesmas ideias, sempre as mesmas imagens, sempre os mesmos temas repetidos, sempre os mesmos malabarismos para fixarem a si o mesmo tipo de leitor nos mesmos temas explorados. Muito comum no eterno poeta do eterno amor!
Não esquecer que a poesia, como nos diz o poeta Joaquim Pessoa, em entrevista publicada no livro “Poeta Visitado”, de Maria Augusta Silva, das Edições Caixotim, 2004, “(…) tem, também, a obrigação de palpar o mundo, de estar atenta aos sintomas e ajudar ao diagnóstico.”
A poesia circular rodopia à volta de si mesma, na busca da própria cauda que morde para nela injectar o seu veneno que não a deixa ir além de si mesma, além da sua enfermidade que não a deixa interrogar, inquietando e inquietando-se. Dificilmente faz nascer no leitor respostas sensoriais que possam ir para além do que as próprias imagens reflectem. Ela, a poesia redonda, não passa disso mesmo: do conceptual carregado de trocadilhos e outras figuras de estilo, quantas vezes desapropriadas, um uso excessivo de metáforas e hipérboles, às vezes tão desajustadas no poema q

ue até dá a entender que o poeta não percebe nada daquilo que quis deixar expresso, ponderando sempre, conquanto muitas vezes em desajuste no poema, o amor transcendente, esquecendo-se da transitoriedade do tempo, esquecendo-se da natureza tão adversa ao ser, do mal que produz o próprio homem a si próprio, desprezando a denúncia que é preciso fazer pela palavra, neste refúgio que procura em dizer sempre o mesmo em todas as circunstâncias, no tal movimento circular, vivendo com o próprio “veneno” obsessivo, que o “envenena” obsessivamente, como a serpente que, enrolada sobre si mesma morde a própria cauda, pois prefere ficar sempre bem com (o seu) deus e nunca desagradar ao (seu) diabo.

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