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A EXISTÊNCIA E A MORTE

REGINA SARDOEIRA
Querer saber. Dar resposta a todas as questões. Resolver inquietações. Penetrar segredos e mistérios. Eis o homem. E eis a morte. 
Situado entre duas ignorâncias – a primeira, decorrente do acto de nascer; a segunda, do acto de morrer – o homem existe no decurso das contingências marcadas pelo hífen que usualmente separa as datas-limite.
Escrevi a palavra “acto” para referir-me ao nascimento e à morte. E contudo, a crer na terminologia( discutível) da filosofia, quando se refere às acções humanas, nascer e morrer não são actos, porque deles não temos consciência. Apesar disso, e fugindo a tal conceptualização, o nascimento implica -nos, enquanto indivíduos, já que o feto quer romper a barreira que o afasta da luz do dia, e do ar e do ruído do mundo exterior e luta com todo o seu ser, rumo a essa libertação. O feto “sabe” que tem que nascer; o feto esforça-se por nascer. 
E aquele que morre? No instante-limite, saberá que morre? Terá uma percepção real do fim da vida, um pensamento, um gesto, uma palavra que lhe enuncie o momento em que dá o derradeiro suspiro, como correlato da primeira inspiração? 
Estas questões e o possível mistério que resiste, subjacente, a semelhante necessidade de conhecer, lançam sobre o homem um frequente sentimento de angústia. 
Não sabemos como, de facto, nascemos, e, decerto, esta inconsciência não nos perturba essencialmente (a mim, perturba, efectivamente). Contam-nos como foi. Situamos o acontecimento em tal ou tal dia e em tal ou tal hora. Tornámos a data parte da nossa identidade. E aceitámo-la como primeiro momento da nossa existência. 
A morte está, e ao mesmo tempo não está, no nosso horizonte futuro. O homem sabe que existe para a morte. Não sabe é quando morre; não sabe, de facto, o que é morrer. 
A ciência evoluiu vertiginosamente e revela-nos segredos cada vez mais prodigiosos acerca do universo, dos astros, do espaço , do tempo, das ondas gravitacionais, dos átomos. Tem obliterado, contudo, este problema, cuja solução é imprescindível para a compreensão de quem somos. E o problema é: o que se passa na mente, no corpo, no sistema nervoso, nas células, na inteligência, em tudo o que nos constitui, afinal, no instante da morte – que tão pouco sei se é, efectivamente, um instante? 
Trata -se de uma espécie de interruptor que se desliga, como se de um aparelho de aquecimento se tratasse? Mas, ainda aí, nesse aparelho que aquece o ambiente, um certo calor persiste após a pressão da tecla e vai, muito lentamente, diminuindo o seu vigor. Até ficar frio, decorrem alguns minutos, durante os quais o aparelho ainda está quente, depois morno, depois vagamente frio. 
Ora, se a morte for o equivalente a este pressionar do botão off do nosso organismo, o corpo, a mente, o cérebro, o sangue saberão que a corrente vital se interrompeu e, em breve, vai cessar de todo. Não ter consciência desse momento não significa que não pode ser observado o trabalho final do corpo nas suas diversas funções, a ponto de entender os seus sinais. 
Mas não terá, efectivamente, consciência de que morre, aquele que morre? Morrerá, enquanto tal, a consciência, no momento em que o coração para (mas parará bruscamente?) ou perceberá, impotente, que, em breve, a vida se ausentará do ser de quem foi o guia racional? 
Tanto quanto me é dado conhecer, nenhum cientista foi capaz ainda de sondar estes mistérios ( que qualquer ignorância humana acerca de seja o que for, enfileira nos anais do mistério). Nenhum neurocirurgião, por exemplo, entrou no cérebro humano para descobrir e estudar, nele, a consciência. 
Outra questão mais ousada é a de saber se a designada consciência nos transcende, permanecendo, imaterial e incorruptível, mas inoperante, na compreensão de que o corpo que animou morreu, mas ela perdura para fazer o registo em si dos trâmites organísmicos daquele que morre. 
Aparentemente, refiro-me à alma. E podem mesmo chamar-lhe assim, se acaso o desejarem. Porém, eu aludo à consciência de si, ao que nos faz, em cada momento da vida, ter noção de nós, enquanto um todo coeso, situado num tempo e num espaço e muitas vezes para além dele. A consciência do eu resulta da composição harmoniosa dos órgãos corporais ou transcende-a, persistindo, enquanto tal, como emanação viva daquele que morre? 
Se assim for, a consciência é uma energia cósmica ou transcendente, na medida em que nos insufla a noção do nosso eu, sem poder resumir -se ao organismo ou localizar-se, como o coração ou um rim; e, enquanto tal persiste, como memória do homem a que deu clarividência de si, e pode, após a desintegração da ordem corporal, apreender ainda os seus sinais derradeiros e um pouco além. 
Em 1907, o médico americano Duncan MacDougall, de Massachusetts, pesou seis doentes em estado terminal, enquanto morriam, fazendo o registo das suas perdas ponderais e manteve a pesagem, depois da morte. Verificou, em quase todos os casos, que, no momento ulterior à verificação da morte, a balança oscilava uma última vez registando, em média, uma baixa de 21 gramas. Julgou ter provado, com esta experiência que a alma existe, tem peso, e abandona o corpo quando o organismo cessa as suas outras funções. Viu, com esta rigorosa operação do peso dos homens, em desgaste fisiológico, que uma substância, invisível, mas registável na balança, se evolava do corpo, no momento da morte. Experimentou com cães; e o fenómeno da baixa brusca de peso no momento da morte não se verificou. 
O que é espantoso, segundo a minha perspectiva, é que os resultados da experiência tenham sido apresentados à comunidade científica da época, que um enorme cepticismo e muitas críticas tenham sido dirigidas a MacDougall , mas que, aparentemente, ninguém tenha algum dia retomado a investigação, com novas e mais precisas tecnologias capazes de darem a perceber que substância
é essa que, bruscamente, fez oscilar seis vezes a balança da experiência e se, de facto, se liberta, invisível, mas mensurável. 
Foi o ar do último suspiro, apenas, ou algo de mais complexo e inidentificável que pode muito bem ser a consciência? E se, de facto, uma matéria ponderável nos abandona no momento da morte, evolando-se do nosso corpo? Não guardará ela, em si, a essência de nós ou a memória ou mesmo a noção de nós, privados do funcionamento orgânico, mas existindo e perdurando nesses mínimos 21 gramas de ser, saídos do corpo já inerte? 
Há uma outra teoria científica que sustenta a possibilidade de, num futuro mais ou menos próximo, a inteligência humana ser transferida para máquinas, capazes de se auto reproduzirem, cessadas na terra as condições da vida biológica. Nesse caso, o homem persistiria, enquanto inteligência e também consciência, animando mecanismos portentosos, capazes de, com vantagem, relativamente ao homem biológico, continuarem a animar o universo. 
Vogamos, como pode perceber-se, no campo vasto das hipóteses e das probabilidades. E no entanto, a ciência humana não passa disso mesmo: hipóteses e probabilidades. 
Há uma semana atrás, soube da morte de um homem, colega de profissão. Em simultâneo soube que esse homem, quando foi encontrado, tinha morrido há quatro dias, sem que, ninguém – amigo, familiar, vizinho – de tal se tenha apercebido. 
Mais do que a morte efectiva dessa pessoa, o que profundamente me choca é saber que ele estava só no momento da morte – e nunca poderemos descobrir se o processo durou segundos ou horas – e que tipo de pensamentos lhe terão ocorrido ao detectar a iminência do derradeiro instante-limite. 
Os médicos podem dizer que foi um AVC fulminante, um ataque súbito que lhe obliterou a vontade e lhe paralisou o corpo. Podem dizer que não chegou a sofrer, esse que foi encontrado sem vida quatro dias depois de ficar absolutamente incontactável. Mas a consciência que fez dele o homem que era (é?!), que mensagens terá registado nos instantes decisivos, que sinais terá querido dar ao corpo para que lutasse pela vida? 
O disco rígido de um computador conserva os registos nele marcados, mesmo se uma avaria destrói os ficheiros. Um perito pode recuperar a informação por inteiro, ainda que o usuário, por carência técnica, não consiga. Se a inteligência artificial é capaz de recuperar memórias perdidas e repor a informação registada, mesmo que obliterada, teremos que concluir que a nossa inteligência, à imitação da qual foi criada a outra, designada como artificial, não permite reportar informações nela gravadas, mesmo depois da cessação do fluxo vital? 
Questionamento acima de todos radical, já que envolve a morte de um homem. Morte essa que ainda representa um tabu, um facto no qual sentimos necessidade de tocar muito ao de leve – para não ofendermos a memória do morto,dizemos; para não ferirmos a susceptibilidade da família que não desejamos inquietar mais – por respeito, asseguramos. 
Desse modo, perde-se ou vai-se perdendo tudo o que definiu a pessoa que morreu – porque ele levou consigo os seus segredos e mistérios e achamos ser nosso dever não levantar as pontas soltas. Guardamos luto. E guardar luto é calarmo-nos. É ir ao funeral e ver uma caixa de madeira a ser transportada e depois sepultada debaixo de uma camada de terra de onde a pessoa que morreu jamais se levantará . E somos tão cuidadosos que fechamos a caixa à chave, despejamos sobre ela pazadas de terra, cobrimo-la com mais terra ou mesmo com uma pesada tampa de mármore – ainda que o homem morto ressuscitasse, jamais poderia erguer-se do túmulo e reivindicar o seu lugar entre os vivos. 
E, facto acima de todos inquietante, é sabermos que a morte é natural, que a morte é mesmo a condição necessária de outras vidas, que aquele que nasce é um condenado à morte, a prazo, que morrer, enfim, significa exactamente o mesmo que viver. 
Este homem de que falo, Adão Campos, professor bibliotecário da Escola Secundária de Marco de Canaveses, viveu 52 anos, ao longo dos quais foi cumprindo a vida. E, mesmo desconhecendo os pormenores factuais do seu percurso biográfico e da sua vida privada, sei que o seu trajecto existencial não foi um desperdício. Realizou-se, creio eu, possivelmente sem ter chegado a sabê-lo. Creio firmemente que tinha projectos e que o tempo lhe faltou para os concretizar; mas, em simultâneo, vejo que deixou, de si, um legado e, a uma certa escala, não sei se grande ou pequena, porque não podemos quantificar méritos com base em propaganda mediática (um outro homem morreu, hoje mesmo e em pouquíssimo tempo, os meios de comunicação social desdobraram -se em notícias, testemunhos, homenagens, e era um grande homem, dizem) a sua marca está ali, pelo menos ali, naquela sala repleta de livros, onde conseguiu a façanha de atrair os jovens, principalmente os mais difíceis e arredios, aqueles de que outros haviam desistido, para dizer-lhes: “Tu podes ler, cantar, escrever poesia e declamá -la, basta que o desejes!”. Penso que esta morte abrupta, que caiu sobre nós como um tufão emocional deverá ser lida a uma outra luz, que não a da tragédia, que não a das lágrimas e dos lamentos porque o companheiro, o amigo, o conselheiro foi embora já que desígnios insondáveis (se os há) determinaram o fim do seu percurso existencial; mas ao mesmo tempo ficou, ali mesmo, na missão que cumpriu, na história que a sua presença, a sua acção deixaram para sempre impressas nas pessoas, nas coisas, na atmosfera, em todos os sinais espalhados abundantemente pelo espaço que percorreu, enquanto lhe foi dado poder fazê -lo. 
Se já chorámos este que morreu e se o choro não teve alcance suficiente para o fazer regressar, agora é o tempo de cantar, levantando esses sinais todos que ele foi deixando atrás dos seus passos e percebendo que este homem, afinal, era já completo na hora em que morreu.

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