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O STATUS QUO DA POESIA

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Portanto, «é um erro, dizer que a voz da poesia é una e que expressa o génio do poeta que, por sua vez, seria o porta-voz de alguma essência divina». (Wilton Cardoso, Doutor em estudos literários pela Universidades Federal de Goiás)
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ALVARO GIESTA
Sobre ” a Poesia Hoje” muito tenho escrito e até, há bem pouco tempo, deixei nesta revista para a qual escrevo um artigo subordinado ao tema “(…) a valorização do particular, do circunstancial e do privado” na poesia que hoje se escreve. E, o “hoje”, é balizado por esse período, ou melhor, a partir do fim desse período (se é que ele alguma vez terminou) designado por Romantismo, essa prolífera corrente literária e artística, acenturada na Alemanha do século XIX e que se espalhou pela Europa, em defesa dos valores das tradições nacionais, contra as imitações e revivalismo dos clássicos. Escola fantasiosa e imaginária, nas Letras e nas Artes, que muitos poetas dos que lavram hoje por aí tentam seguir nas letras, mas que pelo fastidioso, repetitivo e cansado modo de escrever, centrado no ego e implodindo, necessariamente, em temas de circunstância tão mal cantados, sem estética nem arte, artificialmente vulgarizados, caindo no depreciativo lírico e piegas de onde nada nasce de novo porque nada, nesta escrita do culto do particular, se faz com sabedoria. Quase tudo, hoje, em poesia, nesse modo lírico de poetar, é vago e plasticidade, sem inteligência estética, sem capacidade inovadora e renovada.
Não há margens para o texto literário. Ou antes, é nas margens que se inova o texto poético, a partir do que nelas se busca, se encontra, se equaciona, se interroga e se aponta como tentativa de resposta. Nesta globalização material em que os diálogos entre as «indústrias do livro e as indústrias culturais» e até as «indústrias académicas» onde se acertam e combinam atribuições de prémios literários sempre às mesmas élites de escritores e poetas, se perde o valor criativo do texto porque, nesta submissão dialogante de interesses, onde nem se quer se leem obras como resposta aos concursos aos ditos prémios, para nelas se saber da qualidades dos textos, se centram – um e outro, o texto poético e o prémio literário – na mesma regra de interesses limitados pelas suas próprias margens.
E deve ser, tem que ser, hoje, a poesia, a libertar-se para além das margens que são impostas pelos poetas das elites que se revezam na atribuição dos prémios. O que nem sempre acontece; muitas vezes, e por irónico que isso seja, são as próprias margens que se tornam centro, praticamente por si sós imitando ou reinventando (julgando reinventar), pelo negativo e prejudicial à poesia e à literatura, em geral, o que de mais negativo esses imitadores «podem configurar à poesia». Os imitadores dão assim, razão, àqueles que imitam, pelo epíteto que lhe atribuem de “mestre”.
Aqui refiro a importância da “poesia das margens” onde múltiplas vozes se possam ouvir na voz do poeta que se outra, mesmo sabendo-se que estes poetas vindos das margens ou que buscam as margens para escrever, ainda estão em minoria. Admito que há regras – não estabelecidas canonicamente mas que o bom senso no fazer poético a arte impõe – para que essa poesia vinda das margens não seja considerada menos por aquela outra poesia “elitista” que não tolera a face meio-selvagem da poesia que foge aos cânones das elites: estas que se julgam fadadas, face à sua sofisticação e feiras de vaidades passeando-se pelos nobres salões carunchosos da literatura, de serem as únicas com direito aos prémios literários, às academias de letras, à publicação editorial em moldes tais que mais nenhum outro poeta “menor” consegue (embora prime pela qualidade estética e literária), ao destaque cultural dos periódicos e televisões.
É isto que provoca o divórcio entre poesia considerada “coisa nobre” por poetas que ocupam uma espécie de lugar cimeiro e nobre no campo da literatura e a “outra” – a das margens – onde o poeta é sempre um outro que se liberta do próprio eu, que se transmuta no eu-outro para representar as múltiplas vozes que em si o inquietam pela desigualdade (ali a seu lado reinante), pela busca e interrogação, pela procura e tentativa de resposta neste tempo desabitado.
Essa face da poesia selvagem e de revolta, que nos tempos das revoluções fazem surgir e crescer poetas e movimentos, essa poesia clandestina parece hoje incomodar muito as consciências das elites que formam núcleos fechados, como se clãs fossem, pelo inadequado das vozes que a cantam: a mulher (ou quem nela se outra) com o seu grito de revolta pela humilhação e minorização face ao macho que se julga o ser predestinado para ser poeta – o verdadeiro poeta, o poeta digno do nome se devém, se outra como mulher e disso não se deve envergonhar (e o inverso também se verifica) para, transvertendo-se, encontrar forças para a fuga criativa: nada disso é desonra, nada disso é fracasso; sê-lo-á, apenas, nas mentes daqueles que não sabem honrar a poesia.
O vadio, o bêbado, o louco: estigmas nas franjas da sociedade tão esquecidos e desamparados por quem passa ao lado, não em desprezo total porque nem sequer neles reparam, mas num esquecimento absurdo por parte daqueles que apenas se dedicam à poesia centrada no ego. A mulher ultrajada, o vício, a pobreza e a loucura de quem muito os poetas fogem, significam um tema a evitar «não por medo do afastamento, mas pela prudência na aproximação». Mas esta aproximação é precisa para o poeta criar.
O poeta precisa fugir de si, libertar-se do eu que o inibe de criar, libertar-se da sua origem, libertar-se das algemas da raça, da idade, dos preconceitos que o acorrentam e o colam como betão ao chão que pisa, precisa de um outro, passar por um outro e para um outro e nesse outro buscar as potências criadoras: o outrar-se é devir; é a essência do poeta e do artista! É nas margens da sociedade que o poeta, buscando na mulher, na infância, no negro, no velho, no pobre, no vagabundo e no louco, nestas minorias que não são o que, normalmente, o poeta é, que se alcança a verdadeira essência da poesia. O poeta precisa destas potências das margens, das vozes destes “eu-outros” marginais para fazer a verdadeir

a poesia: a poesia da denúncia, da inquietação, da busca e da tentativa de resposta neste tempo desabitado.

É preciso outrar-se, sair de si, passar para o outro lado, pôr-se na pele do outro, atingir os seus estados de alma – de loucura, de falta de lucidez – vestir a pele do outro género, é preciso transmutar-se, é preciso buscar o «espírito da margem e deixar-se possuir por ele», entregar-se a ele, a esses «fluxos desnorteados, deixando se der sujeito de si», passar a ser o poeta que erra pelas veredas desertas e ruas sombrias, que vageia na noite sem rumo e dorme ao relento na cidade-real, precisa de ouvir, ver e falar com a desgraça marginal que caminha a desnorte pelas ruas onde (se) sonham sonhos possíveis que a sociedade capitalista se envergonha de concretizar.
O poeta precisa fazer a denúncia deste mundo em (des)construção e não ter medo de denunciar. Testemunhar o mundo a partir do caos «pedra harmoniosa» à flor da sombra de onde se regressa ao princípio: «incendeia-se de luz a sombra / dos caminhos por abrir onde se esconde / o óvulo // antes era caos / prenhe de ser o feto faz-se / o cosmos nasce // floresce da sombra envolto / num mar de luz / de pedra e sal // antes tudo era nada // o dia / do tempo primordial se despede / e fohe / da sombra buscando a luz / que é hoje» (Alvaro Giesta in Meditações sobre a palavra”

Judeu errante dentro de mim

[entre «aspas», palavras de Pessoa em “VIDA E OBRAS DO ENGENHEIRO”, por Álvaro de Campos e “LIVRO DO DESASSOSSEGO” de Fernando Pessoa composto pelo semi heterónimo Bernardo Soares]
«Nuvens… hoje tenho consciência do céu», do céu
desta Lisboa a quem sempre fui dado. Antes,
da janela do meu quarto «por onde eu via o mundo»,
naquele mágico momento que se tornava irrepetível,
eu via-me já outro por dentro de mim com a certeza
que geraria muitos mais “eu´s” tão iguais
e tão diferentes deste que sou, deles seu fadado criador.
Os meus passos ficaram por ali, perdidos,
com aquela alma de criança observadora
que sonhava outros seres imaginários,
a marcar presença nos ecos do passado.
E esses imaginários seres – todos diferentes entre si –
desinquietavam-se para escrever as suas ideias
e eu, através deles, poder falar de mim.
O que pretendiam era que «eu fosse diverso dentro deles»
como se um não fosse o outro e como se todos fossem
iguais a mim mesmo, apesar das nossas diferenças
literárias. Esquizofrenias… chamemos-lhe assim.
Vivíamos num estado fragmentário que nos unia
porque as nossas diferenças eram tão iguais
às nossas parecenças embrionárias.
Emprestei ao Álvaro um amigo – o António Mora –
que queria denunciar a loucura estéril
dos seus contemporâneos, e a quem eu dava coito
«Na Casa de Saúde de Cascais». Esse louco
que se arvorava no “profeta”, que não era
e jamais seria (!) desse «Deus que faltava»…
Estrebuchava, o mundo moderno «nas vascas da agonia
do “morbo mental” que o Cristianismo viera trazer
à vida dos homens» e queria ser Mora o antídoto
para a cura dos doentes a encerrar nessa “Casa de Saúde”.
Vejam – que ironia! – o privilégio de exclusão do mundo
neste «exílio natural» ao qual Campos naturalmente
fugia, porque o seu lar era «apenas o espaço aberto
das ruas de Lisboa». Nada lhe dava o sossego
dum regaço, como perder-se por ali…
Agora reconheço, a contragosto do engenheiro,
que era eu nele – e nos outros…
sendo eles a minha máscara, as máscaras
com que eu sempre me quis ocultar de mim
sem, no entanto, nunca o conseguir.
Esse «louco iluminado» que sem estatuto heteronímico
«escreveu mais páginas (de saber) que Caeiro e Reis
conjuntamente», não passava disso mesmo:
de «o louco iluminado» que se dizia o Profeta
desse «Deus que faltava» e queria substituir.
[Como António Mora sou o lunático que vive
neste manicómio do tempo… como Álvaro de Campos
sou visitante de mim mesmo em contemplações
desajustadas e inúteis; como Alberto Caeiro sou o eterno
poeta que brinda a terra com os meus versos;
como Ricardo Reis sou o inteiro em cada coisa que faço;
como Bernardo Soares sou o eterno inquieto
em desassossego constante.]
[Às vezes penso que, como Pessoa, também integro
personagens, em relação comigo mesmo, como aquelas
a que dou vida nos contos que me adormecem.
Integro personagens, ao acaso, mas em que, de cada
uma delas, se soltam folhas vivas deste tempo
da falta e da angústia. O tempo da busca, o tempo
da inquietação. Um tempo com ida sem regresso.]
[Sou o Judeu errante dentro de mim próprio
sem poiso e sem destino – como Álvaro de Campos,
num «desconforto de alma» sempre que visito
o meu passado. Concilio o sono nesta arte de sonhar
de alma errante a deambular por “Ítaca revisitada”.
Sou dois no mesmo corpo ao mesmo tempo – eu
e o meu lado bipolar em frenesi, numa marcha
por começar e sem regresso.]
«ESTOU CANSADO DA INTELIGÊNCIA.
Pensar faz mal às emoções.».
[Navego através das águas turbulentas da minha alma< /o:p>
em conflito, por não me saber encontrar
quando, acaso, fracasso. Querem ver-me desistir.
E a vontade foge-me, sinto o cansaço
apetece-me até nem sair do fosso em que caí.
Sinto na voz o estertor, falta-me a força interior
para sulcar novos mares. Quase desisto. Falta-me
o leme, a bússola, o astrolábio, perdido dentro de mim.
Mas por teimosia insisto, pois tenho a esperança
que um dia que mais não seja após a minha morte
a história me vai tornar sábio.]
Alvaro Giesta © Entrelaçam-se as palavras (manuscrito a publicar)
Direitos reservados nos termos da lei

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