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ENTRE A EXALTAÇÃO E A MELANCOLIA

[Realização e êxtase: conviria distinguir bem um do outro o caminho para o êxtase e o próprio êxtase; o primeiro ainda pode ter algum interesse por todas as lutas interiores, por todas as incertezas, por todo o esforço de pensar amplamente a que em geral dá origem; no entanto, já nele mesmo poderíamos ver, além de uma preocupação egoísta, uma alternativa de esperança e desespero, um gosto de revelação e dos auxílios sobrenaturais que não poderão talvez classificar-se como superiores.]
– Agostinho da Silva in Diário de Alcestes
[Mente – Cérebro: doença mental e criatividade não são categorias mutuamente excludentes; ao contrário, frequentemente estão associadas. Afinal, criar significa escapar de padrões habituais, inovar, surpreender. […]
As fases da doença bipolar favoreceriam o processo da criação literária, uma vez que correspondem à alternância característica de actividade do escritor: um período de “recolhimento”, de elaboração de ideias, seguido por um período de produção.]
– Mocys Sclias (inspiração e transpiração) artigo inserto em Março de 2008 na revista Scientific American
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(este artigo, na 1.ª pessoa, revela tão somente o que se passa comigo, enquanto autor, no meu acto de criar; pela primeira vez o revelo, não sem antes ter pensado, maduramente, se o devia tornar aqui público ou não.)
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ALVARO GIESTA
Há dias em que a minha euforia atinge os píncaros – não sei se subindo aos céus se descendo aos infernos – e nasce em mim a mais veemente e forte vontade de criar: e escrevo quase que alucinadamente, como se fosse esta a minha exclusiva missão; noutros, porém, a depressão abisma-me, a melancolia assalta-me e invade-me as entranhas até ao mais fundo de mim e mergulho num poço negro, que desconheço e do qual nem sei a profundidade que tem. É como se eu fosse dois saindo do mesmo corpo, duas formas de ser e estar no mundo.
No primeiro caso, a euforia leva-me ao mais alto da exaltação e prolonga-me pela noite dentro a capacidade de escrever. Não sei se este estado eufórico de criar é útil como tempo de criação, se ele é terreno de areias movediças e enganosas; sei, contudo, que ao contrário dos dias de morbidez em que nada me apetece fazer, muito menos fazer aquilo que ouso dizer “trabalhar”, nesses momentos de exaltação a palavra me nasce na ponta dos dedos e a afago com tal ardência e emoção que em breve surge o poema.
No ponto-morto entre estes dois momentos, há aquele tempo em que paro para pensar do que pode advir dessas areias movediças em que caminho – nesse processo de exaltação e euforia -, e indago-me como “educar e afinar” a alma para me sentir apenas um – o mesmo – em todos os minutos da vida. Mas depois concluo que, afinal, não é nenhuma catástrofe sentir esses momentos de exaltação e escrever “furibundamente” com a força do vulcão ainda que tudo possa ficar a apodrecer no recanto escuro das gavetas ou duma arca onde começa, já, a lavrar o bolor. O que é catastrófico é a monotonia em que o homem não cria e pode, até, perder a capacidade de criar se lhe faltar a coragem de afrontar as vozes críticas da maledicência, aquelas que apenas o são na medida em que, ao invés de ajudar a construir pretendem destruir pela inveja que lhes corrói as entranhas.
É na altura deste ponto-morto que paro para pensar: da razão da minha exaltação e da minha melancolia que grita algo em mim – como se fosse para me acordar deste meu sonhar acordado e em sobressalto (que se passa em mim?… porquê este grito de dentro de mim?…). E interrogo-me, em recolhimento, desta confusão violenta das coisas que a minha vida tem! É nessa altura que me nasce na ponta dos dedos desta minha mão direita uma vontade súbita e subtil de transferir para o papel o que começa a ganhar forma e a crescer no plano mental das ideias.
Primeiro numa desordem estuporada – tal a desordem das coisas da vida – as ideias surgem em catadupa; depois, ordenando-as numa unidade de significação, assim procedo: agarro nelas, reduzo-as a dois ou três tópicos, apenas, equaciono-as, penso nelas com mais profundidade, sem nunca entrar em catarse – porque não crio com a luz que dizem vir das musas – e, no fim desta operação intelectual escrevo, escrevo e muitas vezes sinto, neste processo de escrita, a dificuldade de parar. Neste campo se justifica a extensão das minhas crónicas e ensaios e até de longos poemas ainda inéditos.
É nestas alturas que me grita alto o expoente máximo do pensamento sobre liberdade de criar: Agostinho da Silva «um homem não nasceu para trabalhar, nasceu para criar, para ser poeta à solta». É nesta altura que me bate à porta a lembrança deste grande mestre e filósofo da sabedoria clara e simples do século XX, que na sua humildade claríssima e claríssima sabedoria tal se não considerava, como convém aos verdadeiros homens do saber. Agostinho da Silva que, através do diálogo aberto com todos, sem excepção, desmantelava todos os dogmas e certezas num processo de desconstrução dialogante respondendo com perguntas às questões interrogativas que o interlocutor lhe colocava quando o entrevistava.
Agostinho da Silva que advogava que o homem, sendo “poeta à solta”, se pode realizar, por si, sem sujeição a outros nem a opressões nem ditaduras. Nem sequer às barreiras do pensamento – que impõem ao pensamento -, porque a “Liberdade” não está condicionada aos estreitos limites de qualquer imposição, seja ela qual for, mesmo que se julguem com direito a impor restrições à liberdade de pensar e de criar, aqueles que se julgam bafejados pela única razão que julgam válida: a sua; porque liberdade de pensar, de criar, é um valor inalienável que confere ao Homem, que pensa e que cria, a expressão da sua vontade.
Sem constrangimentos, porque ficar constrangido perante o receio de debater, conversar, dialogar, comentar, contradizer, é, desde logo, perder o livre arbítrio, perder a liberdade de opinar por ficar servo/prisioneiro dessa ideia exterior a si, alheia à sua vontade de dizer.
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Liberdade! No meu poema te grito
com um grito que desperta em mim
a vontade mais forte de gritar
Gritar bem alto
e fazer ouvir a raiva e a dor
por ter calado tanto tempo a vontade
amordaçada
que doía desta revolta interior
Que importa que me algemem os pulsos
e me roubem o papel
onde verto a raiva nos versos do meu grito?!
Algemem-me os pulsos,
algemem…
…prendam-me, encarcerem-me
que também me hão-de soltar
mas não me amordacem… não me amordacem
que eu não me deixo nunca por ninguém amordaçar
Cortem-me as mãos, decepem-me…
Mesmo que me roubem a possibilidade
de escrever o meu grito
não vão ter a possibilidade de roubar
o fôlego que me vai na alma
a voz que há-de dizer o poema que trago no peito
até que um dia o ponha na rua
e aos ventos da liberdade o possa gritar.
(escritos intemporais – inédito)

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