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PALAVRAS, PALAVRAS, PALAVRAS

REGINA SARDOEIRA 
O mundo dos homens tece-se numa insuportável orgia de palavras. São tantas e tais, de tal maneira desenfreadas, na acutilância com que pretendem atingir o alvo, ou, pelo contrário, tão marcadas pela insídia em direcção à perversão e ao logro que, frequentemente, o silêncio emerge desse tumulto como a soberana condição do discurso. 
Vive-se num enredamento verbal que a maioria das vezes não tem outro sentido senão ocultar as ideias, mistificar e mascarar os segredos íntimos que, por essa razão, permanecerão para sempre invioláveis. E no entanto falamos, falamos sempre. Como se não fôssemos capazes de guardar silêncio em nenhuma circunstância e tivéssemos que encher constantemente o espaço de ruído e de sombra. Porque o ruído, ao constituir -se como marca da civilização que para nós reivindicamos, traduz-se no eclipse final ou momentâneo – consoante os casos – da clarividência ou da paz que conduziriam ao benefício da luz. 
Quem sabe silenciar e atender ao inaudível no secretismo da mente? Quem ousa ficar a sós consigo próprio na serenidade activa da descoberta e lançar pontes sobre o abismo ou esculpir fontes no deserto? 
Tudo é ânsia, pressa de chegar a nenhures. Corre-se porque parar é reconhecer a vanidade da pressa e cair no buraco do próprio vazio. Fala-se porque guardar silêncio é estar face a face consigo mesmo e tecer, em solilóquio, uma trama de desespero.
Temos, então, as palavras, muitas palavras. 
E aqui estamos, perante vós, com elas, enchendo de sinais negros uma página em branco, querendo atingir-vos, carregar na mola da vossa sensibilidade, abrir os portões que vos atirarão de encontro a vós mesmos. Achamos que esse direito nos pertence. Às vezes utilizamos maiúsculas e pintamo-las de vermelho, para que vos lembreis que há um fluxo sanguíneo e que nele reside a seiva e a voz. 
Mas teremos, de facto, o direito de agitar o vosso mundo, lembrando-vos o que, tão afanosamente, vos ides encarregando de esquecer?
Há o sortilégio do olvido e muitos de vós tomaram a poção miraculosa: por isso vos deixais deslizar, entontecidos, no fluxo álacre dos ruídos díspares que vos embriagam.
Estais aí, sentados, bocejais de fastio, pesam-vos os olhos e lacrimejais, pois o ar está prenhe de emanações deletérias. Qual, de entre vós, ousa confessar a inutilidade do ruído que a vossa boca emite ao falar, que os vossos pés produzem nos caminhos pisados do mundo?

Palavras, estas também o são, como todas as outras. Aquele que escreve suja de tinta a virgindade opaca de um pedaço de luz, sem conseguir dar a receita e salvar o mundo.

Salvar o mundo?! Como se houvesse ainda algo que valesse a pena salvar, como se, na linha do horizonte, o infinito tivesse perdido as suas prerrogativa e se destinasse, também ele, a ser preenchido pelo som da nossa voz! 
Também contra ele nos voltamos, raivosos de uma imensidão que nos escapa e querendo fazê -lo linear e diminuto à nossa mesquinha dimensão. 
Nada nos foge, nada resiste. Somos feras que se degradaram, enfunamos o peito, agitamo-nos na mais insensata das corridas e cremo-nos superiores, animais redimidos, imunes à miséria.
Um apelo vos fazemos do fundo deste atentado lúcido ao silêncio: encarai estas palavras como palavras que elas, de facto, apenas são. Fazei delas música, se puderdes, e esconjurai o ruído através dos espaços que vamos deixando entre as letras e que são outros tantos lampejos de infinito.

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