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BIRD Magazine

A CONQUISTA DA PERFEIÇÃO

REGINA SARDOEIRA 
Se todos nascemos perfeitos, se é exactamente essa a notícia que uma mãe espera ouvir quando dá à luz o filho e se a perfeição está toda nesse pequeno ser, dotado dos membros nas proporções certas e dos órgãos nos sítios exactos, a fim de cumprirem a sua função, por que razão, alguns anos volvidos, qualquer homem ou mulher percebe que a perfeição já não é um dos seus atributos? 
Vejamos uma árvore de fruto, uma macieira, por exemplo. Quando chega a altura certa, ela cobre-se de maçãs, tanto mais perfeitas e esplendorosas quanto mais adequado à sua espécie for o terreno onde cresceu. E nada mais fará, enquanto viver, do que, ciclicamente, ir produzindo maçãs, revelando todo o seu potencial em cada ano. 
A macieira, enquanto tal, é perfeita. Cumpre o que está inscrito nos seus genes e dá os seus frutos – de que ela própria não tira proveito – a quem deles queira usufruir, ou à terra onde acabarão amalgamados. 
Estamos em vantagem, se nos compararmos com uma simples macieira, temos dois pés e um cérebro pensante, temos uma consciência e uma vontade. Não somos obrigados a permanecer no mesmo lugar, esperando o benefício das boas condição climáticas, temos liberdade para procurarmos os meios que nos possibilitem desenvolver o potencial, bem evidente na perfeição do nosso ser no dia do nascimento. 
Acontece que, de tanto nos cobrirem das mais diversas vestes, de tanto nos conduzirem nesta e naquela direcção, de tanto nos ensinarem e aconselharem e influenciarem, acabamos perdidos de nós mesmos. Seguimos os caminhos tidos como normais, porque a isso somos compelidos; muitas vezes não queremos o que nos oferecem e a que chamam educação e rebelamo-nos, tornamo-nos marginais, desajustados ou descontentes; vamos vivendo e desejando uma vida diferente, quando a conseguimos desejamos outra qualquer e, infelizes ou simplesmente acomodados, olhamos para a infância, para esse bebé perfeito que um dia fomos e não compreendemos a imagem defeituosa de nós mesmos que o espelho devolve e, escassamente, vemos nela a criança entusiástica que éramos. 
Vestimos uma armadura, de tal modo forte e pesada, de tal forma soldada ao nosso corpo, que confundimos essa exterioridade com a verdade do corpo que está por dentro. Massacrado. Reprimido. Sangrando. 
Pensemos na macieira. Ela nasceu para dar maçãs, apenas isso. Quem se lembrará de exigir, de uma macieira, que ela realize outra função qualquer? 
Do mesmo modo, nós, humanos, nascemos dotados de um potencial pleno, e cabe ao mundo que nos possibilitou existir e a nós mesmos, logo que conscientes e autónomos, dar-lhe cumprimento. Só que quase ninguém consegue perceber (em si e nos outros) para que nasceu, que invólucro deverá romper para libertar a semente e frutificar. A macieira sabe-o e dá, na hora certa, as suas maçãs. Nós andamos em louca correria, de um lado para o outro, e a certa altura já nem sabemos muito bem quem somos e para que estamos aqui. 
Temos ambições e por elas guiamos os passos, rumo ao nosso futuro. A maior parte das vezes trata-se de ambições materiais: queremos ter dinheiro, bens, rodeamo-nos de coisas, afundamo-nos nelas, e de novo desejamos mais dinheiro, mais bens, mais coisas. Nessa luta árdua pela posse de objectos, gastamos a nossa vida, consumimos o nosso corpo, esvaímos a nossa mente. E eis-nos descontentes, porque afinal não somos quem gostaríamos de ser e já não sabemos (ou faltam-nos as forças) como ir em demanda de nós mesmos. 
Não somos macieiras, não produzimos maçãs. Somos humanos e produzimos outros humanos. A diferença não seria grande se, enquanto humanos, não estivéssemos no topo da complexidade da natureza. Essa complexidade, geradora de autonomia, cria, paradoxalmente e em igual escala, dependência. Construímos um mundo dentro do mundo e dentro desse mundo ainda criamos milhares de labirintos por onde temos que ir arrastando a nossa armadura, chocando nas paredes e perdendo-nos nas múltiplas ruelas. 
Ideal seria cada um de nós fazer aquilo para que foi feito – como a macieira e as suas maçãs. Ideal seria termos os guias certos nas encruzilhadas da vida (quando somos crianças) e depois não nos deixarmos perder na luta por ambições vazias. Ideal seria termos sempre presente a imagem perfeita do bebé que já fomos e nunca cedermos ao anquilosamento. 
Quando escrevo “ideal”, penso em Platão e na teoria dualista de mundos, em que a ideia ou “eidos” é a realidade mesmo, e as coisas não passam de ilusões e cópias. Penso na dialéctica ascensional, pela qual seremos capazes de ultrapassar a “doxa” (opinião) e atingir a “episteme” (conhecimento). Penso na sabedoria da sua concepção de mundo pela qual é bom cada um fazer aquilo que lhe compete. Tal como a macieira que produz maçãs, pois é esse o seu desígnio.
Muitas vezes enfrentei o juízo de pessoas que me dizem: “A perfeição não existe! “, e retruco-lhes sempre: “Então a que se aplica ou de onde vem essa palavra que usamos para designar aquilo que, afinal, declaramos não existir? ” 
Afirmo então que dentro de nós, envolvido em carapaças de falsos objectivos e inúteis ambições, está o ser perfeito que fomos no dia em que nascemos. Se ainda estamos vivos, isso significa tão somente que não nos cumprimos, até ao limite, e ainda que não podemos resignar -nos dizendo “Sou muito velho ou já não tenho tempo”. Basta que tenhamos a coragem de fender a nossa armadura e arrancá -la da pele a que se soldou. Vai doer, claro, o processo irá parecer uma saga intolerável. Mas bem no fim do caminho, quando pudermos ver o brilho acetinado da nossa pele, saberemos que ainda somos da mesma matéria de que fomos feitos no dia em que saímos para a luz, do ventre da nossa mãe. Nesse dia seremos, de novo, perfeitos.

(Nota: tive o privilégio de ler, há pouco, o livro O Cavaleiro da Armadura Enferrujada, de Robert Fischer. A esta leitura devo as reflexões aqui expressas.)

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