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LEISHMANIOSE CANINA

PEDRO SOARES
Amarante é sem dúvida uma zona de grande prevalência de Leishmaniose. 
No CVA temos muitos cães diagnosticados e que após tratamento tem excelente qualidade de vida. Não encare a eutanásia como primeira opção! 
No entanto mais vale prevenir: Pipetas repelentes de insectos mensalmente e/ou coleira repelente, e já existe vacinação para a Leishmaniose.
Notem que nem todos os cães infetados desenvolvem doença.

A causa
As Leishmanioses, em Portugal, são causadas por protozoários, Leishmania infantum transmitidos, de cão a cão ou de cão ao Homem, através da picada de um insecto. 
A Leishmaniose Canina manifesta-se na maioria das vezes como  uma doença viscero-cutânea isto é, para além do envolvimento dos órgãos internos apresenta também alterações cutâneas.
O vector
Como foi referido atrás, a transmissão da infecção carece da intervenção dos insectos flebotomíneos. A transmissão de  Leishmania é efectuada sempre pela picada no cão do flebótomo (insecto) infectado.
Os flebótomos são pequenos insectos com um comprimento de 2 a 3 mm. 
A actividade destes insectos é principalmente nocturna, estendendo-se do entardecer até ao amanhecer.
Na região mediterrânica e mais concretamente em Portugal, os flebótomos estão activos entre os meses de Maio a Outubro, dependendo das condições climáticas.
Pode considerar-se que o pico de actividade é em Julho e Agosto.  
Sendo a Leishmaniose Canina uma doença transmitida por um vector – o flebótomo, a sua frequência será ditada, também, pela quantidade de flebótomos existentes.
Sendo favoravelmente sensíveis ao calor, a sua existência é influenciada positivamente pelo aumento da temperatura. De projecções feitas em Portugal conclui-se que, a manter-se a tendência do aquecimento global, os períodos favoráveis à transmissão da Leishmaniose terão tendência a aumentar, o que pode conduzir ao aumento das Leishmanioses em Portugal.
Epidemiologia
A leishmaniose tem tendência a ser endémica nas regiões onde se encontram o vector e os mamíferos, que actuam como hospedeiros e reservatórios do parasita.    
    
Os cães domésticos são um importante reservatório para a forma clínica visceral  da leishmaniose humana. A quantidade de cães infectados é difícil de calcular devido, por um lado, à existência de cães assintomáticos e, por outro, ao longo e variável período de incubação, que pode atingir anos. Em alguns focos endémicos da infecção podem ser atingidos valores de seroprevalência de 60% a 80%. No entanto, é preciso ter em conta que alguns animais podem nunca desenvolver a doença. A infecção canina ocorre principalmente em áreas rurais ou nas zonas limítrofes das cidades.    
O diagnóstico
Os testes de diagnóstico da Leishmaniose Canina devem ser realizados sempre que exista suspeita clínica da doença ou meramente como rotina. Aliás, e como a doença é muito frequente em Portugal, recomenda-se cada vez mais a realização de rastreios regulares, preferencialmente anuais, a todos os cães, principalmente aqueles que vivam ou visitem zonas do país reconhecidamente mais problemáticas.
Existem vários tipos de testes de diagnóstico para a Leishmaniose Canina. A grande maioria implica a colheita de uma amostra de sangue ou de uma amostra de gânglio linfático ou de medula óssea, por intermédio de uma punção aspirativa.
Estas amostras podem ser sujeitas a vários tipos de análises.
A positividade numa análise à Leishmaniose Canina não implica que o animal esteja doente ou que vá desenvolver a doença. O Médico-Veterinário do seu cão irá também realizar um exame clínico exaustivo que ajudará no estabelecimento do diagnóstico final.    
    
O diagnóstico precoce é muito importante, pois quanto mais cedo for diagnosticada a doença, menos disseminado estará o parasita, mais sucesso terá a terapêutica e melhor será o prognóstico.
    
Os rastreios regulares de rotina devem ser efectuados preferencialmente entre Janeiro a Março.    
A Patogenia
Quando o flebótomo pica o cão, as leishmanias são inoculadas, com a saliva do insecto, na camada  interna da pele – a derme. As leishmanias passam para esta camada graças a umas células especiais do sistema imunitário do cão – os macrófagos, que, ao invés de destruírem os parasitas, porque entretanto se tornam incapazes de o fazer, funcionam como locais de multiplicação. Os macrófagos acabam por ser lisados e libertam um número elevado de leishmanias que vão infectar outras células. Posteriormente ocorre a disseminação das leishmanias pelo organismo do cão, nomeadamente para os gânglios linfáticos, baço, fígado  e outros órgãos/tecidos e principalmente a pele.
Nem todos os cães que se infectam
com leishmanias desenvolvem a doença. A resposta imunitária produzida pelos cães no momento da infecção parece ser um dos factores mais determinantes no desenvolvimento da infecção e na sua progressão de um estadio assintomático para um estadio sintomático.
A leishmaniose canina é geralmente uma doença crónica, cujos sinais clínicos podem desenvolver-se entre 3 meses a 7 anos após a infecção. Na generalidade, todos os animais infectados desenvolvem uma  resposta imunitária às leishmanias. Os animais que desenvolvem a doença, são aqueles que produzem uma resposta imunitária não-protectora. Esta resposta não-protectora é caracterizada por uma produção exagerada de anticorpos. Esta grande quantidade de anticorpos vai depositar-se nas paredes dos vasos sanguíneos levando ao desenvolvimento de lesões em vários tecidos e órgãos, como as articulações, olhos, intestino e rins. Nos cães, as lesões nos rins levam ao desenvolvimento de insuficiência renal crónica, a qual, geralmente, é a principal causa de morte por leishmaniose canina, sendo também muito frequentes as lesões oculares e as síndromes gastrintestinais com vómitos e diarreia.
Os sinais clínicos
A Leishmaniose Canina é uma doença crónica, cujos sinais clínicos são muito variáveis e que geralmente se iniciam com uma apatia progressiva e uma intolerância insidiosa ao exercício. As lesões da pele são das mais frequentes, geralmente não causam prurido (comichão) e começam com uma perda de pêlo progressiva acompanhada de caspa, que se inicia na cabeça e posteriormente se estende ao resto do corpo. Alguns animais desenvolvem ulcerações (feridas) no nariz e pavilhões auriculares. Entre 20 a 40% dos cães com Leishmaniose Canina desenvolvem lesões oculares. O crescimento exagerado das unhas e o corrimento nasal sanguinolento (epistáxis) são também sinais muito frequentes. A perda de peso e a atrofia muscular são dos sinais mais frequentes quando existe um comprometimento visceral. Alguns animais podem perder peso, mesmo que tenham o aumento do apetite 
Quando os cães desenvolvem insuficiência renal crónica, o seu estado geral agrava-se bastante. Nesta fase, os animais podem apresentar perda de apetite, , emitem grandes volumes de urina e ingerem mais água. Nas fases mais adiantadas desta insuficiência podem também apresentar vómito,. e episódios de diarreia. Raramente apresentam febre e se a apresentarem, geralmente, é baixa.
A imunossupressão, causada pela própria doença, pode promover a ocorrência de infecções concomitantes.
O tratamento

A Leishmaniose Canina é fatal caso não seja tratada.
O tratamento de um cão com Leishmaniose deve abordar várias vertentes:
– A estabilização do animal, principalmente quando está numa fase avançada e em mau estado geral, muitas vezes devida à insuficiência renal crónica ou a outras infecções que surgiram devido à imunodepressão
– O controlo do parasita no organismo do cão
No que diz respeito ao controlo do parasita Leishmania, este, na maioria das vezes, não permite a eliminação da infecção, podendo o animal apresentar recidivas, passados meses ou anos. 
A terapêutica mais utilizada para a eliminação do parasita consiste na administração de injecções diárias e de comprimidos e/ou de uma solução oral. O tratamento é longo, sendo, geralmente, no mínimo de um mês. 
Após a melhoria clínica, pode ser necessário que o cão tome comprimidos durante o resto da vida.
É aconselhável repetir as análises para controlar a resposta ao tratamento, 3 meses após o início do mesmo. 
Na medida em que o animal pode ficar portador do parasita ou estar sujeito a reinfecções, devem efectuar-se controlos regulares para detectar recaídas em fases muito precoces.
As fêmeas devem ser esterilizadas, pois durante o cio as suas defesas imunitárias diminuem, podendo originar recaídas. 
Caso os donos não optem pelo tratamento, é obrigatória a eutanásia do animal, uma vez que sem o tratamento a doença é mortal e eleva o risco em termos de Saúde Pública. Esta obrigatoriedade advém do Decreto-Lei  nº314/2003 de 17 de Dezembro.
A prevenção
A Prevenção é a medida mais importante para a saúde do animal uma vez que os tratamentos existentes não permitem eliminar definitivamente a infecção, podendo os animais apresentar recidivas passados meses a anos. Adicionalmente, o custo médio para tratar um episódio de Leishmaniose pode facilmente ser superior ao custo da prevenção da doença durante toda a vida um cão.
De entre as medidas preventivas destacam-se:
– Uso de produtos que diminuem as picadas dos flebótomo nos cães como coleiras ou pipetas especiais. 
– Evitar os passeios, sobretudo entre o entardecer e o amanhecer, pois corresponde ao período de maior actividade dos flebótomos transmissores. 
– Assegurar um bom estado de saúde do animal, para proteger o seu sistema imunitário. Uma boa alimentação, a vacinação e a desparasitação regulares são outras medidas de prevenção que ajudam o seu cão. 
– Todos os animais doentes, em tratamento, ou que tenham recuperado de um episódio da doença, devem ser protegidos das picadas dos insectos. Estudos comprovam que em animais doentes e nos quais foram colocados coleiras protectoras, os sinais clínicos são em menor número e evoluem mais lentamente.
– Efectuar rastreios anuais da Leishmaniose Canina. Estes permitirão o diagnóstico precoce da doença e, consequentemente, um tratamento mais eficaz.
Actualmente, já está disponível uma vacina contra a Leishmaniose Canina em Portugal. Informe-se junto do seu médico veterinário se deve adicionar a vacinação às outras acções de prevenção que já implementou.
Considerações de Saúde Pública

Tal como nos cães, no Homem, a Leishmaniose Visceral é fatal, caso não seja tratada. No entanto, no Homem, o tratamento tem uma taxa de sucesso superior, sendo raras as recidivas, excepto nos indivíduos com imunodepressão. 
A transmissão do cão ao Homem, faz-se sempre por intermédio do insecto vector – o flebótomo. A doença não se transmite por mero contacto ou proximidade física.
O aumento da Leishmaniose Canina pode fazer aumentar a Leishmaniose Humana. Assim, é muito importante tentar conter a prevalência  da doença no cão.
A posse de cães com Leishmaniose não constituirá exactamente um risco acrescido de infecção para os donos, mas o risco de transmissão será inferior se os cães estiverem em tratamento.
O abandono de cães constitui um risco acrescido para o aumento da prevalência e propagação das Leishmanioses. Estes animais errantes não têm vigilância sanitária e estão geralmente mais susceptíveis às infecções, também por malnutrição.

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