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PSICOLOGIA E DESPORTO – FALANDO DE MOTIVAÇÃO

GONÇALO NOVAIS 
A imensidão de artigos escritos e programas televisivos promotores de eternas e estéreis discussões em torno de erros de arbitragem, e a existência de um apreciável número de blogues e jornais digitais competentemente debruçados (e bem!) sobre a análise técnico-táctica da modalidade futebol, coloca-me com mais vontade de, dentro das minhas humildes possibilidades, contribuir para o desenvolvimento de temas com interesse científico e metodológico não apenas para quem trabalha no desporto, como também em outras áreas profissionais que impliquem gestão de recursos humanos.
A motivação é um desses temas, tão falado, a meu ver, mas tremendamente mal compreendido, mesmo por aqueles que, por força do exercício das suas funções, deviam ter conhecimento presente no sentido de intervir adequadamente sobre este fenómeno. Todavia, o tema da motivação não é abordável numa única crónica, pelo que terei de o desenvolver em crónicas subsequentes, pelo que o leitor interessado terá muito ainda para ler no respeitante a este tema.
Mas suspendamos os rodeios e direccionemo-nos para o tema. E comecemos por, a partir de agora, por sublinhar a noção de que a motivação não é uma entidade, mas sim um PROCESSO. O que quer isto dizer?
Quer dizer que a motivação constrói-se, não sendo algo que se adquire de um momento para o outro. E esta construção faz-se através de um processo, que pela experiência que tenho, não raras vezes tem início antes do próprio processo de operacionalização do modelo de jogo da equipa ou do atleta que se esteja a treinar. 
O processo motivacional pode ser então definido como um processo de trabalho caracterizado por orientar, direcionar e regular todo o conjunto de comportamentos orientados para o alcance de objectivos de realização, objectivos de realização pessoal subjectivamente definidos pelo desportista, e de cujo alcance depende a percepção de sucesso ou fracasso do que persegue tais objectivos. Processo esse que, na minha opinião, começa várias vezes ANTES do processo de operacionalização do modelo de jogo, bem como de qualquer outro tipo de actividade que se inicie em outros contextos. 
Olhando para a definição dada ao termo “processo motivacional”, é fácil observar a importância que é dada aos objectivos de realização, que temos necessariamente de saber definir e identificar, sob pena de o processo motivacional que estamos a conduzir ser inadequado às características das pessoas com quem trabalhamos.
A comunidade científica tem feito um significativo esforço no desenvolvimento de um conjunto de conhecimentos teóricos conducentes à formulação de uma teoria dos objectivos de realização, na qual explicam de forma mais aprofundada, através de certos pressupostos, qual a influência dos objectivos de realização no desenvolvimento de um qualquer processo motivacional, numa teoria que pode perfeitamente ser aplicada a vários contextos laborais:
Pressuposto 1- O ser humano é uma entidade racional, orientada para a obtenção de determinados objectivos, e que opera de forma directa e consciente sobre o meio, para que tais objectivos sejam alcançados. 
Uma pergunta aqui se coloca, que é a de saber quais são os verdadeiros objectivos de realização que norteiam as pessoas com quem trabalhamos. Do conhecimento preciso desses objectivos de realização depende desde logo a compreensão do comportamento dessas mesmas pessoas, pois esse comportamento é norteado pelos objectivos de realização que a pessoa tem. Por outro lado, esse pressuposto chama, na minha análise, a atenção para a necessidade de, seja em intervenções dirigidas ao grupo seja em intervenções individualizadas, se saber utilizar o conhecimento dos objectivos de realização de todos os envolvidos no processo desportivo ao serviço da construção de um discurso que, mais do que apontar para a importância de conceitos relativamente vazios de conteúdo e destituídos de grande importância prática como “o peso das camisolas” ou a “mística”, aponte directamente para aquilo que mais motiva os envolvidos no processo, dentro de uma espécie de equilíbrio entre os objectivos gerais do clube desportivo (caso exista) para um determinado ciclo de trabalho, e os objectivos de realização dos desportistas, entre outros envolvidos. 
Pressuposto 2- Os objectivos de realização governam e influenciam os processos de tomada de decisão e o comportamento operante apresentado pelos indivíduos nos seus contextos de actividade.
Ou seja, em contexto de treino ou competição, os objectivos de realização estão sempre lá, muito embora haja quem, apesar de liderar processos desportivos, não os veja e chegue mesmo a desconsiderá-los, seja por achar que existem outros aspectos do seu trabalho que sejam mais relevantes, seja por aceitar acriticamente objectivos gerais impostos pelas Direcções dos clubes sem se preocupar se existe correspondência entre objectivos institucionais e objectivos de realização pessoais, seja por simples desconhecimento do que é e de qual a importância de um processo motivacional. 

Quanto tempo passa um líder desportivo debruçado na tarefa de identificar os objectivos de realização daqueles que com ele trabalham? E se o tenta fazer, que ferramentas usa? Qual a sua abordagem? De que forma ele procede à recolha de informação? Como procede ele à selecção de informação? 

Pressuposto 3- Para compreender a motivação de uma pessoa, há que compreender a relação entre o significado deste processo para o indivíduo, e o respectivo comportamento.
Um processo motivacional tanto pode ser mais orientado para a obtenção de bons resultados desportivos, como pode debruçar-se mais sobre a importância de melhorar sistematicamente a performance desportiva rumo a um patamar de maior competitividade, ou pode orientar-se em simultâneo para ambos. 
A part

ir daqui, e conhecendo os objectivos de realização dos envolvidos no processo, pode ser possível entender o significado e a relevância dos ditos objectivos mediante o comportamento individual manifestado. A título de exemplo, uma equipa que tenha como principal objectivo sagrar-se campeã nacional mas que não explore, sob o ponto de vista de quem dirige e gere um processo desportivo, os seus recursos de forma minimamente satisfatória rumo ao alcance desse mesmo objectivo pode ser um indício de que existe um problema no processo motivacional da equipa ou do desportista, e por conseguinte em todo o processo de trabalho, que tenha de ser alvo de rápida intervenção. 

Pressuposto 4- O tipo de objectivos de realização determina o comportamento dos envolvidos no processo. 
Existem dois tipos de objectivos de realização: objectivos de resultado e objectivos de performance. E em função de cada um dos tipos o comportamento pode ser diferente. Quando os objectivos de realização são de resultado, e quando o processo motivacional atribui maior importância à obtenção de bons resultados, pode assistir-se a um comportamento no qual o rendimento dos envolvidos é tão elevado quanto o necessário para que os resultados pretendidos sejam obtidos. Um processo motivacional com um maior enfoque na performance tem uma maior tendência para se traduzir num comportamento de procura sistemática da melhoria de capacidades e competências necessárias para se chegar à excelência. 
Pressuposto 5 – As variações nos comportamentos orientados para os objectivos de realização podem não ser derivadas de flutuações motivacionais. 
Podem ser derivadas de alterações, por parte dos envolvidos, na percepção da evolução que devem ter ao nível de determinadas competências e aspectos do seu trabalho, que possam facilitar o alcance dos seus objectivos de realização. Se por exemplo uma equipa de basquetebol for trabalhada num processo motivacional em que o resultado tem maior relevância do que quaisquer outros objectivos, e se essa mesma equipa estiver a vencer tranquilamente os seus adversários, o esforço, o investimento de recursos pessoais ou mesmo o tempo de trabalho usado para o desenvolvimento de certas capacidades irão basicamente ser os que permitam à equipa continuar a vencer, independentemente da evolução performativa que se possa registar. Conheço alguns casos de treinadores de equipas altamente competitivas frustrados por sentirem que as suas equipas, a dada altura, relaxam quando o jogo, em termos de resultado, está a correr de feição. Porém, no seguimento deste exemplo, importa perguntar o seguinte: quais as características do processo motivacional desenvolvido? Qual o tipo de objectivos de realização que, a nível institucional, é mais adaptativo e valorizado? É que, pegando neste exemplo, se começamos a trabalhar aqueles que lideramos num processo motivacional com maior enfoque no resultado, será, no mínimo, muito difícil alterar o enfoque desse processo motivacional quando as coisas até estão a correr bem. É quase como bater com a cabeça na parede e esperar que seja a parede, e não a nossa cabeça, a rachar… 

Existe mais um pressuposto, que será desenvolvido num próximo artigo, quando eu falar de percepções de competência. Mas a psicologia do desporto tem uma enorme vastidão de temas, e importa desenvolvê-los a par e passo, bem devagar, de modo a que os diversos temas possam ser tão bem explicados dentro das minhas possibilidades. 

Bibliografia:
Roberts, G. C., Treasure, D., & Conroy, D. E. (2007). Understanding the Dynamics of Motivation in Sport and Physical Activity – An Achievement Goal Interpretation. In G. Tenenbaum & R. Eklund (Eds.), Handbook of Sport Psychology – Third Edition (pp 3-30). Hoboken, New Jersey: John Wiley & Sons, Inc.

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