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OS LIMITES DA ARTE

MARCOS PORTO
É verdade que os contornos que delimitam as fronteiras da Arte estão cada vez menos nítidos, independentemente do pressuposto sócio-cultural, desconfia-se muito da palavra arte e ainda mais dos seus limites. Foram muitos os artistas que romperam com os paradigmas dando um passo para além da fronteira invisível. Através das suas obras disponibilizaram um mapa artístico muito mais vasto e completo a toda a Humanidade, porém susceptível à apreciação de cada indivíduo.
Desde um simples urinol branco assinado por um tal de R. Mutt e intitulado de A Fonte, foi tudo quanto Marcel Duchamp enviou à nova Society for Independent Artist, (sociedade da qual ele próprio era director), enquanto forma de protesto contra os métodos de apreciação de uma obra de arte. A peça foi chumbada pelo júri, mas o seu impacto abalou todo o mundo artístico.

Figura 1 – Marcel Duchamp – A Fonte. 1917. Ready-made, urinol invertido. 61  x 36  x 48 cm
Figura 2 – Manzoni Piero – Merde d’Artiste. 1961.
 Latas de conserva metálicas, 4,8 x  6,5 cm
Piero Manzoni, em 1961, elaborou e apresentou uma obra inédita, visceral e íntima por excelência, o trabalho Merda d’Artista consistia em cerca de 90 latas de conserva devidamente seladas e rotuladas que continham no seu interior as fezes do artista italiano. 
Figura 3 – Chris Burden – Shoot. 1971. Performance. Espaço F, Santa Ana, Califórnia
Na performance Shoot, em 1971, o artista norte-americano Chris Burden é baleado no braço esquerdo por um assistente num manifesto contra a Guerra no Vietmane. Em 1989, na China, a artista sérvia Marina Abramovic transformava o final da sua relação amorosa com o artista alemão Ulay, numa obra de arte à qual denominou de Os amantes: a caminhada da Grande Muralha.
Figura 4 – Marina Abramovic e Ulay – Os amantes: a caminha na Grande Muralha. 1989. Performance. China
Noventa anos após A Fonte de Duchamp, o artista plástico Guilhermo Vargas Jiménez, (mais conhecido através do seu pseudónimo Habacuc), colocou o seu nome nas páginas da imprensa mundial após ter recolhido um cão doente e faminto para expô-lo na Galeria Códice, em Manágua, capital da Nicarágua. A indignação tornou-se quase universal após o convite ao artista para participar na Bienal Centro-Americana (Bienarte) que decorreria nas Honduras em Novembro do ano seguinte.
Na noite de 10 de Novembro de 2005, na Costa-Rica um jovem de 25 anos chamado Leopoldo Natividad Canda Mairena saltou a vedação de uma empresa industrial de Cartago e foi atacado por dois Mrottweillers. Durante os 54 minutos que durou o ataque dos cães, acorreram seguranças da empresa, polícias e bombeiros enquanto o facto era filmado e apresentado na televisão. Nas imagens, os presentes assistiram aos ataques dos cães, sem intervir. Nati, como era conhecido, foi dilacerado. Foram contabilizadas mais de duas centenas de ferimentos, teve múltiplas perdas de pele, músculos, tendões, artérias, veias e nervos em todo o corpo. Depois de ter sido conduzido para o hospital, acabou por morrer nos cuidados intensivos com uma paragem cárdio-respiratória.
O assunto foi “devidamente investigado”, tanto os agentes da polícia como os seguranças alegaram não ter disparado contra os cães para não atingirem Nati, sendo a conclusão do inquérito que os agentes não o puderam fazer por oposição do dono da empresa. Mais tarde uma firma norte-americana ofereceu uma indemnização à família para que

esquecesse o sucedido e desse o caso por encerrado. A investigação continuou em aberto por mais três anos sem que ninguém viesse a ser incriminado.

Habacuc quis recriar a indiferença e a hipocrisia geral que se gerou em torno deste caso. Capturou um cão faminto e doente, prendeu-o na Galeria Códice, escreveu na parede com biscoitos para cão ‘eres lo que lees’, denominou o cão Natividad, pôs o hino sandinista a tocar ao contrário, e considerou parte da sua obra os meios de comunicação. Foi a sua Exposicion Nº 1.
Ao longo de três dia o cão esteve exposto sem água ou alimento até ao seu desaparecimento da galeria. O caos foi mediatizado, o cão supostamente dado como morto e a indignação estendeu-se à escala mundial. A morte ficcionada é uma realidade, a morte real poderá no entanto não passar de uma ficção que o artista até hoje não esclarece: ‘Natividad morreu’ é tudo quanto diz.
No final da exposição um jornalista local confrontou Habacuc com uma petição apelando ao final da sua carreira, que contava na altura com mais de dois milhões de signatários, o artista porto-riquenho assinou a petição rematando: ‘a reacção do público é o elemento final que conclui esta obra de arte e como tal, todo o artista deve assinar a sua obra quando concluída’.
Fig. 4,5 e 6: “Guilhermo Vargas Jímenes a.k.a. Habacuc – Exposición Nº1. 2007. Instalação. dimensões variáveis. Galeria Códice, Manágua, Nicarágua”
Ao longo dos tempos, foram inúmeras as tentativas de limitação da Arte, desde a moldura ao espaço museológico, do canto ao grito, do som ao ruído, da dança à gesticulação, do objecto ao acontecimento. Por fim, tentou-se limitar a Arte aos artistas mas ela parece apenas obedecer à fronteira privada da subjectividade, vergando-se unicamente perante juízo de valor de todo aquele que a sinta.
Esquece-mo-nos de que Arte não é uma indústria, nem um objecto, tão pouco um sentimento ou uma ideia. Que não pode ser definida nem destituída. A Arte é um subterfúgio interior, epidérmico, sob a forma de consciência palpável tão íntima e universal que não pode ser partilhada mas, no entanto, necessita que lhe imponham limites, apenas para os poder extravasar.

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