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BIRD Magazine

A FILOSOFIA COMO PEDAGOGIA E DIDÁCTICA

ISABEL ROSETE (ao centro):
“No lançamento do meu livro “FLUXOS DA MEMÓRIA” realizado no Instituto de Ciências do Som, a convite da Dr.ª Danuia Pereira Leite, a quem muito agradeço, assim como a todos os presentes – Lisboa”
É de todo oportuno que se torne a mostrar as Almas e que a Filosofia deixe de ser, apenas, uma disciplina ensinável, para voltar a constituir-se como um engrandecimento do Espírito e uma razão de Vida.
Movendo-nos no seio dos múltiplos desafios colocados nas últimas três décadas do passado milénio e na crista dos tempos de hoje – de imperativa mudança e inovação educacional – urge caminharmos para uma Educação aberta, para além dos absurdos legislativos que, diariamente, assombram o espírito dos ditos mentores e profissionais da Educação, apenas determinados pelo suposto rigor estatístico de um sucesso escolar fantasiado, quer no que concerne aos conteúdos programáticos, objectivos e métodos, quer no que diz respeito à diversificação dos agentes e práticas das educativas. Devemos pensar a Educação para além dos freios políticos e demagógicos que, sobre ela, nada ditam de acertado.

Urge a consciencialização crescente e insistente de que a Educação – tomada no seu sentido mais amplo, quer dizer, enquanto formação global do Homem, como diria Kant – não deve ser pautada pelo volte-face político inconstante, não se deve restringir à estreita concepção de escolaridade, nem, tão pouco, confundir-se com a mera instrução.

Estas distinções conceptuais tornam-se absolutamente necessárias para erguer os fundamentos de uma reflexão adequada sobre a Educação Filosófica e, por extensão, sobre a Didáctica da Filosofia, naturalmente singular, em virtude da especificidade desta área do saber, jamais redutível ao conceito de “Disciplina”, tal como vulgarmente o entendemos quando nos referimos, por exemplo, à História, à Geografia ou à Matemática.
Não obstante a questão filosoficamente controversa da existência ou não de uma Didáctica específica da Filosofia – alvo de um intenso e polémico debate entre os defensores da sua legitimidade e urgência, e aqueles que perspectivam, de um modo assaz suspeito, a aproximação desta, bem como do seu ensino, às denominadas Ciências da Educação – friso, desde já e sem qualquer espécie de reservas, que a Filosofia é, em si mesma, uma Pedagogia e uma Didáctica e, enquanto tal, o alicerce estrutural das mais variadíssimas formas que envolvem o processo de ensino-aprendizagem, quer nos situemos no domínio das “ciências naturais”, quer no âmbito das “ciências humanas”.
Aprendemos com os antigos gregos – até hoje esta tese ainda não foi refutada – que a Filosofia integra os princípios orientadores do seu peculiar exercício comunicativo, os mais sólidos alicerces das suas estratégias de ensinabilidade, assim como as estratégias adequadas para a gestão equilibrada do respectivo processo de ensino-aprendizagem, sejam quais forem os conteúdos que a compõem – tão vastos quanto ela própria – onde comungam, directa ou indirectamente, todas a as ciências que dela nasceram, ontem, hoje e sempre, em sangue e alma. Aliás, o Mundo desenvolver-se-ia progressivamente se as mais variadas “escolas” filosóficas agissem como um fermento, fossem a guarda da pura Ideia e da acção que lhe corresponde, dessem um exemplo de ascetismo, de tenacidade na calma e do eleger do virtuosismo, despertando a actividade pensante às jovens mentes em formação, no ataque a todas as atitudes e doutrinas, catecismos, que significassem a diminuição e, em muitos casos, o aniquilamento do Espírito-Crítico.

Se atentarmos nas sábias palavras do Mestre Agostinho da Silva – também ele Filósofo e filosofante – facilmente compreendemos qual é o caminho da “Vida Filosófica”, qual o trilho do Professor de Filosofia e de todos os outros que concebem a Arte de bem ensinar como uma das mais nobres missões, apenas entendível e praticável pelos Professores-Mestres (há professores que Mestres não o são). Por extensão, prontamente entendemos que a Educação Filosófica é a base estrutural de todos os processos educativos, ao indicar o rumo ascensional da Vida, não deixando jamais que se quebre o ténue fio que, através de todos os labirintos, a Humanidade tem seguido na sua marcha para Deus.

Não tomamos a Filosofia, nem a Educação Filosófica, como uma vagabundagem das almas em estado de ócio (mesmo que este seja imperativo para se fazer Filosofia, para se reflectir e criar um sistema filosófico), como um mero entretenimento literário das mentes vagantes, ou como um modo de especulação esquizofrénica, completamente afastado disso a que se chama Realidade. Muito menos, como um puro subjectivismo de cérebros autistas enredadas em mundos virtuais que nada nos dizem sobre a Vida, o Homem, a Natureza e o Universo.
É preciso registar, veementemente, que a Filosofia não cheira a mofo; que a Filosofia não está encafuada num baú apinhado de teias de aranha e de bolas de naftalina, num canto qualquer do empoeirado sótão dos nossos avôs, onde permanecem, lançados, os objectos em desuso.
A Filosofia não é, unicamente, uma das Belas-Artes encantatórias perante os olhos ávidos de Saber, os ouvidos sedentos de um discurso bem elaborado, sonante, que paira nos domínios da Meta-física (no sentido de abstracção conceptual, pois nada comporta de abstracto). A Filosofia é a Vida em todas as suas dimensões, des-veladas e ocultas; é e está em cada um de nós, seres racionais (por mais que este termo possa ser polémico), sempre que pensamos, ajuizamos, reflectimos ou dissertamos com Espírito Crítico, com esse prazer particular do discernimento das causas, dos princípios que, por detrás dos fenómenos se escondem, seja qual for a sua estirpe ou natureza.

A Filosofia é uma forma peculiar de ver o Mundo e os mundos – os nossos mundos interiores concretamente determinados; um meio umbilical de questionar o Existente (também o sonho ou a ficção), colocando-o em dúvida, à prova, sempre com o intuito de chegar à Origem, às essências, à raiz das coisas-mesmas, na sua singeleza primordial, pelas quais passamos diariamente sem nos apercebermos do seu ser e da sua identidade, do modo como existem e são, para além das apa

rências, das máscaras, dos véus, dos pré-conceitos ludibriadores das mentes menos atentas, emaranhadas nesse frenesi quotidiano que esconde a Verdade e a Realidade (ou as verdades e as Realidades).

Se a Filosofia e, por conseguinte, a Educação Filosófica, é o “motor-móvel” da problematização do óbvio e do meramente pressuposto ou passível de vulgar constatação, também é, sobretudo e em plena simultaneidade, o agente activante de um conjunto de respostas exequíveis, de soluções viáveis para a resolução dos múltiplos problemas existenciais vivenciados pela Humanidade, na maioria das vezes, de uma forma alheada e alienada. A Filosofia, cada filosofia, é, tão-só, uma resposta logicamente organizada, a qual parte do homem para servir o Homem- assim nos mostra a sua História até hoje.
Afigura-se-nos, portanto e de um modo indubitável, a necessidade de conferir ao Ensino da Filosofia a Didáctica de que ela por si mesma requer, a qual deverá ser edificada a partir do seu próprio interior: a melhor formação para um Professor de Filosofia é, irredutivelmente, uma sólida formação filosófica. Isto não significa afirmar a absoluta diferenciação disciplinar da Filosofia, nem tão-só a sua tecnicidade. Esta tese indica-nos que a formação dos filósofos e dos ensinantes de Filosofia deve entender-se como a formação de profissionais legítimos, em oposição a qualquer tipo de amadorismo pautado pelas “sebentas” ou pelos “catecismos”, naturalmente repugnantes.
A Filosofia afirmou-se ontem, afirma-se hoje e afirmar-se-á para sempre, mesmo por entre aqueles que a negam, ou que simplesmente a desprezam como “cousa pouca”. Por consequência directa, a Educação Filosófica entra, amiúde, nos domínios do necessário, porque os Filósofos – esses eternos amantes da Sabedoria sem discriminação, esses eternos pensadores-investigadores de todos os domínios – jamais ignoram como os Homens são feitos, embora sejam mais “ligeiros do que os anjos”, escutando e observando o interior de todas as coisas, porque experimentam caminhar por entre os outros mortais bi-céfalos, esses de mentes tão errantes quanto as das aves migratórias, sem pouso certo, sem lugar propriamente determinado neste Mundo em irremediável con-fusão. De facto, e como afirma Descartes: “Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir.”»

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