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GUINÉ-BISSAU: A MINHA DECLARAÇÃO DE INTERESSES

Inicio hoje a minha colaboração na BIRD Magazine com uma prévia mas importante declaração de interesses: sou uma apaixonada pela Guiné-Bissau. Explicará isto o facto doravante passar a partilhar convosco numa base quinzenal alguns segredos da riquíssima cultura e da vasta história daquele pequeno país situado na África Ocidental.
Mas conto-vos num primeiro momento como tudo começou.
JOANA BENZINHO
Conheci a Guiné-Bissau em Agosto de 2008 numa viagem que teve tudo para não deixar rasto nem boas memórias. Em plena época de aguaceiros aterrei no meio de uma praga de gafanhotos, já noite alta, no aeroporto Osvaldo Correia em Bissau, onde fui recebida por uma humidade altíssima e asfixiante. Encontrei um país sem luz pública, sem água corrente ou sem rede de esgotos, com estradas recheadas de buracos que nos lembravam ter existido ali em tempos algum e regos de água a correr furiosamente por tudo o que poderia ser um caminho, e apanhei imediatamente à chegada uma molha que me limpou a alma e me preparou para uma nova realidade.
No período de chuvas deste ano de 2008, que vai de Maio a Outubro (antes de se começar a falar das alterações climáticas, dizia-se que as primeiras águas caiam no dia 15 de maio, mas agora tudo mudou), foram reportados mais de 7000 casos de cólera e registaram-se mais de 150 mortes. A vida mostrava-se mais uma vez madrasta para este povo bom e tão penalizado pela história. E eu ali, involuntariamente, a viver de perto e a partilhar o drama e o medo da epidemia alastrar ainda mais neste país que conta com aproximadamente 1,7 milhões de habitantes.
Nas duas semanas que ali estive, encontrava invariavelmente grupos de crianças com um tabuleiro na cabeça cheio de bananas ou mancarra (amendoim) que assim que me viam, corriam atrás de mim tentando vender o que carregavam. Depois de vários dias de insistência e de outras tantas escusas da minha parte, lá parei a conversar com um deles que me disse necessitar de vender aquelas bananas pois o dia seguinte era o limite para se poder matricular na escola e os pais não tinham dinheiro para o fazer. O montante era insignificativo e propus oferecer-lhe o valor da matricula para o sossegar e assim poder voltar para casa, poupando-se à chuva. Respondeu com um ar preocupado, um pouco indignado até, que não poderia aceitar pois o pai ia castigá-lo se chegasse com as bananas e o dinheiro.

E foi ali que se deu a epifania que viria a moldar os meus dias. Fiquei com um cacho de bananas e ele com o acesso à educação. Esta criança, que não teria mais de 8 anos, deixou-me naquele dia o ensinamento que a dignidade e a vontade de lutar por ter futuro não têm idade, cor, credo, localização geográfica demarcada, limitações de caracter e muito menos classe social. 

Depois deste episódio procurei inteirar-me junto de alguns conhecimentos locais acerca das graves carências do sector da educação na Guiné-Bissau, com a iliteracia a apresentar números altíssimos, com escolas sem quaisquer condições, professores com salários em atraso que recorriam semanas e meses consecutivos a greves para pressionar os governantes levando assim à consequente anulação do ano lectivo por falta de tempo de aulas mínimo, professores sem formação adequada e alunos sem livros, uns e outros a não dominarem a língua oficial do país, o português, por utilização maciça do crioulo, enfim, entrei na realidade de um sector que roubava o futuro às mulheres e aos homens de amanhã.
Regressei destas férias na Guiné-Bissau incomodada e inconformada com a falta de perspectivas dos mais jovens mas, acima de tudo, impressionada com a sua vontade de inverter o curso da história que os grandes lhes queriam impor com crises políticas, guerras, golpes de estado, querelas político-militares que todos os dias lhes tentavam cercear os sonhos. Decidi sair da minha zona de conforto, fazer algo por eles e com eles e, assim nasceu em 2009, a Associação Afectos com Letras. Uma ONG gerida e dinamizada por um grupo de amigos das mais variadas profissões e espalhado um pouco por todo o lado que consagram os seus tempos livres a tentar melhorar a vida das crianças guineenses, proporcionando-lhes o acesso a uma escola com professores assíduos e com salários em dia, à educação em português, a uma refeição diária e a cuidados de saúde básicos. Passados que estão 7 anos, mais de 500 crianças estudam em escolas cofinanciadas pela Afectos com Letras, criámos uma biblioteca pública com 12 000 livros na capital, Bissau, colocámos duas descascadoras de arroz ao serviço de cerca de 1000 pessoas de duas aldeias do país (o que liberta as meninas de um processo demorado e penoso de descasca manual do arroz, podendo agora ir à escola), asseguramos o apoio em géneros a orfanatos e a hospitais do país, tendo garantido o fornecimento de 8 toneladas de antibióticos para prescrição e uso gratuito com os doentes mais carenciados e, mais recentemente, publicámos um Guia Turístico “À descoberta da Guiné-Bissau”, financiado pela União Europeia e realizado numa parceria com o Ministério do Turismo da Guiné-Bissau.
A Guiné-Bissau tornou-se assim um caso de amor. Mas também de respeito e de profunda admiração pelas suas gentes que apesar das dificuldades nos acolhem com uma dignidade, uma simpatia e uma humildade desarmantes.
Feita esta declaração de interesses, espero poder contribuir a partir de hoje neste espaço para a divulgação da riqueza cultural, social, histórica e geográfica da Guiné-Bissau, composta por um amplo mosaico de cerca de 30 etnias, diferentes culturas, dialectos, de uma fauna e de uma flora fartas e dona de geografia que esconde um arquipélago de 90 ilhas reconhecido em 1993 pela UNESCO como Reserva da Biosfera e que continuam quase desconhecidas do resto do mundo. Porque a Guiné-Bissau é muito, mas muito mais que as exaltações politicas e militares que a comunicação social internacional partilha connosco. A Guiné-Bissau é um paraíso habitado por gente muito boa, perdido entre rios e o Atlântico, à espera de ser descoberto.

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