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PORQUE A IDADE NÃO É UMA DOENÇA

DANIELA MOREIRA 
A expressão “a idade não é uma doença” é sobejamente conhecida por todos, podendo aplicar-se também em Medicina Veterinária. Efectivamente, não é pelo facto de um cão ou gato ter atingido uma determinada idade que devemos generalizar, tomando decisões médicas baseadas unicamente nesse número.
O termo geriatria diz respeito ao estudo, prevenção e tratamento das doenças associadas ao envelhecimento. Tal como se verifica nos seres humanos, também os animais de companhia têm, actualmente, uma esperança média de vida bastante mais alargada do que a que se verificava há algumas décadas. Tal deve-se, fundamentalmente, aos avanços na medicina veterinária e tecnologia, mas também (e de igual importância) à cada vez maior consciencialização e responsabilidade, por parte dos proprietários, no que diz respeito à promoção de melhores cuidados preventivos de saúde aos seus companheiros de quatro patas.

Considera-se que um cão ou gato é geriátrico, ou sénior, a partir dos sete anos de idade, de uma forma geral. Esta idade serve apenas de orientação, porque sabemos que o ritmo de envelhecimento difere bastante consoante a espécie e a raça do indivíduo; por exemplo, os gatos e os cães de raça pequena tendem a ter uma longevidade bastante maior do que os cães de raça grande / gigante. 

Uma das consequências deste aumento de longevidade é o facto de os animais ficarem, naturalmente, sujeitos ao aparecimento de uma série de patologias decorrentes do avançar da idade. Nos últimos anos, a investigação direccionada para o desenvolvimento dos problemas associados ao envelhecimento sofreu um aumento. Da mesma forma, também os proprietários e os médicos veterinários estão mais sensibilizados para a necessidade de lidar com estes “pacientes” especiais.
Os animais seniores podem desenvolver uma grande variedade de problemas, à semelhança do que se verifica na população idosa: patologias cardíacas, insuficiência renal, doença hepática, diabetes, problemas articulares / ósseos, fraqueza muscular, perda de visão e/ou audição, disfunção cognitiva (senilidade), entre outros.

O aconselhamento médico veterinário é fundamental para os proprietários de cães ou gatos que já atingiram a idade em que são considerados seniores, de modo a controlar ou retardar ao máximo o aparecimento dos sinais considerados típicos da idade. 

Os animais seniores requerem uma maior atenção, incluindo visitas mais frequentes ao médico veterinário, possíveis alterações na dieta e, em alguns casos, alterações no meio ambiente familiar.
Recomenda-se, por isso, uma avaliação médico-veterinária de rotina duas vezes por ano (e não apenas a tradicional consulta anual), de modo a detectar sinais precoces de doença ou outros problemas que possam ser atempadamente tratados. O exame físico geral será semelhante ao que se realiza em animais mais jovens. No entanto, alguns parâmetros revestem-se de maior importância, nomeadamente, o exame da cavidade oral, a auscultação cardiopulmonar, a medição da pressão arterial e glucose, a realização de análises sanguíneas gerais e, se necessário, exames complementares de diagnóstico, caso sejam detectados sinais específicos de doença que requeiram mais investigação.
O aconselhamento nutricional é importante durante toda a vida do animal, mas adquire uma particular relevância nos estadios mais avançados da vida. Os animais seniores, frequentemente, necessitam de um alimento específico, de maior digestibilidade, com nutrientes essenciais que combatam o envelhecimento e que tenham um aporte calórico adequado ao seu estado físico. Desta forma, conseguimos também controlar o aumento de peso corporal que, em animais mais velhos, torna-se ainda mais prejudicial, aumentando o risco de agravamento de problemas cardíacos e osteoarticulares, entre outros. Por outro lado, a caquéxia ou atrofia muscular é também bastante frequente, particularmente em gatos, pelo que a nutrição é um dos factores-chave para a manutenção de uma vida saudável
O processo de envelhecimento contribui também para um enfraquecimento do sistema imunitário, que passa a responder de um modo mais lento e menos eficaz em caso de doença. Deste modo, é fundamental manter um plano preventivo de desparasitação, interna e externa, adequado e personalizado consoante as necessidades do animal. O mesmo se aplica ao plano vacinal, que poderá sofrer alterações consoante o estadio de vida do cão ou gato.
Por outro lado, tal como se verifica na população idosa em geral, também nos animais a promoção da mobilidade e exercício físico apropriado é de extrema importância. Este deverá ser ajustado às condições físicas que o animal apresenta.

Em determinados casos, poderá ser importante proceder a determinadas alterações no meio ambiente do animal e no seu estilo de vida. Esta necessidade verifica-se, por exemplo, em animais com perda de visão e/ou audição ou com problemas de locomoção.

Um dos aspectos mais importantes, frequentemente subvalorizado, decorrente do processo de envelhecimento, é o aparecimento de sinais de degeneração do estado mental (disfunção cognitiva).

Muitas vezes, as alterações comportamentais manifestam-se antes que se tenham detectado variações significativas nos parâmetros clínicos, sendo, portanto, um indicador bastante precoce de um problema no animal sénior, com origem médica ou outra.

Estes sinais, muitas vezes subtis, são mais facilmente identificáveis pelos proprietários, que conhecem e interagem diariamente com o seu animal e conhecem os seus comportamentos e rotinas. Algumas das alterações que se poderão observar são, por exemplo: a presença de uma reacção exagerada aos sons; vocalização excessiva; confusão ou desorientação; diminuição da interacção com as pessoas com quem convive; fraca resposta a ordens que anteriormente conhecia (fica, deita, etc.); aumento do estado de ansiedade; agressividade; diminuição dos actos de higiene (particular

mente nos gatos); alterações nos ciclos de sono; actividades repetitivas, etc.

A disfunção cognitiva ocorre em cães e engloba todas ou algumas destas alterações comportamentais; trata-se de uma doença que tem algumas semelhanças com o que ocorre na doença de Alzheimer nos humanos. Após uma avaliação médica, há terapia medicamentosa que se pode instituir, a par de uma nutrição adequada, e que permite controlar ou retardar o aparecimento de ditos sinais.

O facto de o animal estar mais velho não significa que devamos esquecer a sua estimulação mental. Os animais podem, e devem, ser continuamente estimulados, com diferentes tipos de interacção, de modo a mantê-los mentalmente activos. Se notar que o seu animal tem alterações a nível de comportamento, não atribua tal facto à idade, e consulte o seu médico veterinário.
O avançar da idade não é, de todo, um sinónimo de doença. Os animais geriátricos necessitam, apenas, de alguns cuidados particulares, de modo a que possamos actuar de forma preventiva para a ocorrência de determinados problemas de saúde, adequando-nos sempre às necessidades especiais que requerem. O objectivo será proporcionar-lhes os melhores cuidados de nutrição e saúde para que possam viver (ainda!) mais e, sobretudo, com a melhor qualidade de vida possível.

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