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AS MINHAS REVOLUÇÕES

REGINA SARDOEIRA
Duas canções – senha foram o sinal de que alguma coisa mudara em Portugal. Foi há 42 anos.
A minha memória desse dia é fragmentária. Mas fui uma, entre muitos, que viu abrir-se, num surto inesperado, um mundo novo, de todo ignorado e nunca suspeitado. 
Lembro-me que estava um dia de sol – aproximadamente como hoje – e, na mercearia da rua onde vivia, falava-se em “golpe de estado”. 
Fui para a escola como nos outras dias – era quinta-feira – e, passado muito pouco tempo, a direcção entendeu que os acontecimentos exigiam que alunos e professores fossem para casa. A escola fechou.
Naquele época, as notícias corriam de um modo lento e, sujeitas à censura até aquele momento, demorou algum tempo até que as pessoas absorvessem o que havia acontecido. 
Eu vi, de repente, um mundo novo a abrir-se à minha frente. O impensável, não porque algum indício mo fizesse supor, mas porque nenhum sinal me havia sido dado antes, nasceu em cada lugar, espalhou-se pelas ruas, encheu de cor as paredes e de gente as ruas e praças. Bruscamente, todos tinham um pedido, um desejo, uma reclamação a fazer; e, extraordinariamente, todos achavam que chegara, por fim, o tempo de os obterem. 
Durante algum tempo, não passei de observadora entusiasta do que estava a passar-se. Precisei de investigar, de ouvir, de ler muito, para perceber o tempo em que vivera até aí e que posição tomar daí em diante.
É curioso pensar, hoje, que vivera os meus primeiros anos numa espécie de sub-ditadura fascista, que, a meu modo, lutara contra alguns sinais dela, vivamente presentes na minha educação, sem nunca ter ouvido pronunciar a palavra “ditadura” ou a palavra “fascismo” .
Como se de uma explosão se tratasse, abriram-se, perante os meus olhos, duas realidades – a de antes, em que vivera oprimida, sem saber a que ponto essa opressão era a marca de todo o sistema, e a nova, em que um mundo ignoto se abria, abrindo-me novos desafios.
De facto, desde os dez anos de idade que eu levava a minha existência num instituto do estado, bem fechada, sem qualquer direito ou liberdade, sujeita a um regulamento desmesurado, em disciplina e restrições, rodeada por pessoas iguais a mim e por outras, maiores de idade, que nos vigiavam até limites, hoje incompreensíveis. Vivia ali e revoltava-me, sentia que a vida teria que ser algo de muito diferente daquilo que me me era oferecido, entre aquelas quatro paredes. Muito mais tarde, depois de perceber que vivi numa ditadura dentro da ditadura, que o ar de fora, parecendo mais puro, tinha todos os miasmas da atmosfera da minha clausura, o 25 de Abril revelou – me dois importantes segredos.
O primeiro, e mais imediato, foi perceber que se levantavam, para todos, novos sóis e se desdobravam novos horizontes. O segundo, tardio, foi a consciência de que, muito antes do 25 de Abril de 74, eu dera voz e corpo à minha revolução.
Passei quase sete anos naquela casa-cárcere, todos os dias escrutinada, reprimida até aos mais ínfimos pormenores quotidianos. Durante esse tempo, obrigaram-me a vestir de azul-escuro, a usar os cabelos curtos ou apanhados, a caminhar pelas ruas em formatura, de três a três. Liam a minha correspondência – a que escrevia e a que me era destinada – vasculhavam os meus armários – aliás, sempre abertos e identificados com o meu número – obrigavam-me a rezar o terço todos os dias e a estudar horas a fio sem qualquer hipótese de intervalo. E havia os castigos, se acaso o regulamento fosse beliscado – e era comer de pé, ficar sem recreio (se o havia), ir para o canto da sala, etc. 
Fui a porta-voz de um estandarte de rebelião, a inspiradora de outras rebeliões, fiquei à margem de todas aquelas que, sincera ou hipocritamente, se deixavam reprimir.
Não tive poder para eliminar o Instituto, nem para reformular as suas leis internas – espelho do estado que lhe dava o ser – mas fui educadamente “convidada a sair” – um eufemismo para expulsão – com o argumento de que eu era muito inteligente e criativa mas não me adaptava ao regulamento, sendo que os meus actos influenciavam as outras prisioneiras.
Portanto, com dez, onze, doze…e até aos dezasseis anos, apercebi-me da ditadura extrema do regime do meu colégio e fiz a revolução. Que admira que alguns anos depois tenha ficado deslumbrada com os novos tempos que Abril anunciava? Que admira, pois, que a minha cor eleita, na política, tenha sido sempre o vibrante vermelho?
Por isso, celebro o 25 de Abril, deste lado da barricada. Pois eu sei, hoje, que a democracia abriu largos portões, para todos, há 42 anos, mas que este mesmo sistema se foi desfigurando, criando outras elites, subjugando muitas minorias ( tornadas, aos poucos, maioria) e portanto, esses portões escancarados foram cerrando lentamente o tamanho da sua abertura. 
Com dez anos, percebi o sentido da minha luta e tornei-me sagaz; hoje sou muito experiente, já que consegui associar as duas vivências. 
Sendo assim, vejo à saciedade que o mundo em que vivemos se dividiu em múltiplas hostes, em guerra, esquecendo-se, por oportunismo, que “o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos” e ainda que “a cada um (deve ser dado) segundo as suas capacidades, a todos, segundo as suas necessidades”. Estou a citar Karl Marx.

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