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ENTRE "SI" E O VAZIO DE "SI" – A POÉTICA DE ORIANA MELO

RUA ANTIGA
Há dias comemorados e dias malfadados.
Trago-os num talego amordaçados, que não mos deixe escapar para ir a lado nenhum.
Que mos engorde, luzidios,
a intumescer calendários.
Calham-me sempre aziagos na deriva dos anseios,
não lhes leio senão escusados cansaços, esquinas, proeminências escusas.
Das lições ensinadas em dias de fome aprendida
fica a cartilha entrevada de tanta pressão exaurida…
Da intempérie dorida,
arremessada à má fé aos caprichos escondidos,
também não sobram desterros que devam, um dia, ser lidos.
© oriana melo in TURFA (obra a publicar)
*************
ALVARO GIESTA
De um projecto de obra que em Maio de 2015 me chegou às mãos num estado ainda embrionário mas que, da leitura atenta e imparcial que então fiz de alguns poemas, me dizia ser prometedor, escrevi uma quase recensão – e digo “quase” porque me baseei, não na obra que não existia nem ainda existe, mas naquilo que prometia ser – na revista literária impressa que então dirigia: “A Chama”. E recordo que tal decisão minha causou certo desconforto entre alguns dos meus pares que assinavam a dita revista, que de viva voz o manifestaram, porque deles nunca escrevera algo em tais moldes; tal deve-se ao facto de nunca me sentir motivado pela poesia que tais escreviam. E de Oriana Melo o fiz mesmo não sendo assinante da revista e mal a conhecendo, e apenas pelo que certa rede social me permitia.
De Oriana Melo, de quem então escrevi e ora escrevo, me fui apercebendo, dia após dia, daquilo que ela me dava a conhecer, da poeta prolífica que é. Nada, na escrita de O.M. (poesia e prosa poética) é inútil, apesar de nos mostrar um mundo tecido de imagens fragmentadas num quotidiano opaco e interrompido por vazios inquietantes e desassossegados de alma feminina. Tem uma poética sedimentada mas rica imageticamente. Como “rocha sedimentar, combustível (que ateia quem a lê), rica de restos vegetais” deu à futura obra o nome de TURFA. Foi num punhado de textos, poesia uns e prosa outros – mas todos eles carregados do sabor poético que a boa poesia tem – que a autora me fez chegar às mãos para que lhos lesse e sobre eles tecer opinião, recomendando «se entendesse que valia a pena sobre eles debruçar-me», que eu conheci em profundidade Oriana Melo que, até aí e muito para depois daí, apenas conhecia virtualmente.
Ofereceu-me à leitura textos em fermentação; vi neles o puro líquido que a TURFA faz nascer da ebulição: poemas decantados sem medo de dizer de si abrindo-se ao leitor em arrojados versos seus – como a autora diz, abrindo «as comportas de quem sou». Do que conheço da escrita da autora – e já conheço bastante! – são poemas que fogem à luminosidade do obvio, que evita, e muito bem, mas construídos com técnica e saber, embriagados «de alegria e esperança». Expectantes por “devorarem” a TURFA que já tanto tarda, como a sua autora «ao raiar (de cada) aurora», estarão de certeza os leitores que a têm vindo a seguir nas publicações que faz na rede social Facebook.
A poeta é ousada, sem timidez na escrita que desenvolve desassombradamente – porque é de si que diz – e sem subterfúgios. «Todos os sonhos» e inquietações lhe vêm parar às mãos, quando escreve, e os passa ao papel sem timidez nem complexos. Arrojada e destemida na forma como enfrenta, na sua escrita, os julgamentos que o público-leitor lhe possa fazer: «decidi mudar de reputação» e «comecei do zero», «nu (…) esse novo retrato de mim flutuará» até tudo «estar na devida ordem e lugar». A esperança no futuro intimamente ligado ao presente torna-se evidente na força verbal que usa «decidi mudar (…) começarei do zero fazendo de hoje o dia primeiro». Nada na escrita dela é insípido; intrépida e desassombrada esta autora quando fala e escreve de si – até quando confidencia a quem com ela priva: «dá-me tempo para me limpar e só depois serei…».
A presença real e melancólica em seus temas onde nada neles é permeável ao obvio, pois quase sempre requerem que o objecto se torne não nomeável, “são vazios desassossegados que vêm em busca de respostas que, enquanto reflexão, deixam adivinhar um peito carente de afecto e verdade.” (o destaque entre comas serve apenas para sublinhar o que o autor deste texto conhece da poeta).
Foi na inquietude que me causou a leitura de seus textos que eu me decidi pedir-lhe permissão para, nesta crónica, transcrever o seu último poema e sobre ele escrever, depois de o reflectir. Chama-se:
LIMONADA
«faço-te a cada claridade mais de mim.
«faço-te a suor gostado rebolando abraçado aos cheiros ambivalentes dos nados vivos.
«construo pontes armadas em eternas entre margens que deambulam indecisas, tal e qual a vida voadora.
«faço-te como se ainda fosses.
«cerzideira agora, de miopia esforçada pescando-te fio a fio na textura arrevesada da tua toca, sou eu esta.
«e tu não moras, demorando muito.
«pés de beijos plantados rente sobre a relva fresca de ti toda e eu vinda não sei de onde a um destino assim. uma corcunda permanente no lugar que era atlético de tanto nele borbulharem o riso e a mansidão das carícias, e um fedor a fracasso prececendo-me. eu, esta, lavada a sabão azul de céus anteriores ao martírio, enxaguada nas águas não límpidas dos desejos liquefeitos, oferecida a quem dá menos.
«é decidir, é decidir!
«quem não quiser em maior empenhamento há-de levar-me. co

mpra tão mais que em conta, resignada, emoldurada a espinhas de arrogante progressão por túneis irrespiráveis.

«nunca antes tão ácida me inventei.
(o.m.) autora
E dele assim escrevi, na convicção de que o soube interpretar; pelo menos o fiz à minha maneira, o que não quer dizer que seja este o pensamento poético que moveu a autora a escrevê-lo – pela certa não será mas, quando o autor torna público o seu texto, ao leitor pertence e a ele o direito a especular.
[ “LIMONADA” – entre o doce e o amargo onde paira alguma acidez à mistura (forte acidez, direi mesmo, a própria autora o admite no final do texto «nunca antes tão ácida me inventei»), construído numa linguagem que foge ao obvio dando-nos um sentimento de VAZIO que se deixa adivinhar em peito CARENTE, é um poema de DOR, DESILUSÃO, DESESPERANÇA e ESPERANÇA ao mesmo tempo.
A ansiedade na voz das palavras recordando o ANTES, transportando-o para o HOJE (agora) e projectando-o no FUTURO: futuro que não augura muito risonho.
Persiste sempre a dúvida sobre quem é o OBJECTO POÉTICO (se alguém no feminino ou no masculino – NO PRESENTE E DO PRESENTE ou se NO PRESENTE E DO PASSADO) porque a autora torna-o não nomeável: «faço-te cada claridade mais de mim», «faço-te como se ainda fosses» – como se fosse espera ansiada e ansiosa, NO PRESENTE E DO PASSADO;
«cerzideira agora, (…) pescando-te fio a fio na textura arrevesada da tua boca, sou esta»: como se a lembrar no HOJE diferente do ONTEM mas dando-lhe continuidade (vb. no gerúndio);
«sou esta», «…e tu não moras, demorando muito», existe a falta e a espera e a ânsia de chegada > alguém que foi e é, mas ausente, ou alguém que deseja que seja (e é no presente) mas um presente ausente.
A autora, como se automutilando-se neste destino incerto por ter sido culpada de algo, nesta metalinguística tão bem urdida: «vinda não sei de onde a um destino assim» porque entre «o riso e a mansidão das carícias» há «um fedor a fracasso» que a antecede. Serão as lembranças dum passado ou o desassossego e (quase) desesperança de um destino (agora) e de um futuro incerto?
Há ainda o ancorajamento ao próprio “eu poético” e que funciona como um desafio ao OUTRO/A: «é decidir, é decidir!”, para logo, numa “de desistência” quase (se) oferecendo em corpo sacrificado a «quem não quiser em maior empenhamento há-de levar-me. compra tão mais que em conta» simulando, contudo, uma força interior, que parece não existir (ou não existirá mesmo? será apenas carapaça de frágil protecção?), pois se oferece «emoldurada a espinhos de arrogante», ainda que no fundo de si haja uma réstia de esperança pois se acha valia: «quem não quiser em maior empenhamento há-de levar-me».
E encerra o texto – e eu como comecei esta longa análise dum poema só – com o desânimo e a amargaura (ácida) na voz: «nunca antes tão ácida me inventei».
Explorar este poema, e os demais de Oriana Melo, é para mim um desafio e um risco ao mesmo tempo a que não pretendo tão breve pôr termo; desafio, porque aprendo com a sua escrita; risco, porque não sei até que ponto a autora vê e com que olhos vê esta minha exploração – e invasão – na sua escrita. Só o faço porque entendo que, depois do autor publicar o texto, dando-a a conhecer, ao leitor pertence. Como soe dizer-se, os textos de Oriana Melo têm pano para mangas e o risco de dizer deles é grande porque cada um dos textos, por si só, não são suficientes para dizer da obra, muito menos do sujeito poético. Necessitava conhecer-se a obra no seu todo pela qual se anseia. ]

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