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OS FILÓSOFOS E A FECHADURA

O que é um filósofo? Eis a reflexão que me proponho hoje, aqui e agora, depois de ter reflectido sobre a minha condição de humana. 
REGINA SARDOEIRA
Para sobreviver sou professora de Filosofia; mas a minha produtividade não se esgota nessa tarefa. No tempo que me resta, escrevo, mas os livros que publiquei e os que tenho para publicação (menos ainda!) não contribuem praticamente nada para a minha sobrevivência – ou seja, ganho muito pouco com a venda dos livros. Tudo aquilo que escrevo, seja poesia, romance, ensaio, teatro (…) traz a marca da reflexão filosófica, nunca escrevo textos planos, óbvios, lineares, a profundidade analítica perpassa neles espontaneamente porque o exercício do pensamento é a minha tarefa essencial. Assim sendo, como hei-de definir-me em termos de ocupação?
Há tempos disseram-me que, enunciar-me como «Filósofa» é uma provocação, é uma brincadeira, portanto: não há filósofos/as, não saímos das Faculdades de Filosofia com esse título, do mesmo modo que o Médico ou o Advogado ou o Psicólogo. Saímos «Licenciados em Filosofia» e o que nos espera, profissionalmente falando, é uma sala de aula, com adolescentes ou jovens adultos à frente, consoante nos detemos pelo ensino secundário ou avançamos um pouco até ao ensino universitário. Ser licenciado em Filosofia ou Mestre em Filosofia ou Doutor em Filosofia não é, por isso, o equivalente a ser licenciado em Medicina, ou Mestre em Psicologia ou Doutor em Direito: a esses é dado com facilidade o título de Médico, Psicólogo ou Juíz; no nosso caso, dizer « Sou Filósofa» ou «Sou Filósofo» não passa de uma piada!
Não concordo com esta situação, ainda que, convenhamos, não exista ainda a profissão de Filósofo/a reconhecida e, acima de tudo, entendida pelas pessoas que, provavelmente, achariam extravagante encontrar, a par dos consultórios de Medicina ou de Psicologia, um consultório de…Filosofia! Para a maioria, os filósofos são gente estranha, e a Filosofia um enigma dispensável, pelo que um consultório de Filosofia com um filósofo/a à frente não teria muitas oportunidades de sucesso.
É claro que estas possíveis reacções perante um consultório de Filosofia advêm de uma ignorância: o vulgo não sabe para que serve, de facto, a Filosofia, ignora a sua vertente prática, não reconhecendo, por isso, valor ou credibilidade a quem se intitula Filósofo/a. O vulgo não consegue ver para além da palavra, enigmática, só por si, e dos boatos que correm por aí a respeito do fraseado difícil, confuso e inútil dos filósofos.
Apesar de, por enquanto, a Filosofia continuar a ser uma matéria obrigatória para os alunos do ensino secundário, acredito que a esmagadora maioria deles sai das escolas sem ter sentido a vibração da Filosofia, esta que eu propugno e que pratico: no dia a dia, na sala de aula, no mais íntimo de mim e (quem sabe?) pode ser que um dia tenha arrojo suficiente para abrir um consultório de…Filosofia! Quem me consultar verá então o que significa de facto ser filósofo/a e intitular-se como tal! (Isto não é uma piada!).
Nós, esses tais, cuja designação tanto incomoda como causa gáudio, sabemos ler sem livros, ou de olhos fechados ou às escuras e, dessa leitura, que aos outros escapa, retiramos ensinamentos para nós, para vós, para todos, enfim. Tempos houve em que o filósofo escrevia, as editoras publicavam, as livrarias vendiam. E então, nós, que tínhamos palavras a dizer, nada mais fazíamos a não ser escrever e dar o produto final aos técnicos que o transformavam em livro. Dar, exactamente, dar, porque o autor escassamente recebe, quando lhe pagam os direitos. Mas o sistema inverteu-se de tal modo que só publica assim quem tem o nome garantido e os outros – sejam ou não escritores de facto- têm que pagar a uma dessas empresas editoriais prestadoras de serviços e a seguir precisam de angariar leitores, tornando-se comerciantes. 
Falo de filósofos ou de escritores ou de coisa nenhuma: e limito-me a espreitar pela fechadura.

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