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A IGREJA, O ENSINO PRIVADO E O DINHEIRO PÚBLICO

GABRIEL VILAS BOAS
A Igreja esteve, está e estará ligada ao ensino. Provavelmente é a instituição que mais contribui para a evolução do ensino, não só em Portugal como um pouco por todo o mundo. Milhões de pessoas devem a sua instrução e a sua evolução cultural e profissional a escolas católicas.
Aquilo que a Igreja fez pelo ensino e pela cultura portuguesas é de uma importância inegável e a sociedade deve estar-lhe grata por isso, pois em muitos casos milhares de pessoas carenciadas puderam estudar através do projeto social da Igreja, na vertente ensino. No entanto, é preciso que fique claro que a Igreja não só deu muito como também recebeu muito. A facilidade com que as escolas privadas ligadas à Igreja sempre acederam ao financiamento público foi quase sempre maior do que a generalidade dos outros colégios privados; a Igreja Católica, através da Concordata e da posição privilegiada dentro da sociedade portuguesa, beneficiou de isenções fiscais e outras ajudas monetárias avultadas que lhe permitiram uma maior desafogo económico na hora de contratar pessoal, reformular colégios, aguentar épocas de crise económica e social, em que as famílias não podiam manter os filhos nos seus colégios.
É verdade que a Igreja sempre procurou ter em atenção os casos dos alunos mais carenciados, isentando-os, formal ou informalmente, das respetivas propinas. Mas fê-lo sempre com filantropia? Creio que não! Esses alunos foram também um excelente cartão publicitário da ação social da Igreja e um excelente argumento para negociar com o governo boas condições nos contratos de associação. Nos colégios privados abriram cursos únicos em determinadas cidades, o que não foi permitido a mais nenhuma escola privada ou pública. Nesse ponto a Igreja não podem nem deve fazer o papel de coitadinha nem de bom samaritano, pois não ficou a perder na relação económica com o Estado.
No entanto, no meu entender, à Igreja exige-se mais. O objetivo da Igreja não pode ser ter colégios ricos, não pode ser fazer dinheiro. Todo o dinheiro que a Igreja receba através dos seus colégios deve ser canalizado para permitir o acesso a esses mesmos colégios de gente carenciada e que não consegue aceder a determinados cursos no ensino público, porque não os tem perto de casa ou tendo-os, as vagas estão totalmente preenchidas.
Os colégios católicos deviam orgulhar-se de duas coisas que esqueceram: não ter efetivamente lucro e ter um número considerável de turmas com alunos carenciados (e não facilmente carenciados), houvesse ou não contratos de associação, porque isto de fazer flores com a carteira dos outros é de uma grande hipocrisia.
Gostaria ainda de fazer notar que a Igreja Católica tem outras fontes de financiamento que pode usar no ensino, que ninguém a criticaria por isso. Os donativos e esmolas dos seus fiéis. Em vez de investir na bolsa, em vez de investir no mercado imobiliário como qualquer Banco Espírito Santo, como ao que parece fez a falida diocese do Porto, devia investir na educação dos mais pobres do país.
Como reagiriam os fiéis se soubesse que a diocese do Porto andou a investir na compra e venda de casas e deu-se mal, em vez de investir nos seus colégios privados, e agora anda a choramingar uns milhões de euros ao governo, usando os seus alunos mais pobres para fazer chantagem emocional? Acho que todos nós, cristãos com sentido de justiça, não deixaríamos de nos sentir envergonhados, pelas más ações de quem dirige a Igreja portuguesa, que também é quem superintende os colégios católicos.
A Igreja tem direito reclamar a ajuda estatal para os seus colégios? Tem, mas devia ser a última a fazê-lo, até porque não tem sido um exemplo na gestão do dinheiro que tanta gente necessitada lhe confia.

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