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A ARTE DE COPIAR

MARCOS PORTO 
A palavra “cópia” tem a sua origem conectada segundo as crenças mitológicas da Antiguidade Romana, à entidade divina homónima associada ao fenómeno da abundância de recursos e da riqueza. Contudo, é após o surgimento da Revolução Industrial que o conceito de cópia aglutinou em si significados depreciativos. Através de um processo de reprodução facilitado pelo afloramento da mecanização dos meios de produção e de uma insaciável democratização de bens, a cópia curva-se perante a sobrevalorização da exclusividade.
Segundo a filosofia aristotélica, o fundamento de toda a arte era a representação ou reprodução da natureza, vista como símbolo máximo da harmonia e da perfeição, o Homem deveria ter a virtude de ser o mais fiel possível à reprodução da realidade natural, convergindo numa aproximação da magnitude da Natureza com a humanidade.
No Verão de 2009, o famoso artista de rua britânico, que actua sob o pseudónimo Banksy, expôs no Bristol Museum uma obra denominada ‘Maus artistas imitam, bons artistas roubam’. A citação é frequentemente atribuída a Pablo Picasso, mas Banksy num acto de irreverência que lhe é característica, homenageia o génio espanhol apropriando-se das suas palavras.
Maus artistas imitam, grandes artistas roubam
A cópia, a apropriação e mesmo o acto de roubar, revelam-se uma dinâmica cultural que tem acompanhado, desde os seus primórdios, a evolução da humanidade e de todos as espécies vivas na terra, através da imitação de técnicas de sobrevivência. Podemos afirmar literalmente que é uma característica genética, visto que as moléculas de ADN são dotadas de uma capacidade auto-duplicação produzindo cópias idênticas a si mesmas. O processo mímico encontra-se também presente nos processos de assimilação de conhecimentos do ser humano, desde os mais básicos até aos mais complexos. Inicialmente pela repetição de sons, passando pela imitação de gestos e atitudes e prolongando-se pela cópia no decurso da alfabetização. Ao longo do percurso académico até ao percurso profissional, quer pela apropriação do conhecimento de determinados autores, quer pela imitação de procedimentos laboratoriais, o acto de copiar não é passível de se alienar do quotidiano.
Wolfgang Beltracchi, apesar do considerável número de obras expostas nas mais reputadas galerias, foi até ao ano de 2011 um nome que se manteve no anonimato para o mundo das artes. Assinou mais de 300 peças, mas nenhuma com o seu nome, Max Ernst, Heinrich Campendok, Max Pechstein, Fernand Léger, André Derain, foram apenas alguns dos seus pseudónimos. 
Uma análise química ao quadro ‘Rotes Bild mit Pferden’, de Heinrich Campendonk, datado de 1914, revelou que Beltracchi utilizou um pigmento – branco titânio – que não existia à data que os quadros teriam sido pintados e foi condenado a seis anos de prisão. O maior falsificador do século, como ficaria conhecido, fez fortuna enquanto copiava as obras dos maiores artistas do modernismo. A viúva de Max Ernst chegou a descrever a floresta que o marido pintou num dos quadros como a mais bela de sempre. Mas tinha sido Beltracchi a pintá-la.
 Wolfgang Beltracchi, ‘La Horde II’, 2009, técnica mista s/ tela
Durante o tempo de clausura, Beltracchi pintou retratos de outros prisioneiros e desenvolveu um estilo genuíno e intrínseco, livre das antigas restrições que o prendiam à similitude com os antigos mestres. Foi libertado em Janeiro de 2015 e apenas quatro meses depois assinava a sua primeira exposição, desta vez em nome próprio, intitulada “Liberdade”. A galeria Art Room9, em Munique foi inundada de telefonemas de todo o mundo com propostas de compra para as 24 peças do ex-recluso alemão. A mais cara custou perto de 80 mil euros. Wolfgang Beltracchi, um nome que deixou o anonimato para o mundo das artes.
Apesar da previsibilidade da cópia, é inevitável que a dada altura, que em determinado momento seja gerada uma alteração, o que condiciona, com o decorrer do tempo, uma crescente valorização dada pela resultante mutação, cuja originalidade encerra uma promessa inerente à sua impressibilidade, tornando assim o processo mímico numa condição de relevância fundamental para a diversidade.
A regulação, entendida como apropriação indevida por uns, e renovação criativa por outros, é secundária em relação à necessidade de progresso da sociedade. O antagonismo entre a novidade e a cópia é entendido como uma argumentação dos monopólios para concentrar, a curto prazo, proveitos exclusivos, atitude contraproducente e limitadora da cultura de inovação.
A classificação de cópia como algo pejorativo, deve ser refutado, desmitificado e reconsiderado segundo uma perspectiva, não de ponto culminar, mas do ponto de definição de novos conceitos. O acto de imitar ou copiar convoca competências mais complexas do que a mera repetição de algo. É neste esforço que se pode encontrar a diferença e a alteração.
Inovemos ao copiar o mundo que não é mais do que uma cópia do Homem que

o copia.

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