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A HISTÓRIA DOS EUROPEUS DE FUTEBOL – PORTUGAL 2004

DR UEFA
CRÓNICA DE GONÇALO NOVAIS
Na rota de terras lusitanas: um olhar sobre a fase de qualificação
Estando Portugal apurado, à espera dos quinze visitantes que viriam a Portugal em trabalho no ano de 2004, arrancava a fase de qualificação nos dez grupos de cinco equipas cada, sendo 50 as federações a participar nesta fase.
Tinham apuramento directo para a fase final os primeiros classificados de cada grupo. Os segundos classificados disputariam cinco «play-offs», de onde sairiam os ocupantes das cinco vagas restantes.
A campeã europeia França, disposta a fazer esquecer a tenebrosa campanha do Mundial’ 2002, não podia ter feito campanha mais imaculada nesta fase, contando por vitórias todos os jogos realizados no Grupo 1, com um «score» de 29 golos marcados e apenas dois sofridos. A dupla do Arsenal Henry-Wiltord, que aterrorizava as defesas da Premier League, foi igualmente eficaz nesta fase, onde Trezeguet, que marcara o golo decisivo da vitória na final de 2000, e o “maestro” Zidane contribuíam decisivamente para o poderio do ataque francês.
O Grupo 2 foi equilibradíssimo, terminando com uma distância de apenas dois pontos entre primeiro e quarto classificados. Tanto é que no jogo decisivo Bósnia-Dinamarca uma vitória dos bósnios poderia ter-lhes dado o primeiro lugar final. O golo de Bolic serviu, no entanto, apenas para empatar, atirando os bósnios para uma enganadora quarta posição. Acabaria por ser precisamente a Dinamarca, com figuras como Martin Jorgensen (que marcaria o golo decisivo do empate em Sarajevo), Gravesen, Gronkjaer, Rommedahl ou Jon Dahl Tomasson a ficar com a liderança, garantindo o passaporte para a fase seguinte.
O Grupo 3 pôde presenciar, pela primeira mão, a qualidade colectiva do processo ofensivo da República Checa, na qual podíamos desfrutar da presença simultânea em campo de jogadores que se entendiam perfeitamente dentro das quatro linhas, como Nedved, Rosicky, Poborsky, Koller e Baros. Nem a Holanda conseguiu ter competência para contrariar o domínio checo no grupo, com sete vitórias e um empate em oito jornadas, numa campanha em que o jogo em casa decisivo frente à Holanda, que terminou com a vitória checa por 3-1, foi arbitrado pelo português Lucílio Baptista.
A Suécia ganharia com relativa comodidade o Grupo 4, apresentando uma selecção maioritariamente composta por atletas experientes (Mellberg, Allback, Lucic, Svensson, Ljungberg), mas onde o guarda-redes Isaksson e o genial Ibrahimovic iam aparecendo como grandes valores do futuro da selecção. Grupo onde a Letónia surpreenderia ao ficar com o segundo lugar, afastando Polónia e Hungria da fase seguinte.
Uma pragmática e eficaz Alemanha, num Grupo 5 relativamente acessível, garantiria o apuramento directo, numa altura em que brilhava o médio do Bayern de Munique Michael Ballack como a grande figura dos germânicos.
No Grupo 6 a Grécia dava o seu primeiro aviso à Europa, não só relegando a forte Espanha para os «play-offs», como apresentando o estilo de jogo que a viria a celebrizar na campanha portuguesa. Numa equipa muito eficaz no seu processo defensivo, o central Traianos Dellas assumia-se como o percursor de todo um conjunto de excelentes defensores gregos que se assumiriam competitivamente como mais-valias na Serie A italiana, Karagounis ia espalhando a sua criatividade e visão de jogo no meio-campo ofensivo, e Charisteas ia finalizando com sucesso os contra-ataques helénicos.
Foi a 11 de Outubro de 2003 que a Inglaterra fixava em Istambul, com um empate a zero bolas, o primeiro lugar do Grupo 7, numa campanha em que a anterior vitória inglesa em Sunderland marcaria a diferença entre dois conjuntos que mostraram qualidade para se apurar directamente. Orientada por Sven-Goran Eriksson, a Inglaterra dispunha de uma selecção recheada de futebolistas de alto nível, levando para Portugal elementos da chamada “turma de Manchester” em grandes momentos de forma (Beckham, Gary Neville, Scholes, Phil Neville ou Nicky Butt), e com uma nova geração de futebolistas de enorme potencial a afirmarem-se categoricamente (Michael Owen, Ashley Cole, Steven Gerrard ou a nova grande esperança Wayne Rooney).
No Grupo 8 a Bulgária, ainda com Balakov a participar nesta fase, Berbatov, era o artilheiro de uma equipa que tinha em Stiliyan Petrov o organizador de jogo ofensivo de uma equipa que deixa pelo caminho a Bélgica e relega os croatas para o «play-off».
Muito consistente defensivamente, com defensores competentíssimos (Zambrotta, Nesta, Fabio Cannavaro ou Panucci), com um dos melhores médios de todos os tempos a despontar (Pirlo), e com Inzaghi e Del Piero inspirados na frente, Itália vence o Grupo 9 com comodidade, o mesmo não se podendo dizer da jovem equipa da Suíça, onde os experientes irmãos Yakin, Senderos ou Chapuisat abriam caminho a uma nova e valiosa geração de futebolistas suíços, dos quais se destacaria o avançado Alexander Frei, e que iria destacar-se pela positiva em termos exibicionais no Mundial da Alemanha, dois anos depois. Qualificaram-se em primeiro no Grupo 10, a apenas um ponto de avanço sobre a favorita Rússia.
Chegados à fase dos «play-offs», conjuntos como Espanha e Holanda não tiveram problemas nas suas eliminatórias, confirmando plenamente o seu favoritismo. Os espanhóis, mais uma vez com Raúl a dar o mote, batem sem dificuldades a Noruega (2-1 e 3-0), ao passo que a Holanda, surpreendida na Escócia na primeira mão (0-1), esmagaria os britânicos em Amesterdão, com o «hat-trick» de Van Nistelrooy a juntar-se aos tentos de Sneijder, Ooijer e Frank de Boer na clarividente vitória de 6-0.
Croácia e Rússia resolveriam com bem mais dificuldade as suas contendas. Tendo começado com um desvantajoso empate caseiro (1-1), os croatas carimbariam a passagem em Ljubljana com um único golo de Prso, resultado idêntico que marcaria a passagem dos russos perante o País de Gales, com um golo apontado por Evseev em Cardiff a não permitir à selecção de Ryan Giggs apurar-se para a fase final.
Para a Letónia o europeu de Portugal vai ficar para sempre nos anais da história futebolística do agora independente país. Ilustres desconhecidos como Rubins, Astafjevs ou Verpakovskis

seriam os obreiros da fantástica campanha desta selecção, que com um empate a dois na Turquia, encerrou com sucesso uma eliminatória na qual já tinha batido os turcos na primeira mão em casa (1-0).


Em direcção à Luz
O Estádio da Luz seria o palco último do Europeu, o palco de uma final onde toda uma nação, por um lado preocupada com a mediania exibicional da equipa portuguesa nos jogos de preparação, mas por outro galvanizada não apenas pela capacidade motivadora de Luiz Felipe Scolari e pelos grandes sucessos internacionais de uma equipa recheada de excelentes jogadores portugueses – o FC Porto de José Mourinho –, esperaria estar presente com a sua equipa, o que de facto veio a acontecer.
Foi entre os dias 12 de Junho e 4 de Julho que Lisboa, Porto, Braga, Coimbra, Aveiro, Leiria, Guimarães e Loulé receberam as 16 equipas em competição, que principiou no Estádio do Dragão, no jogo entre Portugal e a Grécia. Deixando de fora de forma surpreendente jogadores como Ricardo Carvalho, Nuno Valente, Deco e Cristiano Ronaldo, então todos eles em excelente momento de forma, Scolari viu as suas opções traduzirem-se numa surpreendente e preocupante derrota, na qual as entradas de Deco e Ronaldo, operadas aos 46 minutos de jogo, já ocorreram após o primeiro golo helénico marcado por Karagounis, ao qual se seguiria o penalty marcado com êxito por Basinas. O golo de Ronaldo ao cair do pano não evitaria que Portugal ficasse numa situação difícil, agravada pela vitória da rival Espanha diante da Rússia, com golo de Valerón a valer três pontos.
Na segunda jornada Morientes parecia estar a encaminhar os espanhóis para a segunda vitória consecutiva, quando a eficácia finalizadora de Charisteas faz de Casillas a sua primeira vítima, com um golo que garantiria o primeiro lugar a ambas no final da segunda ronda. Isto independentemente da vitória de Portugal frente à condenada Rússia (2-0), já com Scolari a colocar de vez o “núcleo duro” do FC Porto a trazer à selecção o nível competitivo que levou os «dragões» à vitória na Liga dos Campeões.
Acontecesse o que acontecesse no Rússia-Grécia, Portugal tinha que vencer a Espanha para passar, não havendo margem de erro para os nossos compatriotas. O golo de Nuno Gomes, num duelo mais do que emocionante, deu a vitória a Portugal no sempre muito difícil duelo ibérico, tendo passado a Espanha desde favorita a eliminada, pois a derrota grega frente aos russos (1-2) não impediu a qualificação grega, com mais golos marcados e mesmo «goal-average» dos espanhóis.
No Grupo B, França e Inglaterra conseguiram ultrapassar Croácia e Suíça sem problemas de maior, e praticando um bom futebol apesar de por vezes mostrarem alguma inconsistência nesse aspecto. O grupo começou com um jogo dramático na Luz, com a França, que chegava aos 90’ a perder com um golo de Lampard, a dar a “cambalhota” completa com dois golos de Zidane. No outro jogo, uma Croácia não tão forte como em 1998 e 2000 empatava sem golos perante uma Suíça ainda não competitiva o suficiente para este nível. Na segunda jornada, a escorregadela da França frente à Croácia numa exibição menos conseguida (2-2), é aproveitada pelos britânicos, que com dois golos de Rooney e um de Gerrard derrotariam a Suíça. A terceira jornada acabou por ser a confirmação da superioridade de franceses e ingleses – em mais uma exibição com altos e baixos, Henry surge como elemento decisivo na vitória (3-1) sobre os helvéticos, e em mais um bom jogo de Rooney, do seu colega de ataque Owen, e de um quarteto de grande categoria no meio-campo formado por Gerrard, Lampard, Beckham e Scholes a Inglaterra bateu a Croácia (4-2) e passa no segundo lugar.
Muito emocionante foi o Grupo C, que acabou com Suécia, Dinamarca e Itália com cinco pontos cada um no final desta fase. Acabariam por ser os jogos contra a muito frágil Bulgária a resolver um grupo onde passou quem teve melhor «goal-average», uma vez que os jogos entre as três primeiras acabariam todos empatados. Logo na primeira jornada uma inspiradíssima Suécia, com exibições de bom nível de Larsson, Ibrahimovic, Ljungberg ou Allback (que faria também excelentes exibições nesta prova), esmagaria os búlgaros com cinco golos sem resposta. Após perderem com a Dinamarca na segunda jornada (0-2), os búlgaros só facturariam frente à Itália, apesar de perderem pela margem mínima (1-2). Todavia, desta vez os serviços mínimos foram uma estratégia perdedora, e os italianos veriam a Dinamarca e a Suécia a festejar a passagem aos «quartos», após empate a duas bolas no Estádio do Bessa.
No Grupo D assistiu-se à consagração de uma das equipas mais empolgantes da prova. Os checos, com a grande revelação das balizas Petr Cech, e com defensores competentes como Jankulovski, Grygera, Ujfalusi ou o experiente médio-defensivo Galasek a serem alicerces defensivos seguros de um quinteto de luxo na frente, com grandes exibições de um colectivo formado por Rosicky, Poborsky, Nedved, Koller e Baros, aniquilou a concorrência, com as potências Holanda e Alemanha (esta eliminada com alguma naturalidade) a grande distância, e uma estreante Letónia que, valendo-se dos recursos humanos que tinha, ainda saiu de Portugal impondo um histórico empate à Alemanha (0-0), o que valeu aos germânicos um precoce regresso a casa.
Rigor a defender, eficácia a atacar, e muita combatividade: os segredos do sucesso em Portugal
Não se podia pedir uns quartos-de-final com mais emoção do que aquela que se veio a verificar, talvez com excepção da categórica vitória da excelente República Checa sobre uma Dinamarca satisfeita pela prestação já realizada. Baros, com dois golos, e Koller, facturaram na clara vitória checa, sem resposta dos dinamarqueses.
A Inglaterra tinha a oportunidade de se desforrar da selecção da casa pela derrota de há quatro anos atrás, e com efeito Owen silencia o Estádio da Luz com um golo madrugador, aos 3 minutos de jogo. Aos 83, e num jogo que começava a prever a festa inglesa, Hélder Postiga, livre de marcação, responde na grande-área com um cabeceamento que David James não conseguiria travar. O enorme golo de Rui Costa já em fase de prolongamento provocou uma euforia generalizada na Luz, mas Lampard ainda empataria passados cinco minutos. Nas grandes penalidades, oportunidade para brilhar Ricardo, que defendendo dois penalties e marcando o decisivo, leva Portugal às meias-finais pela segunda vez consecutiva, e terceira na sua história.
A penalties foi também o Suécia-Holanda, com os holandeses a beneficiarem do penalty falhado por Mellberg para comemorarem, mesmo sem grande brilhantismo, a chegada a uma fase bem adiantada da prova.
Já a campeã europeia França provava do veneno do contra-ataque grego, com o já habitual e letal Charisteas a selar a passagem às meias-finais com um excelente cabeceamento, após boa jogada e cruzamento de Zagorakis.
Nas meias-finais, uma boa exibição de Nikopolidis, a falta de aproveitamento de flagrantes oportunidades de golo por parte dos checos, e a tremenda eficácia de uma selecção que poucas vezes conseguiu incomodar Petr Cech, foram alguns aspectos de um jogo completamente dominado por uma grande equipa que merecia ter chegado à final. A figura do jogo acabaria por ser Dellas, que responderia com um cabeceamento certeiro em resposta a um canto muito bem marcado por Tsiartas.
Na outra partida a nossa selecção começaria a construir a vitória com um cabeceamento de Cristiano Ronaldo após excelente cruzamento na sequência de um canto marcado pelo “maestro” luso-brasileiro Deco. Mas o melhor momento ocorreu aos 58 minutos com um grande golo de Maniche, num potente remate com o pé direito descaído sobre a esquerda do ataque português, com a bola a anichar-se no ângulo superior esquerdo da baliza defendida por Edwin van der Sar. O autogolo de Jorge Andrade ainda traria alguma indefinição, mas Portugal seguraria a vantagem e conseguia chegar à final, o que nunca acontecera.
E quando toda uma nação se engalanava para uma possível grande conquista, aparece o suspeito do costume, um nome que ficará para sempre gravado pelos motivos menos bons da história da nossa selecção: Charisteas. Na sequência de um pontapé de canto apontado na direita por Basinas, Charisteas aproveitaria uma abordagem precipitada ao lance de Ricardo, e cabecearia para o golo mais importante da história do futebol grego. Prestes a acolherem uns Jogos Olímpicos felizes para o país, que conquistaria 16 medalhas no total, viviam-se dias felizes num país a atravessar hoje dias tão complicados para a sua população.

Nunca mais Portugal chegaria a uma outra final, apesar de ter andado lá perto em 2012. Mas o bom futebol e os grandes golos de uma equipa que mais uma vez deixa uma boa imagem em campo devem ainda hoje encher-nos de satisfação, apesar de restar o sentimento de que se esteve tão perto, tão perto… É esperar para ver o que 2016 nos trará…


Nota: Este artigo foi realizado graças à informação facultada publicamente pela UEFA, no seu site oficial.

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