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FESTA DO CINEMA OU FESTINHAS AO CINEMA?

ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA 
Esta semana iniciou-se com a amplamente anunciada Festa do Cinema. O que será a Festa do Cinema? Como começou? Comemora o quê? Ensina a ver cinema? Capta público? Promove encontros e debates à volta de um filme? Provoca encontros entre cinéfilos, realizadores e atores? Não! É apenas uma promoção: sessões de cinema a dois euros e meio!
É um cinema a saldo ou um cinema de saldo? Época de saldos para o cinema? E cinema é só desconto no bilhete? E, já agora, as pipocas e o refrigerante também têm desconto? É assim que se capta público para o cinema? Não!
Esta estranha ligação entre cinema e bilhetes baratos é a alavanca para uma reflexão sobre cinefilia, magia do cinema e educação de públicos.
Cinefilia não tem nada a ver com o preço dos bilhetes. Não se é cinéfilo uma vez por ano. Um cinéfilo é um amante do cinema, tem um impulso, por vezes incontrolável, de ver muitos filmes, todos os filmes, e de tudo relacionar com cinema. Ser cinéfilo é gostar muito de ver cinema, sem complexos, preconceitos ou restrições. Ser cinéfilo é querer saber mais sobre o modo de produção daquele filme, saber como foi feito, saber mais coisas acerca daquele ator ou daquela atriz, viajar até àqueles locais onde decorreram as filmagens desta ou daquela sequência. Cinefilia é uma paixão, uma doença incurável!
A magia do cinema é inexplicável. Ainda hoje. Numa sala de cinema, num ecrã de uma televisão ou no exíguo espaço de um tablet, desfilam, perante os nossos olhos, imagens inesquecíveis, histórias empolgantes, personagens intensas, tensões e suspenses intemporais!
Na curta-metragem Artaud Double Bill, que Atom Egoyan realizou para o projeto Chacun son Cinéma, que o Festival de Cannes organizou em 2007, o amor pelo cinema cruza-se com o impulso comunicativo que os telemóveis provocam na difusão de imagens e de sentimentos. Duas amigas que, supostamente, iriam juntas ao cinema, acabam por ver filmes diferentes em salas diferentes. Uma delas vê o filme The Adjuster, do próprio Aton e a outra o filme de Jean-Luc Godard, Vivre Sa Vie, onde a personagem vê o filme La Passion de Jeanne D’Arc de Carl Dreyer. Uma delas, encantada com a beleza de Antonin Artaud, capta o filme pela câmara do telemóvel e manda-o para a amiga que está na outra sala. A amiga passa ter acesso a dois filmes, duas imagens marcantes. O espetador fica marcado pela multiplicidade labiríntica de imagens, num trompe l’oeil que, por vezes, perturba a perceção dos espaços e a identificação dos ecrãs. Desenvolve-se um cruzamento intenso entre imagens das salas de cinema, imagens de ecrãs gigantes e imagens de ecrãs de telemóvel. É o percurso de um novo olhar perante o cinema e o nascimento de novos suportes contribuintes para o enriquecimento de uma cinefilia. Projeta-se a interatividade fílmica e o percurso inevitável de uma cinefilia.

E que relações entre esta cinefilia e a Festa do Cinema? A Festa do Cinema tenta captar mais público para as salas, Tenta persuadir aqueles que, durante o resto do ano, acham os bilhetes muito caros mas gastam o dobro em pipocas e refrigerantes, tenta captar aquele público que não aparece em sessões de cinema, por vezes gratuitas, organizadas por diversas associações culturais, porque está frio ou porque está calor, porque o filme não foi publicitado ou porque o realizador não é protagonista de nenhum reality show. Isto não será mais um “fazer festinhas ao cinema”?

Em vez de gastar dinheiro a publicitar estas “festas de caridade”, não será melhor investi-lo na educação dos públicos de todas as idades? Não será melhor ensiná-los a “ver” cinema em vez de os colocar passivos e amorfos a olhar para imagens em movimento? Não será melhor promover o encontro entre realizadores, técnicos e público, numa partilha de experiências e de dúvidas, em momentos contínuos de “making of”? Não seria mais proveitoso mostrar-lhes as diferenças entre os diferentes planos, os diferentes enquadramentos e os diferentes pontos de vista em relação a outros tantos temas? Não seria melhor divulgar filmes de outros tempos, de outros países e de outras magias? Não será melhor fazer de tudo para lhes aguçar o apetite, o interesse, a curiosidade e dar-lhes aquilo que é verdadeiramente a essência da arte cinematográfica: a construção das ideias?

Cinefilia é também uma vontade imensa de escrever sobre cinema e um desejo de partilhar essa vontade. Aqui, quero ser uma Blimunda com um indecifrável mistério de vontades.
Eu sou uma cinéfila assumida e, a partir de hoje, vou partilhar convosco essa minha paixão. Entraremos nos mistérios fabulosos de todos os filmes do mundo! Vamos também recuar no tempo e perceber que aquilo que achamos moderno e atual já nasceu nos primeiros anos do cinema. Vamos descobrir, no cinema, um intenso diálogo entre passado e presente. Vamos ao encontro de tempos e espaços perdidos. Vamos fazer como a Rita Lee: “no escurinho do cinema/chupando drops de anis/ longe de qualquer problema/perto de um final feliz…
Viajaremos, sem festas nem festinhas, mas com muita paixão!

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