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NUMA FUGA SEM DESTINO

(um conto, com base em factos reais, dedicado a uma amiga poeta “O.M.” natural das terras longínquas do Moxico/Angola – este conto faz parte dum conjunto de contos, ainda em manuscrito, que um dia fará livro a chamar-se: Contos do Infinito e Demónios da Tia Matilde)
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«Para o homem religioso, a Natureza nunca é exclusivamente «natural»: está sempre carregada de um valor religioso. Isto compreende-se facilmente porque o Cosmos é uma criação divina: saindo das mãos dos Deuses, o Mundo fica impregnado de sacralidade. Não se trata somente de uma sacralidade comunicada pelos Deuses, (…). Os Deuses fizeram mais: manifestaram as diferentes modalidades do sagrado na própria estrutura do Mundo e dos fenómenos cósmicos.»
Mircea Eliade in “O Sagrado e o Profano” (a essência das religiões)
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1. Pontos luminosos no céu
Já não bastava a noite, que era, por demais, fria e gelada! Uma noite de breu.
ALVARO GIESTA
O céu longínquo, habituado a vê-lo sempre, azul, nas noites da sua aldeia, esquecida lá longe, em terras do Moxico, era agora mais negro do que nunca. Caienda, muito a nordeste de Luena, a cidade de Luso no tempo colonial, há muito que ficara para lá da linha dos seus horizontes mas nunca fora das suas recordações. O céu, neste mar distante, era agora um negro de azeviche. Mais negro que o negro Matiê que, na calada da misteriosa noite negra metia medo, quando atravessava o terreiro da sanzala para se ir misturar com o quente da esteira da Benedita, com o luzir daqueles dois olhos que apenas se lhe viam, como pontos luminosos, iguais aos da velha e faminta onça que rondava o curral dos cabritos do tio Kandiri.
Apenas aqueles pontos luminosos, de luz, naquela profundidade de fazer até Deus temer, quanto mais os homens, indicavam ser ali o céu.
As estrelas.
Habituado a ver o seu piscar cintilante, custava-lhe a crer que aqueles pontos luminosos fossem estrelas! Para ele tudo eram estrelas. Tivessem elas luz fixa ou cintilante. Todos os astros que enfeitavam o céu, eram estrelas. Diferentes daquelas que cruzavam o céu, de um lado a outro, por cima da sua aldeia coladinha a Caienda que fora vila e agora tinha pouco mais que duas ou três casas em pé, que as demais foram esburacadas e reduzidas a pó pelas morteiradas travadas entre as forças que pretendiam fixar-se à força no poder com a ajuda dos cubanos e as outras, as do Galo Negro, que aos poucos se iam reduzindo a zero à medida que o apoio da África do Sul lhes ia faltando.
No princípio a mãe fizera-lhe crer, na sua ingenuidade infantil, que aqueles pontos luminosos que engravidavam o céu eram espíritos errantes à procura, nele, dum lugar para viverem. Depois aprendeu que, afinal, aquelas luzes que se moviam cortando o espaço, de um lado a outro, por cima da sua aldeia, eram aviões, lá longe, muito alto, a cruzar destinos longínquos. Nunca chegou a saber que podiam ser outra coisa qualquer colocada pelos homens no espaço, com vista à dilatação do seu conhecimento.
Mas, quanto às estrelas…
A mãe dissera-lhe, tantas vezes, quando ainda não entendia o mundo, como agora, ou entendia apenas uma ínfima parte dele na sua inocente ingenuidade, tal qual ainda hoje o entende, que aquilo eram os olhos dos seus antepassados “vovô e vovó” a zelar por ele, cá em baixo na Terra e a iluminar-lhe o caminho.
«Que são antepassados, mãe?»
E lá lhe explicava ela, como podia e com a paciência que só uma mãe sabe ter, usando palavras que ele pudesse entender, e jamais olvidar, o que eram os “seus antepassados”.
«Mas vovô o vovó estão vivos, mãe. Como podem ser eles no Céu a dar luz ao meu caminho, se estão na aldeia?!»
Que os antepassados, a que ela se referia, eram os avós dos avós e muitos avós de muitas mais gerações antes deles. Acomodava, assim, o espírito inquieto, por saber, daquele filho em constante interrogação. E tantas coisas mais ela lhe ensinou! Das coisas boas do Mundo, que o Mundo tem, e de algumas ruins da Vida, também. Mas não lhe ensinara da guerra que destrói e mata. Da guerra que ele viu um dia nascer e matar, e o fez fugir naquela aventura impensada por não querer ainda morrer e juntar-se, antes daquele que ele julgava ser o seu tempo, ao tempo dos seus antepassados. Da guerra que lhe levou o irmão mais velho e lhe levou, depois, a mãe, também.
Tanta coisa mamãe lhe ensinou! E milhentas outras coisas ficaram por ensinar. Os seus pensamentos, na dificuldade desta fuga aventureira e temerária, iam para ela que tanta coisa lhe ensinara. Ela era, nesta aventura onde pensava morrer a cada instante, mas onde não queria morrer, o Deus das suas preces e súplicas.
***
Agora as vagas iradas, naquele fustigar implacável e constante nos costados da traineira, faziam os mais novos gritar. E era uma trabalheira fazê-los calar… com que esforço se conseguiam mantê-los colados no fundo da embarcação. As ondas, iradas, pareciam querer parti-la, pelo meio, engoli-la para as profundezas daquele mar infernal e sem fundo que, apesar de tudo, era dele que esperava a salvação. Todos esperavam o mesmo!
Eram dezasseis. Um grupo formado, quase por acaso, que ao longo da fuga a partir de Cazombo e em direcção a sodoeste, com destino a Namibe, o Moçâmedes do tempo colonial, onde se sentiam mais protegidos pela presença constante das forças do sudoeste africano que entretanto faziam profundas incursões no sul de Angola, foi cimentando amizades com a convicção de que, de Namibe, partiriam rumo a qualquer sítio mais seguro, ainda que dele não fosse prioritário saber o nome nem tão pouco adivinhar o destino que lhes estava reservado. Importava, sim, saber dele a segurança e a liberdade.
Gente a mais para a capacidade da embarcação tão velha como o tempo e tão frágil como vida. Os mais afoitos ainda se atreviam a dar gargalhadas, no meio das imprecauções que soltavam a cada bambolear mais ameaçador e próximo dum fim, que a cada momento parecia ser mais evidente. Talvez fosse para dissipar os nervos e o medo que se apoderavam deles. Os outros, os menos afoitos, como ele, encolhidos na concavidade do dorso da cada vez mais castigada traineira há quase sete sóis perdida no encapelado mar depois de terem embarcado, pela calada da noite, no porto de Namibe, rezavam baixinho olhando um céu rotundo e negro na ânsia de descortinar, nele, as asas brancas dum anjo salvador. O anjo salvador de que a mãe lhe falava, tantas vezes, em pequenino.
Para lá da proa, que às vezes deixava de se ver oculta por uma vaga mais forte, apenas o negro da noite. O negro do imenso nada.
***
A mãe.
A mãe que a guerra matara quando ia para a naca sachar o milho e a mandioca com que se sustentavam. O anjo salvador não vivia no escuro da noite quando, afinal, nem na claridade do dia a mãe salvou. Simplesmente, não existia. Ou, se existia, Ele não queria saber da mãe; por isso, deixou de acreditar n’Ele.
O pai e o irmão mais velho há muito tinham partido, também, para o reino dos seus antepassados. Levou-lhos o movimento de libertação, que prometia liberdade e pão a todos, para parte incerta, na mata, e as balas traiçoeiras ceifaram-lhes a vida. O pai, que quase não conhecera, envolvido há muito naquela guerra de libertação do jugo do colonialismo português, tinha sido um valente comandante, dizia-lho a mãe. O irmão, adolescente ainda, fora roubado ao lar, tinha ele quatro anos. Lembrava-se bem dele. Alto e franzino, nos seus doze anos de idade, envergava com garbo, sem saber bem a razão da sua missão, a farda do Galo Negro que mais tarde havia de conduzir o seu país à desgraça e ao desaparecimento de milhares de vidas durante vinte e sete anos, após a independência da sua Angola. Vira-o, de uma vez numa passagem apressada pela aldeia, integrado num grupo de assalto para aí se abasteceram. Como abraçava a kalashnicov, sua companheira de vida e de morte!…
Ficou, algures perto do Cuemba quando integrava a força de elite do brigadeiro Wala que progredia no sentido Cuemba/Viningola, abraço à sua kalashnicov para a eternidade. Nem o anjo salvador lhe valeu.
A mãe. Olhava para aqueles pontos luminosos na ânsia de a encontrar. Sabia que ela estava lá. Só podia estar. E havia de olhar por si, neste mar encapelado que a cada vaga mais alta deixava ver um buraco negro capaz de engolir meio mundo, quanto mais a traineira que, naquela imensidão de água, mais parecia uma piroga das usadas pelos velhos pescadores do Lwena.
Ela estaria presente. Guiaria aquela traineira que já todos pensavam navegar sem rumo, apesar da certeza, teimosa, com que o Ti’ João afirmava navegarem em rumo certo. Ti´ João, preto sabido nas lides de marear que há muito navegava na pescaria do mar alto com mestre Joaquim, branco mais teimoso ainda que se negara a partir e ficara pregado ao solo pátio, que não era seu, de direito, mais colado a ele que Cristo Redentor no alto da Serra da Chela, ali pregado, a dar “guarida aos andarilhos e refúgio aos perseguidos”. A mãe não os deixaria naufragar.
Ela, a mãe, era pela certa um daqueles muitos pontos luminosos, longínquos, naquela profundidade longínqua dum céu tão distante e tão escuro. Um céu negro, como breu, tão avesso à precária vida. Ou talvez ela fosse, com o seu saber e bondade, aqueles pontos luminosos todos, multiplicados milhões de vezes para lhe iluminar o caminho dum mundo desconhecido, mas que esperava fosse melhor e mais seguro do que aquele em que crescera. Um mundo de guerras, de mortos, de estropiados… um mundo de terror e medo, constantemente ameaçado pelo explodir dos confrontos constantes entre dois movimentos em que, na ganância pelo poder, nem o cansaço do decurso dos anos faziam abrandar. Um mundo de fome que aos poucos levava o seu povo para o abismo. Para um abismo profundo. Tão devastador como aquele mar bravio, sem Deus nem dono, que se estendia à sua frente. Uma sepultura negra que a cada onda encrespada se lhe cavava aos pés.
O medo e a máscara.
Tremeu. Também sentia medo. Mais do escuro do que daquele mar encrespado. Sempre teve medo do escuro. Sempre teve medo do medo que nascia do escuro.
Costumava dizer-lhe, a mãe, que a noite escura tinha Kazumbir. Ele, o Kazumbir, andava na noite sem dono, como alma penada, à procura das crianças da aldeia com que alimentava a sua sede de feitiço. Principalmente daquelas que se afastavam do terreiro da sanzala, para lá da orla com a mata. Por isso, à noite, ficava de cócoras junto da fogueira acesa na palhota, enquanto rabiscava na cinza, com qualquer graveto, figuras sem rosto. Eram as figuras das crianças que o Kazumbir roubava para alimentar a sede do mal. E pensava no Kazumbir…
«Mamãe, como é a cara do Kazumbir?»
«Não tem cara – dizia-lhe a mãe – são como os Chingange sem cara.»
Ele desconhecia como era Kazumbir mas, sabia que Chingange, essa figura mística de interesse e respeito que aparecia nos rituais africanos, tinha rosto, apesar de aparecer sempre com a cara tapada com uma máscara pesada feita de madeira.
Pensava sempre que cada máscara tinha um duplo efeito: um pela face externa, outro pela face interna. Como se por uma se visse nessa figura mística um deus e, pela outra, se olhasse para o homem que se transmuta e fazia crer, a si próprio, que era um deus na transfiguração do eu. Ele sabia que, por detrás daqueles buracos fundos e negros, se moviam os olhos de um homem. Um homem agora sem rosto… debaixo daquela máscara, havia uma outra máscara, ou talvez muitas máscaras num rosto sem rosto. A máscara externa, feia e fria, ainda que de pau preto fosse esculpida e o seu escultor lhe pudesse ter dado dóceis feições. Mas não, deu-lhe as feições mais horrendas que é possível dar a uma máscara sem rosto. A máscara era de feições disformes talvez para indicar, a quem a olhava, a medo, que o coração do seu utente também era sanguinário e assim o obrigava a deitar os olhos ao chão. Apenas uma boca arreganhada de lábios feios e grossos e no lugar dos olhos dois buracos profundos. Tão negros como o negro da noite em que Kazumbir se acoitava, de que Kazumbir se alimentava, tão fundos como o abismo do mar que prometia ser a sua última morada.
«Quem vir a cara de Kazumbir, morrerá – continuava a dizer-lhe a mãe ­- ou acontece-lhe um mal ruim, daqueles de fazer a pessoa,

que o apanha, ficar deitado, doente o resto dos dias, na esteira estendida no chão duro da escura cubata onde só os mais-velhos e sábios da aldeia podem entrar para se certificarem que o mal que Kazumbir espalhara ainda não tinha levado o doente para junto dos antepassados.»

Por isso, Kazumbir não tinha cara; como Chingange, andaria sempre de cara tapada? Ninguém sabia, porque nunca alguém vira Kazumbir… Kazumbir era o presságio da morte; nunca ninguém na aldeia o tinha visto mesmo sabendo-se da sua existência. Em Chingange, no lugar dos olhos e da boca, apenas aqueles três buracos negros e sombrios que nem a luz do dia ousava espreitar para o seu interior, com medo de aí se perder. E corpo de Chingange era disforme. Lembrava-se bem disso. Muitas vezes o tinha visto dançar, naqueles saltos grotescos no largo descampado ao fundo da sanzala. Sítio que ninguém ousava atravessar, nem mesmo fora do tempo das batucadas sagradas… era terreno exclusivo de Chingange. Terreno sagrado. Ali, onde a velha mulemba guarda ninhos e segredos que incendeiam quem deles ousar saber mais que os Sekúlos sábios da aldeia, se festejavam as festas do alambamento até ao sol posto, ou se recordavam, noite dentro e manhã fora, aqueles dos seus que partiram para o reino longínquo dos antepassados.
Recordava-se…
A tarde ia alta. Aproximava-se do seu fim. Num pôr-do-sol, estranho, sanguinolento, o astro arredava-se para o outro lado do mundo, rasando, na distante savana, as copas das bissapas que se erguiam do solo a partir de disformes e esqueléticos troncos… de ora em vez o sol espreitava, teimoso, por entre nuvens carregadas, que o vento teimava em fracturar, a que ele, o sol, emprestava a cor sépia que deixava fugir de si. Era um pôr-do-sol diferente… mau presságio se adivinhava. Afogou-se, o sol, num céu assustador, para os lados mais longínquos da savana. Via mau agouro naquele adeus dum sol agónico num céu de medo e morte. Misturavam-se-lhe, na mente, interrogações incontornáveis naquilo que lhe parecia a premunição dum desastre conjugado com a embriaguez do êxtase.
Um Chingange rompeu, de repente, da mata que orlava as libatas e as unia num todo em redor da velha capela protestante erguida a adobe no centro da aldeia, em saltos grotescos mais parecendo um demónio, metendo medo aos mais novos por ali próximos. Depois outro, grotescamente disforme, igualmente com aquela máscara de feições macabras a cobrir-lhe invisível rosto, e outro, ainda… eram três zarapelhos em pessoas.
Ele correu, assustado, a esconder-se debaixo do pano pintado que envolvia o corpo da mãe, que depressa ela apertou, ainda mais, ao corpo com um nó, não fosse ele desprender-se e deixar-lhe à vista as sagradas íntimas partes de si, enquanto num ritmo cadenciado de pés e mãos ela acompanhava as outras anciãs da aldeia para contentar os Chingange nas suas danças macabras. Aqueles corpos desengonçados, cobertos de lianas e zarapilheira, enfeitados com saias de sisal seco e esfarpado, faziam piruetas demoníacas no ar e rebolavam, no pó do terreiro, como animais que querem desfazer-se dos parasitas que, como lapas, se lhes colam ao corpo e os incomodam causando-lhe fatal coceira. Presas ao corpo, os Chingange usavam mil fatias de sisal seco e, nas pernas, uma teia de pele com guizos que soltavam sons frenéticos e estridentes produzindo a própria música que dançavam. A espaços incertos erguiam-se, de entre a multidão que arredava assustada, outros homens-gnu de tamanhos disformes e homens-gunga a que se juntavam mulheres-gazela fazendo vibrar as tuelelas amarradas ao tornozelos.
Depois daquela dança macabra de cerca de duas horas, todos se dissolveram, numa travessia secreta existente ao fundo do terreiro, para qualquer lado sem nexo entre o visível e o invisível. Como tinham aparecido, de repente, vindos não se sabia de que insondável e silencioso recanto da mata, assim, num ápice, os Chingange se sumiram no capim alto para lá dos limites da sanzala. Era a cumplicidade dos deuses a aterrorizar as pessoas humildes, para que a sua obediência e subjugação ao desconhecido fosse total, cega e absoluta. Assim convinha à união dos poderosos esta subjugação e subserviência dos humildes.
E a submissão continuava, por horas sem fim, naquele monocórdico tantã acompanhado pelo bater surdo de dezenas de pés descalços no chão barrento do terreiro. De ora em vez uma voz de tenor erguia-se, como que em rebeldia, e deixava escapar prolongado esgar de dor, que não se entendia bem, a que logo respondiam vozes arrastadas de lamento ao som das palmas compassadas a que se juntava o ébrio bambolear de corpos suados em simulacros de dança. Era neste fluir descendente de sangue, da cabeça aos pés, que os corpos bamboleantes se desarticulavam em arremedos de danças demoníacas, pela ausência de controlo cerebral devido à insuficiência da oxigenação do cérebro.
De um sítio oculto pela sombra, já livre do medo e liberto da protecção do pano pintado que envolvia o corpo da mãe, ele, que nunca desfitara os Chingange nem os seus adjuntos e malabaristas homens-gnu e homens-gunga, captava já os sinais do magma misterioso da vida. E era tão jovem ainda!…
O Kazumbir.
Nesse tempo e nesse seu pensamento inocente, de cócoras à beira da fogueira cuja chama ténue bailava acolhedora, meditava em como seria, na verdade, essa coisa malévola e misteriosa chamada Kazumbir que todos os da sanzala, principalmente os mais velhos, pareciam adorar. Ou temer, sabe-se lá… e interrogava-se já, embora na sua meditação de criança, se isso seria, afinal, um Deus bom a quem queriam venerar, ou um Deus mau a quem queriam prestar vassalagem com medo do feitiço ruim que ele poderia trazer aos seus animais e colheitas.
Se levantava o rosto para lá do círculo de luz, via na zona de sombra do interior da cubata, naquele escuro de que tinha tanto medo, figuras fantasmagóricas bailando no ar. Ou, pelo menos, parecia-lhe que via. Agora, finalmente, sabia que a noite escura não tinha Kazumbir, apesar do medo que ainda sentia do seu negrume.
***
Tremia de medo. Apesar de homem feito que se pensava corajoso por aceitar com os outros empreender aquela fuga por oceano, esse infindável desconhecido, em busca duma terra melhor e sem guerras, tremia. Também tremia como os mais novos. Tremia de frio e medo. Mais medo que frio.
Havia alturas em que a proa da traineira subia na crista das ondas em direcção ao céu, quase parecendo ir até ele, num vôo desordenado, para logo, abruptamente, se afundar no passar da onda gigante, num mergulho mortal quase engolida pela bravura do mar. Depois empinava-se outra vez, e outra, e mais outra, ainda, para de seguida mergulhar outras tantas vezes e ficar perdida e encoberta, eternamente, pelas vagas raivosas do oceano. Gritava. Gritavam todos agarrando-se, depois, no mesmo abraço, num silêncio profundo, ao nada.
O mar. Naquele seu rugir ensurdecedor fustigava, sem dó nem piedade, os costados da pobre e frágil embarcação. As ondas, num número infinito de não mais acabar, batiam com força e rugiam mais que o leão que nunca vira mas de quem ouvira falar. Às vezes uma onda mais brava e alta lançava um manto de água gelada por cima de todos, há muito encharcados até aos ossos. Era nestas alturas que ele pensava, num relâmpago voraz, que se afogavam de vez.
[…]

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