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MUITA MERDA

MARCOS PORTO
Durante os século XVI e XVII as salas de espectáculo encontravam-se reservadas a uma classe social minoritária que se deslocava através de luxuosas carruagens puxadas por cavalos. Nas noites de espectáculo, as pomposas avenidas das grandes cidades, inundavam-se com a burguesia que drenava pelas plateias espalhadas dentro dos teatros. Na rua ficavam à sua espera os coches lustrosos, e claro, os cavalos. No final, a quantidade de excrementos que os equídeos deixavam para trás serviam como medidor do sucesso de audiência de um espectáculo. Muita merda ainda hoje é sinónimo de boa sorte para os profissionais da área.
Em 1976, Mário Soares, então líder do I Governo Constitucional, automatizou pela primeira vez a Cultura enquanto Secretaria de Estado na dependência directa da Presidência do Conselho de Ministros. Curiosamente e apesar de um fosso temporal quadragenário, o mesmo estatuto que lhe atribuíram Passos Coelho e Paulo Portas na última legislatura.
Três anos mais tarde, desta vez sob a alçada de Maria de Lurdes Pintassilgo a Cultura é agraciada pela primeira vez com o estatuto de ministério, enquanto Ministério da Coordenação Cultural, da Cultura e da Ciência. Lamentavelmente, nos anos que se seguiram a alternância do papel da Cultura no cenário político português oscilou ao sabor dos ventos que ora sopravam à Direita, ora sopravam à Esquerda. Mais do que opções resultantes de uma qualquer ideologia é o preconceito ideológico que alimenta o desrespeito e negligência a Cultura.
Prova disso é a aparente falta de critérios na escolha dos representantes da pasta da “política cultural”, os instrumentos administrativos nesta área foram com frequência construídos de forma amadora e sem se verificar a sua eficácia. Governa-se a olho e rejubila-se a velha máxima “quem tem olho é rei” enquanto o património cultural passa de luxo supérfluo a rosa na lapela.
Com a “Geringonça” em funcionamento desde Novembro de 2015, a Cultura volta a elevar-se ao estatuto de ministério e João Soares é o nome apontado por António Costa para assumir o papel de protagonista.
O seu nome ressoou na imprensa nacional com alguma surpresa. Depois da morte recente de Paulo Cunha e Silva, vereador da Cultura do Porto, ter afastado aquela que era apontada como a solução mais evidente para a pasta, António Costa faz regressar este socialista de 66 anos a um passado longínquo, no seu currículo na área da gestão da cultura destaca-se, entre 1990 e 1995, a vereação desse pelouro na Câmara de Lisboa, que depois veio a presidir (1995-2002). Como vereador, deve-se a João Soares a criação da Videoteca de Lisboa, em 1991, da Casa Fernando Pessoa, em 1993, ou a abertura ao público do Arquivo Fotográfico Municipal em 1994. Foi durante o período em que foi vereador que se deu Lisboa Capital Europeia da Cultura em 1994, na altura presidida por Vítor Constâncio, numa sociedade de capitais públicos que juntava a autarquia e a Secretaria de Estado da Cultura.
O filho de Mário Soares e de Maria Barroso chegou a ser descrito pela opinião pública como “alguém com peso no Gorveno e no partido” assim como “uma pessoa combativa”. Ora, estando a veracidade da primeira afirmação confirmada a olhos vistos, João Soares não poupou em esforços para validar a segunda.
A acção desenlaça-se em volta de um artigo de opinião onde Augusto M. Seabra critica os primeiros quatro meses de governação de João Soares à frente da pasta da Cultura. Analisando casos tão controversos como a demissão de António Lamas do Centro Cultural de Belém (CCB) ou a nomeação de Pacheco Pereira para a administração da Fundação de Serralves, Seabra reprova o “estilo de compadrio, prepotência e grosseria” e diagnostica “uma situação de emergência” no sector cujas raízes atribui já ao governo de José Sócrates. No texto, João Soares é descrito como um “derrotado nato”, referindo-se às suas participações nas eleições autárquicas em Lisboa e em Sintra e para o cargo secretário-geral do PS.
O então ministro da Cultura não conseguiu esconder o seu desagrado e através de um comentário na sua conta da rede social Facebook, recordou: “Em 1999 prometi-lhe publicamente um par de bofetadas. Foi uma promessa que ainda não pude cumprir, não me cruzei com a personagem, Augusto M. Seabra, ao longo de todos estes anos. Mas contínuo a esperar ter essa sorte. Lá chegará o dia”. Mais à frente no mesmo comentário João Soares avisa: “Estou a ver que tenho de o procurar, a ele e já agora ao Vasco Pulido Valente, para as salutares bofetadas. Só lhes podem fazer bem. A mim também”.
Convenhamos que é um pouco inoportuno, que o ministro primogénito do pai da democracia, escolha a repressão física para advertir a comunicação social acerca dos artigos de opinião que considera desagradáveis. Mas como todos sabemos, há merdas que estão no sangue.
Embaixador e poeta, o novo Ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, o ex-representante de Portugal junto do Conselho da Europa em Estrasburgo, entrou em cena no passado dia 14 de Abril, apenas dois dias após da demissão, aceite com “naturalidade”, citando as palavras do próprio primeiro-ministro António Costa.
Desde sempre próximo do PS, o novo ministro da Cultura nunca foi, no entanto, militante do partido, como não o foi de nenhuma outra força política após ter entrado na carreira diplomática, em 1975. A par da sua longa carreira diplomática, iniciada há mais de 40 anos, Castro Mendes vem também mantendo um consistente percurso de escritor, sobretudo poeta, iniciado ainda mais cedo, em 1965, quando vê os seus primeiros poemas publicados em letra de imprensa nas páginas do célebre suplemento Juvenil do “Diário de Lisboa”.
Colocado no Conselho da Europa desde 2012, Castro Mendes fora antes o representante de Portugal junto da UNESCO, em Paris, posto em que substituiu Manuel Maria Carrilho, e que viria a ser encerrado no âmbito da remodelação do Ministério dos Negócios Estrangeiros levada a cabo no consulado de Paulo Portas.
A desvalorização da pasta por parte do anterior Governo trouxe consequências negativas para o sector. Por um lado, pelos reduzidos orçamentos e suas débeis execu

ções orçamentais. Por outro, pela redução da capacidade de negociação e de autonomia tão fundamentais para agilizar procedimentos a nível nacional e internacional, indispensáveis para uma política cultural eficaz, concertada e planeada a médio e longo prazo. Numa luta constante de formação de políticos para a cultura numa perspectiva de contrariar os dados do Eurobarómetro que indicam que Portugal é um dos países da União Europeia com indicadores de acesso e participação cultural mais débeis.

É necessário contrariar anos e anos de longos caminhos sinuosos e garantir à Cultura o estatuto e o respeito que lhe à muito lhe são devidos. É necessário mais peso negocial em Portugal e no estrangeiro. A fatia do Orçamento de Estado dedicado à Cultura para 2016 encontra-se muito longe de atingir os níveis desejados. Com uma tarefa homérica pela frente Castro Mendes já recordou que “a política é a arte do possível”.
O mundo das artes cada um representa um papel a desempenhar e o de Castro Mendes esta longe de ser um dos mais fáceis. Cabe-nos a nós desejar-lhe com toda a sinceridade “muita merda”.

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