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A ÉTICA KANTIANA, A FELICIDADE, OS AFECTOS… E OS GATOS

A MIA ESTÁ DESAPARECIDA HÁ QUASE 15 DIAS 
REGINA SARDOEIRA 
Kant, um filósofo que me apraz citar quando o tema são os valores éticos, definiu assim a felicidade: 
É um estado tal em que sempre o querer coincide com o dever. 
Partindo do princípio que, para Kant, o dever é o respeito pela lei, que a lei se impõe de forma categórica, como um imperativo (sendo originária da razão humana) e que o homem alcança a sua real dimensão, ultrapassando os mobiles da sensibilidade e regulando-se a si próprio, enquanto pessoa (legislando as normas da sua acção), detectamos aqui, desde logo, a necessidade de um constrangimento, de si para si mesmo, já que o homem é animal e, nessa medida, não lhe é possível subsistir ignorando as pressões biológicas, e logo sensíveis. 
Cumprir o dever reitera a nossa dimensão maior, a de pessoa, mas não exclui a premência biológica, a necessidade de lutar pela vida, em ordem à subsistência. Ora, sendo dual a natureza humana, percebemos que, diariamente, somos confrontados com a necessidade de escolha entre os instintos primários da animalidade e os ditames superiores da nossa razão. Percebemos ainda que escolhemos, inúmeras vezes, os instintos animais em detrimento das ordens da racionalidade e que nos sentimos felizes pela e na transgressão: quando ignoramos o dever, mesmo conhecendo -o, quando nos entregamos ao vício ou à dissipação, mesmo sabendo não serem essas as condutas apropriadas. 
Tenho um profundo respeito pela ética deontológica de Kant, entendo-o plenamente quando desvincula a acção por dever da acção em conformidade com o dever e vejo que a verdadeira dimensão humana se encontra, por inteiro, nesta concepção de homem. Todavia, quando penso em felicidade, percebo, à saciedade, que esta ética rigorista, absolutamente enraizada no cumprimento da lei e no dever, como lei em si mesmo, não conduz a semelhante estado. 
Evoco e rememoro sem cessar o tipo de sentimento que liga os homens a outros homens, vejo como todos buscam a felicidade, uns através dos outros, e percebo que não é o altruísmo que nos faz amar aqueles a que chamamos “o próximo”, mas antes uma grande necessidade de satisfazer instintos e impulsos, quantas vezes à revelia daqueles que consideramos amar. 
Juntam-se dois seres humanos que dizem amar-se. Mas cada um pensa, quase exclusivamente, no prazer que lhe dá aquele que julga amar, na falta que lhe faz, quando não está presente, o eleito da nossa afeição. Se o imaginamos a passar o tempo com outro, mesmo que ele se sinta, desse modo, feliz, somos, de imediato, mordidos pelo ciúme, não temos sossego e castigamo-lo por isso. 
Quantas vezes a nossa felicidade se constrói à custa dos outros, aqueles que dizemos amar e que, a maior parte das vezes, na verdade, desconhecemos! 
Até há dez dias atrás, tinha comigo a pequena gata Mia, dava-lhe a minha casa, a minha atenção, o meu afecto. Tornou-se a minha companhia dilecta, tanto mais que fico sozinha a maior parte do tempo, e nela depositei o fervor dos meus sentimentos de amizade, de carinho e de tudo o que, enfim, considero ser o amor. 

Acreditava que, ao seu modo de gata, ela me correspondia, devolvendo-me afecto; e ainda que, estar aqui, comigo, privando do meu espaço, era tudo o que de melhor ela poderia almejar – se pudesse fazê -lo. Quando, na madrugada de 19 para 20 de Maio, sem que eu o suspeitasse, ela se ausentou, descendo pela varanda e deixando-me, até hoje, precisei de reequacionar o meu afecto por ela. 

Faltava, ao seu espírito animal, a conquista da aventura, ela não conhecia o mundo que muitas vezes observou daqui, por detrás da vidraça. O seu temperamento ousado e aventureiro que, dentro de casa, a levava a trepar pelas cortinas para chegar mais acima e depois a querer ir mais além e, quem sabe?, a caminhar pelo tecto, pendurada de cabeça para baixo, mas em luta com as leis da gravidade, tê-la-á conduzido nessa noite, à exploração do mundo para lá da confinação de um pequeno pátio, esse mundo cheio de ruídos, de movimentos, de odores que a força do meu afecto lhe haviam sonegado. 
Quando descobri a fuga, na manhã seguinte, quis acreditar, primeiro, numa queda. Se ela tivesse caído do parapeito da varanda, eu tinha razões para me compadecer e para procurá-la incansavelmente, como tenho feito. Mas, e se ela, muito simplesmente, tivesse querido aventurar-se um pouco mais além? Talvez não tanto como acabou por acontecer, pois o bafo desse outro mundo ignoto foi, decerto, um pouco demais; porém, ela tinha o direito, enquanto ser da natureza e soberanamente livre, de experimentar os seus limites. 
Todavia, escrevo estas palavras e interrogo -me: será possível que a minha gata Mia tenha subido ao parapeito da varanda, pelas horas silenciosas da madrugada e “decidido”, muito simplesmente, fazer uma escalada, rumo à sua liberdade? O seu cérebro, considerado incipiente, por ser felino, pôde, naquela hora, “escolher” a descida para um universo de onde havia sido, por mim, excluído? Terá desejado voltar, depois, quando a fome, o frio, o medo se lhe apresentaram sem uma solução pronta e, muito simplesmente, não encontrou o caminho? 
Aparentemente, não é possível que um gato seja capaz desta teia complexa de congeminações. Não consideramos credível que os gatos tenham o poder de escolher o seu destino e sentimo-nos muito generosos porque tomamos conta deles e lhes oferecemos um lar. Por isso, a minha primeira reacção foi imaginar que a Mia escorregou e caiu e recriminar-me por ter deixado abe

rta a réstia de espaço que lhe permitiu aceder ao ar livre. 

Tenho deambulando por aqui e por ali, nas redondezas, a ver se a descubro. E vou pensando que, afinal, eu é que preciso dela, eu é que me tornei dependente do seu pequeno ser do qual me havia apropriado! Eu é que a escolhi para me servir de companheira e tomei posse dela a ponto de lhe chamar “minha”! 
Desejo que ela regresse, embora não consiga imaginar, com que poderes descobrirá o caminho de volta. Estou sempre à espera de a ver surgir de um esconderijo qualquer e manifestar que me conhece. Mas digo muitas vezes a mim própria, tentando cumprir o preceito kantiano: se ela estiver bem (se for feliz), a despeito da falta que me faz, se o sítio que encontrou e onde vive (se é que vive), nestes dez dias entretanto cumpridos, eu tenho que alegrar-me por ela e festejá -la porque quebrou amarras de encontro ao seu destino. 
Para todos os efeitos, a Mia, quer apareça, quer não, deu-me uma lição, a mim, que tenho vivido, invariavelmente, com um ou dois gatos e observado que, todos eles, saíram, um dia, por esta mesma varanda ou por uma janela (para regressarem algum tempo depois). Os animais, sejam ou não domésticos (ou de casa, como lhes chamamos) têm intrínseco direito a fruírem da sua natureza em pleno, a explorarem os territórios para que os chama a sua vontade ( ou o seu instinto, se vontade parecer uma redundância minha). E então, se a Mia voltar, há -de ter a porta aberta para ir e vir sem precisar de vencer obstáculos, como a descida da minha varanda do segundo andar lhe terá proporcionado. 

Fará algum sentido, para quem me lê, este conjunto de pensamentos em que articulo a ética kantiana, os afectos, a felicidade e os gatos?

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