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EM BUSCA DA UNIDADE NA DIVERSIDADE

JOANA BENZINHO 
Na Guiné-Bissau coexistem entre 20 a 40 etnias e pequenos subgrupos étnicos, cada um com as suas características, a sua origem histórica ou religiosa e a sua forma muito própria de comunicação. Não estarão separados de forma estanque na geografia do país mas há uma tendência clara para se concentrarem mais numa região ou outra, em função das actividades económicas que exercem e da história que os fixou naquele canto da África Ocidental.
A etnia Fula, predominante no país, vive essencialmente no Leste da Guiné-Bissau – dedica-se ao pequeno comércio e à criação de animais e não é raro cruzarmos naquela região grandes manadas de vacas que erram pelos campos verdejantes com um ou outro miúdo a controlar-lhe as deslocações. Esta etnia marcadamente muçulmana tem uma língua própria que é de resto o meio de comunicação privilegiado. Talvez pela sua ligação aos portugueses durante o período de colonização não é no entanto raro encontrar em tabancas (aldeias) isoladas, bem próximo da fronteira com o Senegal pessoas que falam um português perfeito.

Já os Balantas podem ser encontrados a norte e no sul do país. Esta etnia de dedica-se predominantemente à agricultura, mais especificamente à cultura do arroz nas bolanhas o que explica a sua preferência pelas zonas costeiras. Como os Fulas, os Balantas são maioritariamente muçulmanos e igualmente detentores de uma língua própria, aliás, uma das cerca de 20 línguas africanas existentes no país, mais ou menos coincidentes com as etnias mais representadas. Também no norte da Guiné vivem os Mandingas, conhecidos pela sua aptidão para a agricultura e com tradições muito vincadas. 

Na zona de Biombo, a etnia Papel e a sua cultura são dominantes e contemplam-nos com as suas bolanhas de arroz que matizam de verde os campos húmidos da região a par dos hectares de cajueiros que pela primavera se pintam de frutos vermelhos e amarelos. Esta é uma
etnia marcadamente animista, como de resto os Manjacos ou os Bijagós (originários do arquipélago com o mesmo nome), etnias que dedicam uma parte importante dos dias do ano a cerimónias. Entre os Manjacos, uma etnia com fama de gerar bons cozinheiros (o que já comprovei) e que tem uma língua bem distinta das restantes, as celebrações a cargo dos homens decorrem em locais sagrados em plena natureza onde as mulheres não podem entrar sob pena de morrerem, o mesmo se passando com os lugares de culto que a estas são exclusivamente destinados e onde está interditada a entrada de qualquer elemento do sexo masculino. Estas cerimónias determinam muitas das acções e das decisões do seu quotidiano, revestindo-se da maior importância para os Manjacos.
Os Bijagós, pescadores por excelência, trazem a sabedoria dos seus antepassados para o dia a dia através dos seus locais sagrados e as suas tradições animistas presentes em cada acto da vida. Seja nas colheitas, nas decisões a tomar na regulação dos problemas da aldeia, na iniciação da vida adulta dos rapazes (o Fanado), na escolha do par para o casamento, tudo passa por momentos de comunhão com os antepassados que encarnam nas árvores, nos objectos sagrados, na farta natureza envolvente.
A etnia Felupe, também detentora de uma língua própria, pode ser encontrada na zona fronteiriça com Casamansa/Senegal e carrega em si toda uma tradição guerreira que faz dos Felupes caçadores exímios com o seu arco e flecha e um grupo étnico temido.
Estas e outras etnias que aqui não serão referidas, com as suas línguas e dialectos, convivem por vezes de forma distante ou mesmo desinteressada com o português e com o crioulo. Um fenómeno perturbador e difícil de entender para quem tem, como nós, na língua a sua pátria.
Apesar de ser a língua oficial da Guiné-Bissau, o português apenas é dominado e falado por cerca de 13% dos guineenses. Aqui usa-se o crioulo como língua franca nacional e as chamadas línguas africanas (cerca de 20 dialectos) como forma de comunicação privilegiada dentro de cada etnia. No entanto, o crioulo apesar de generalizadamente falado não é um veiculo universal de comunicação entre o milhão e meio de habitantes. Na realidade ainda há regiões e comunidades que apenas falam o dialecto da sua etnia, como é fácil comprovar quando nos afastamos da capital ou dos centros urbanos e se fazem incursões até no interior, no Leste ou na Guiné profunda. É neste contexto e a meu ver essencial reforçar laços, apostar no aprofundamento dos conhecimentos linguísticos, dar ferramentas intelectuais à população para que neste país rodeado pela francofonia, o português possa constituir uma mais valia para a sua afirmação económica, social, política e comercial fora de fronteiras. O crioulo e as línguas nacionais são naturalmente cruciais na marca da sua identidade e da sua matriz étnica mas uma língua comumente falada e internacional/internacionalizável poderá constituir o elemento diferenciador da Guiné-Bissau relativamente aos países envolventes. Neste caso, o português, a língua oficial do país.

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