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ESCRITA CRIATIVA? NÃO, MUITO OBRIGADO.

ALVARO GIESTA
Sem pretensões a coisa nenhuma, muito menos atribuir-me a ónus do saber, atrevo-me, assim, a interrogar os arautos e defensores daquilo a que chamam «escrita criativa». E porquê? Já lá vamos…
Dizia há dias em entrevista ao JL o escritor Mário de Carvalho – um dos marcos mais importantes da nossa praça literária, diga-se, em abono da verdade – que nos seus tempos de liceu a fórmula química do ácido sulfúrico era SO4 H2. E acrescenta, era esta «a fórmula mágica dos cábulas». Também foi a minha nos temos áureos dos finais dos anos 60… não havia, nesse tempo, estudante que a não conhecesse.
Hoje inúmeras são as obras sobre escrita criativa – obras atraentes por fora mas com conteúdo inócuo, por dentro – que proliferam pelos escaparates das livrarias e, mais ainda, em anúncios nas famigeradas redes sociais, apontando ao aprendiz de escritor «fórmulas mágicas» de escrita. Aqui comungo da ideia do que nos diz o mestre Mário de Carvalho: essas obras são demasiado «normativas» como se isso, para se ser escritor, bastasse; guiar-se pelo «assertivo» dessas obras, quando, afinal, o aprendiz a escritor necessita mais do que manuais, para ser aquilo a que aspira.
Tais propostas dos arautos dessa escrita e workshops, até me levam a crer que, qualquer dia, ainda indicam este ou aquele dicionário apregoando que, comprando-o, é suficiente para ficarem a saber de português.
Esquecem-se de dizer aos aspirantes a escritor, esses vendedores de escrita criativa, que se quiserem ser verdadeiramente escritores, têm que fazer duas coisas: a primeira, ler, ler e ler as obras dos bons autores, massacrar-lhes (no bom sentido) as obras com anotações (e é para isso que servem as margens dos livros, hoje quase desaparecidas pela política economicista) quando lhes descobrimos (a esses bons autores que se lerem) «mecanismos» e outras «subtilezas» que nos ajudam a descobrir os tramas da obra e como o autor os enquadra no desenrolar da história (estória) que nos conta; a segunda, de que o aprendiz de escritor não se deve esquecer, muito menos prescindir, de perscrutar o interior da obra que lê e vislumbrar que no decorrer da escrita está sempre a encontrar o diferente e a descobrir o novo. Logo, não se deve deixar ir por «carreiros batidos» como aqueles que nos apontam certas fórmulas mágicas da escrita criativa. Devem na sua escrita, isso sim, procurar «produzir» de forma a surpreender o leitor. É esta aquela que eu considero ser a melhor fórmula mágica da escrita.
Já em tempos escrevi que o escritor, se quer mesmo merecer o título de escritor activo, deve exercer sobre o leitor um sem número de impressões variadas, embora de resultados controláveis. Nunca procurar produzir no leitor emoções negativas nem embaraçosas, para que ele não feche o livro a meio do mesmo e o abandone esquecido em qualquer canto menos aconselhável. O escritor deve prever, na sua arte de escrever, a possibilidade de causar boas impressões ao leitor. E eu sublinho: na sua ARTE de escrever!
Objectar-me-ão, e sei que há muitos escritores que o farão, que as verdadeiras obras de arte se fizeram sem cálculo; que é o instinto criador que prevê e pesa tudo aquilo que julga ser «imprevisível e imponderável»; que a verdadeira obra de arte é feita inconscientemente. Pois, será. Mas… eu creio que um bom escritor não é o génio que escreve febrilmente sob a ordem das musas. Até escreverá, se assim quiserem, se bem que eu não acredito em musas; sequer em inspiração. A inspiração não existe. Existe é a criação e esta deve ser feita com Arte. Poderão haver momentos, na vida do escritor – e até serão os mais produtivos literariamente – difíceis pelo sofrimento, pela interrogação, pela ausência, pela falta, pela busca, pela inquietação que os levam a produzir com sã loucura mas sem recurso a qualquer fonte externa que lhes não dita seja o que for, que vá para além do que sentem nesses estados de alma em que criam. Lembro-me, a este propósito na poesia, de Antero de Quental, por exemplo, o poeta filósofo de personalidade complexa que oscilava entre a euforia e a mais profunda depressão – ele escrevia de forma assaz estranha; os melhores sonetos fluíam-lhe, espontaneamente, altas noites luarentas em devaneios pelo Choupal. Sonetos que – e é das memórias de quem as deixou para a posteridade – a maior parte das vezes os seus colegas se encarregavam de guardar. Mas, mesmo que aquele que cria produza com facilidade e sem retoques no que escreve, o cálculo, a arte, têm sempre uma palavra a dizer.
O pacto que há com o leitor, é o escritor dar o melhor de si. E, afinal, o que pretende o escritor, a par de vender as suas obras? Não é tornar-se conhecido? Não é tornar-se famoso? E, para o ser, não tem que inovar (?), descobrir (?), transmitir (?), passar a mensagem ao leitor (?) sem a necessidade de correr tertúlias onde meio mundo presente nada tem de cultura literária… de bater workshops onde o que neles se diz «não vai além dos chavões que compõem as primeiras páginas», de fazer presenças com a finalidade de captar simpatias para comprarem a bonita capa de fraca obra!…
Apregoam originalidade e forma rápida de escrever um romance as obras que vendem escrita criativa, como se fosse a banha da cobra para fazer o milagre da cura – a originalidade está na habilidade do escritor em criar o efeito que seja capaz de cativar o leitor. E, para isso, não se aprende com as «fórmulas mágicas» desses manuais – aprende-se com a sua capacidade criativa, sim, mas depois de muito ler os bons autores e reescrever, as vezes que forem necessárias, aquilo que antes se escreveu.
Posso aqui referir, como mera curiosidade, que antes de fazer seguir para a editora qualquer obra minha, já depois de as reescrever quatro ou cinco vezes, ainda procedo a emendas e alterações em mais uma ou duas pré-impressões que faço já no formato que alinhava o final. Porque, nada me sai para a rua sem ser executado com arte. E, a arte, exige aperfeiçoamento constante. Escrever é uma arte. E, para ser arte, é necessário fazer como o escultor que cria a figura a partir da pedra em bruto – cinzelá-la, burilá-la até lhe subtrair as arestas da imperfeição. É assim o meu entendimento desta lavra da palavra…
Então, porquê o meu «não» à escrita criativa? Ou, pelo menos, um «não» àquilo que certa escrita criativa propala como útil e necessária a quem quer escrever o seu primeiro conto ou romance. Simplesmente porque não há segredos

nem «fórmulas assertivas» onde o escritor se possa basear com rigidez e propriedade para a sua criação literária. E, como diz o escritor Mário de Carvalho «banha da cobra» há muita a pretender vender-se aos aprendizes a escritores como se ela fosse a fórmula mágica para escrever.

Estes criadores de workshops e livros enfeitados com propostas de ensinar a escrever, estão repletos de «citações de escritores célebres» que, com o futuro assegurado como escritores consagrados, que são, escrevem tudo quanto lhes vem à cabeça. Hoje duma forma, amanhã de outra. Ora, a tais citações afirmativas, que os mágicos da escrita criativa colam nos seus ensinamentos, tidas como fórmulas mágicas para escrever, não se lhes pode dar credibilidade como definitivas porque, mais cedo ou mais tarde, elas acabam de ser contraditadas pelos seus autores. Ninguém fica apto a escrever um romance no final dum curso/workshop de escrita criativa! Posso afirmá-lo por experiência própria! Como ninguém fica apto a dominar uma língua só porque comprou o melhor dicionário do mercado. Não! O importante, mesmo necessário, é ler, ler e ler obras de bons autores, anotar nas suas margens os mecanismos da escrita usados pelo bom autor que se lê e descobrir as subtilezas usadas na sua arte de construção literária. Não tenham ilusões os aspirantes a escritores – ninguém fica apto a escrever um romance, sequer um bom conto, de um momento para o outro, só porque se leram uns livros de escrita criativa ou se assistiu à projecção de uma dúzia de slides em workshops feitos para vender essa «banha da cobra».
Diz-nos, a este propósito, o nosso autor consagrado Mario de Andrade, cujas obras eu aconselho a ler: «é praticamente impossível alguém ser um razoável escritor sem ter lido muito». E vem-me agora à memória o que, há algum tempo atrás, eu perguntava a um desses escritores actuais, feitos no facebook, e já com quatro ou cinco livros editados, que pretendem ser razoáveis mas que, dificilmente passam do medíocre, publicados por uma recente editora que nem revisor tem, perante a admiração que lhe causou ver uma parede de quase sete metros de comprido por três e meio de pé direito, recheada de livros a encher as suas seis prateleiras, depois de ele, numa visita que me fez, ter folheado vários livros de Pessoa, Vergílio Ferreira, António Lobo Antunes, Urbano, Garcia Marquez, Franz Kafka – fico-me pelos da curiosidade dele – e ter achado que eu os estragava sublinhando linhas completas de texto e rabiscando anotações várias nas suas margens. «Então, amigo, tu não aprendes a escrever lendo, rabiscando, anotando nos livros que lês?», perguntei-lhe, ao que me respondeu «eu? eu quase não tenho livros, quase nem leio livros, o que escrevo é o que me vem à cabeça… se acordo de noite para ir à casa de banho e me lembro de algo, de imediato escrevo e assim vai para a minha editora». Deixou no ar aquilo que a maior parte dos contemporâneos de algibeira, melhor, dos escritores facebokeanos fazem…
Ora, efectivamente, «não passará de razoável escritor aquele que não tem um pecúlio mínimo, um acervo com boas obras» – e não apenas com encadernação a ouro para dar beleza às prateleiras – a partir do qual se direccione para a escrita não sem que antes se tenha embrenhado na sua leitura. Um escritor que pretenda ser bom, não se pode deixar ir, apenas, pelas normas instituídas nos manuais da escrita criativa. Porque aquilo que nelas se ensina hoje como válido, amanhã se contradiz – ainda que seja o mesmo autor a fazê-lo.
Alguns livros que por aí aparecem e, hoje, aos montões, pelos inúmeros escritores que surgem como se nascessem dum alfobre semeado em estufas, revelam, a par do conteúdo deficiente, «autores ingénuos» – para não lhes chamar autores medíocres, que não me cumpre a mim classificá-los – porque antes de escrever «não interiorizaram os mecanismos da escrita, nem passaram por uma tradição literária», deixando-se ir pela banha da cobra vendida nesses títulos criativos. Mais se assemelham àquelas refeições que se compram pré-cozinhadas e que, para serem consumidas, basta dar-se-lhes a cozedura final no micro-ondas que lhes retira o pouco sabor que de si já tinham. Lá cozidos os alimentos, que já vinham pré-cozinhados, ficam. Mas o importante é o sabor do refugado e apuramento que não tiveram de mão de cozinheira competente.

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