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TARECA, A GATA QUE ME ENSINOU A SER MÃE SUBSTITUTA

REGINA SARDOEIRA 
Hoje vou escrever sobre gatos. 
Sou, decididamente, atraída por estes animais misteriosos, imprevisíveis, ora distantes, ora tão familiares e próximos que parecem tudo saber, animais de uma beleza e dignidade tão grandes, que não resisto a trazê -los para casa e fazer deles os meus companheiros. 
Falo assim porque já vivi com vários animais felinos – e todos deixaram a sua marca indelével na minha vida.
Depois do desaparecimento trágico da Mia – uma gata siamesa, de olhos muito azuis e temperamento fugidio perante todos que não conhecia – imbuída ainda do profundo desgosto que a ausência dela deixou em todos os sítios da casa(e em mim), acedi, um pouco hesitante e a contragosto, de início, a trazer comigo um pequeno ser, ainda bebé, cujo futuro não seria nada promissor, nas condições em que foi dada à luz. 
Vejo nela muitos sinais da Mia; ao mesmo tempo, percebo que esta não substitui a outra, percebo que ela tem a sua individualidade própria e que, aos poucos, vai granjeando o seu lugar aqui. Se a Mia regressar, farão companhia uma à outra (porque, desde que um dos meus gatos desapareceu durante quase um ano, e depois surgiu, sem que eu faça a menor ideia por onde andou, e aqui ficou até morrer com 17 anos, nada me espanta no comportamento destes animais admiráveis.). 
TARECA ADORA ESCALAR CORTINAS
Decidi chamar Tareca a esta siamesa bebé, tão pequena que procura a minha orelha para suprir a ausência da mãe e mamar (assim mesmo e com um prazer genuíno) em homenagem a uma outra Tareca que deu à luz, aqui em casa, duas ninhadas, das quais saiu o meu penúltimo companheiro – esse que foi e veio, ficou e depois morreu. 
Ser mãe substituta de uma gata é uma experiência única. Várias vezes pensei que talvez fosse prematuro trazê -la, assim, carente do aconchego da gata-mãe e impor-lhe a minha presença, decerto gigantesca, mas a que ela se adaptou desde o primeiro dia. Mas a Tareca é, em simultâneo, um ser muito activo e já independente, capaz de reconhecer os espaços e fazer deles o uso necessário. Ágil e comunicativa, percorre todos os sítios em passo de corrida, salta com as quatro patas quando brinca, e, no termo desse intenso exercício, procura o meu colo (e a minha orelha…) e dorme. 
TARECA, COM CERCA DE 2 MESES
EM QUE ESTARÁ A PENSAR?
Muitas vezes questiono o modo como nós, humanos, nos apropriamos destes seres e os adoptamos, fazendo deles membros da família, dando-lhes nome, alimento, abrigo e afecto. Penso que, do ponto de vista deles (se acaso têm algum), decerto amariam mais a liberdade de descobrir o seu próprio universo e viver dos seus próprios recursos. Tenho a intuição (decerto fantasiosa) que foi essa liberdade que procurou a minha gata Mia, quando, há exactamente um mês, saiu pela varanda e se lançou no desconhecido. Não posso condená – la por ter querido(se é que quis) experimentar os odores e as presenças que o ar de fora lhe sugeria; mas, sei que a forma como a criei durante um ano, lhe vedou a possibilidade de regresso ( se acaso quis regressar, nestes trinta dias). Entreguei-a, então, à natureza. 
Depois, recebi a Tareca, ciente de que, no mundo em que ela nasceu, precisava de um lar humano que lhe garantisse sobrevivência e dignidade. E vendo-a dormir no meu colo, enrolada sobre si mesma e segura, percebo que fiz bem. E congratulo-me.´
À SOMBRA É QUE SE ESTÁ BEM

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