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BIRD Magazine

UMA CASA, DOIS GATOS E AFINS

ELISABETE SALRETA
A nossa empatia para com os animais é mais do que evidente.
Basta querer olhar para eles com os olhos da alma e vemos que são como nós. Retribuem-nos com o que lhes dermos. Vêm-nos como semelhantes calmos que substituem os pais e aprendem a melhor maneira de chamar a nossa atenção e de nos agradar. Somos como família para eles, nós é que não temos a humildade de os considerar como integrantes do mundo que partilhamos.
Cá em casa sempre existiram animais de todas as espécies. Aprendemos a conviver tanto com os clássicos animais de companhia, como os de quinta e alguns exóticos. Todos nos ensinaram. Todos entraram aqui em casa com uma história e em maior parte dos casos, fomos a salvação deles. E deram-nos tanto…
Jorge.
Tudo começou com uma brincadeira. Fomos de férias ao Algarve, em grupo, um carro cheio. Acabamos por trazer mais um elemento connosco. 
Sítio da Arte Nova. Uma rua familiar, sem saída e sem asfalto. Areia, pitas e amendoeiras. No quintal de uma das casas, a de madeira, à sombra de umas amendoeiras e aninhados debaixo de um velho barco, uma pata gança fez o seu ninho, num monte de velhas redes e linhas de pescas. Pequenos tufos amarelos com umas pontinhas brancas evidenciavam-se naquele emaranhado. Apaixonei-me de imediato. Acabaram por colocar um petiz nos meus braços no dia da partida. Veio dentro de uma caixa de papel e foi agraciado com muitas festas durante todo o caminho. Aqueles patudos são muito moles quando pequenos, longe do que se tornam em adultos. Tem uma penugem muito macia que apetece acariciar.
Cresceu e tornou-se um belo juvenil de uma brancura sem fim e uns penetrantes e meigos olhos azuis como o céu. Chamava-lhe a minha almofada. Constituiu família e chegamos a ter um bando de 7 ganços. Era imponente vê-los em conjunto a esticar as asas, numa envergadura bruta. Metia respeito. Tinha uma postura de lorde, de pescoço erguido a dar conta de tudo o que o rodeava.
A minha filha era bebé e ficava sentada numa manta no quintal a brincar. Sempre que alguém entrava e que não pertencia à casa, os patos rodeavam a menina, em protecção, com os pescoços esticados a assoprar. Nunca mostraram qualquer agressividade para com ela. 
A pior época em que mordiscavam as botas de quem entrasse na capoeira era em Março e abril, quando as patas estão no choco. Sabia-mos que era mera protecção. 
Tinha-mos um Perdigueiro Português que desafiava o Jorge. Um dia entramos no quintal e deparamo-nos com mais uma luta entre os dois, já em fase final. O cão estava de quatro em cima do pato e agarrava-o pelo bico. Dessa luta resultou um pouco de serrilhas a menos naquele bico. 
Compramos um terreno e foi a delícia daquele ser. Patrulhava o batatal em busca de escaravelhos e outros bichinhos e eu ria-me a vê-lo saltar as plantas com aquelas grandes pernas. Adorava beijinhos no pescoço. Sempre que era solto, patrulhava as estremas da terra que sabia ser a sua, parecendo um senhor feudal em revista às suas terras. Quando o chamávamos, voltava. Sem stresses. 
Dia 29 de janeiro de 2007 nevou e ele muito intrigado, olhava para os pés cobertos. Deambulava pela brancura que o rodeava, admirado. Foi a única vez que o meu Algarvio viu neve na vida dele. 
Gostava que falasse-mos com ele. Provava-nos com o bico, sem aleijar. Parecia fazer as queixinhas do tempo em que lá não estávamos. Enquanto conversava comigo eu fazia-lhe festas no peito, pescoço e asas. Quando eu tinha visitas, admiravam-se porque os ganços têm má fama e este deixava que lhe tocasse. Deixava a mim. As restantes pessoas eram tratadas à dentada esporadicamente. Só para impor respeito.
Comia sofregamente o pão que lhe levava e deliciava-se com as couves de que se ia alimentando pela horta. Sabia ingerir os phisalys maduros, deixando a casca ainda na planta. 
Era um excelente guardião, principalmente das suas meninas (fêmeas) e filhotes. Notava-se que era um chefe de família e mostrava amor por quem o rodeava. Desapartava as brigas dos galos da capoeira. Parecia ralhar com eles com aquele pescoço esticado a assoprar de língua em riste. Chamava-lhe de aspirador.
Já velhote, deixava-se ficar deitado ao sol. Quando me via, vinha a coxear até mim para a nossa “conversa” e eu massageava-lhe as pernas doridas, secas e já tão tortas. Aos poucos perdiam o seu amarelo brilhante, ficando agora de um tom desmaiado.
Deixou-nos com muita saudade e com cerca de 20 anos num dia de sol de março de 2014.
Não custa ser gentil com quem partilha a terra connosco. Afinal, colhemos o que semeamos.

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