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O PORTO DE MANOEL DE OLIVEIRA

ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA 
Manoel de Oliveira protagoniza uma forte e inexplicável ligação ao Porto. Projeta, em Douro Faina Fluvial (1931), Aniki-Bóbó (1942), O Pintor e a Cidade (1956),) e Porto da minha Infância (2001) uma relação especial entre a cidade e o universo cinematográfico. O Porto de Manoel de Oliveira torna-se um discurso fílmico, num percurso estético sem fronteiras entre ficção e documentário. O Porto constitui-se como a arquitetura do próprio filme tornando-se personagem, título, espaço máximo de reflexão arquitetónica e cinematográfica. É uma cidade transformada pelas múltiplas câmaras cinematográficas de um só Mestre.
Em Porto da Minha Infância, Manoel de Oliveira escolhe os espaços sociais e culturais que o marcaram enquanto jovem e enquanto cineasta. Escolhe o Porto dos espaços míticos, como a Torre dos Clérigos, e o Porto dos espaços misteriosos dos clubes noturnos. Os planos panorâmicos das fachadas exteriores conduzem-nos aos ambientes musicais e à ficcionalização das atitudes nos interiores do Palaceou do Clube do Porto. Os jardins da Cordoaria, do Palácio de Cristal e de Santa Catarina tornam-se um espaço obrigatório de recordações de enamoramento e de fascínio por primas, flores e automóveis, definidos em imagens de arquivo de um palácio desaparecido. Os cafés, apresentados em planos fixos de fotografias antigas, a preto e branco, ou sugeridos em ténues movimentos de câmara, sugerem a tertúlia e a criatividade: o café Palladium representa o seu arquiteto, Marques da Silva; o Café Central projeta a relação com Adolfo Casais Monteiro e o Magestic enuncia a criação, em 1934, do argumento de Os Gigantes, o filme que nunca foi rodado.
Em todos os filmes analisados, o cineasta projeta os dois olhares da cidade num contínuo dissipar de diferenças entre o Porto visto do cais de Gaia e o Porto refletido no seu interior.
No diálogo entre os dois espaços inevitáveis sublinha-se a carga simbólica e também inevitável das pontes. Porto da Minha Infância apresenta travellings pela ponte D.Luís e um travelling pelo novo viaduto da marginal ribeirinha. O Pintor e a Cidade está repleto de planos geométricos da mesma ponte, de observações cinematográficas e pictóricas da ponte D. Maria e de planos de detalhe e de homenagem de um contacto com o passado definido no desastre da Ponte das Barcas. A geometria da ponte orienta a velocidade e a simetria dos enquadramentos em Douro Faina Fluvial transformando-a num intenso protagonismo e omnipresença.
As torres e os detalhes barrocos de igrejas e estátuas denunciam um Porto de pináculos vistos de Gaia e observados ao fundo de ruas e de praças: torres e sinos ocupam planos e projetam olhares entre o passado e o presente. Um olhar que escolhe essencialmente o universo inconfundível da Torre dos Clérigos em panorâmicas e detalhes de cinzel e o Porto da Minha Infância define o esbatimento de fronteiras entre documentário e ficção na análise da escalada observada pelo jovem Oliveira. Nesse processo de montagem paralela, a torre torna-se o símbolo do inatingível e da coragem observada e adorada pela população.
No percurso dos espaços, a carga seletiva de Manoel de Oliveira confere protagonismo ao emaranhado das casas. Porto da Minha Infância inicia a sequência projetando a casa como um elemento primordial do olhar sobre o mundo – “o fantasma da casa onde nasci”. É a relação da casa com o tempo, com a memória e com a cidade. Douro Faina Fluvial projeta a geometria das casas em plongées e planos panorâmicos; telhados, janelas e chaminés definem cargas e descargas, descansos efémeros e carregamentos pesados, velocidade e dureza do trabalho. O Pintor e a Cidade enuncia o emaranhado altivo e veloz de monumentos e edifícios emblemáticos e o emaranhado colorido e estranho das casas populares da Ribeira inevitavelmente ligadas ao movimento ondulante e também colorido da roupa a secar, omnipresente em todos os filmes analisados.

Ao lado das casas, outra realidade portuense define planos e enquadramentos: as inconfundíveis escadarias que marcam a dúvida, a curiosidade, a perseguição e o encantamento em Aniki-Bóbó: o lojista segue os miúdos ao longo das escadarias na sequência do acidente do Eduardito, os miúdos correm e divertem-se nas escadarias e a escadaria final é o espaço privilegiado da consagração da amizade entre Carlitos, Teresinha e a boneca da Loja das Tentações.

Porto da Minha Infância é a simbiose entre a memória e a criação cinematográfica – “tudo ficou esquecido. Na minha triste memória tudo continua vivo”. O percurso de planos fixos, a preto e branco, de fotos antigas e a presença ficcional de movimentos de câmara coloridos define o processo proustiano da memória nas sequências da Confeitaria Oliveira onde se espelha o caráter efémero do prazer dos doces transformados em inestéticas peças de roupa e na recordação dos passeios, depois do jantar, pela Avenida das Tílias. O percurso da memória encontra o cinema quando o relato do enamoramento pela prima conduz aos momentos Carlitos e Teresinha de Aniki-Bóbó. A relação entre as imagens exige os repetidos “hoje é isto” e “lembro-me”.

O Porto, em Manoel de Oliveira, constitui-se como a arquitetura do próprio filme. É personagem, título, espaço máximo de reflexão arquitetónica e cinematográfica. O Porto de Manoel de Oliveira é uma cidade montagem, uma cidade plano, uma cidade-enquadramento e uma cidade-movimento de câmara. Tal como o Douro, o Porto de Manoel de Oliveira é a metáfora do próprio cinema.

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