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DISPERSÕES

ISABEL ROSETE
[em ironia(s) ou não] – dialogando com Fernando Pessoa e Álvaro de Campos -, por Isabel Rosete & IR [quiçá por todos os meus Eu(s), sejam eles quais forem, conhecidos ou desconhecidos por mim e por vós]

APLAUSOS:
1. À morte do Poeta Nu, que Nu não morreu, por fingir Nu não-ser no enfado da sua angústia existencial, inquietantemente desmedida, na despersonalização e consequente proliferação de tantos de si, na solidão da ausência Amor que, sem fingimento, não se deu;
2. Ao Amor desperdiçado, dilacerado em todas as veias já secas; às lutas inglórias por um Amor que se quer ter e não se tem, mas que se vislumbra nas orlas das parias desertas, na beira de qualquer rio próximo ou incógnito, a um tempo só;
3. À Morte do Amor que se fixa, sem se fixar, num virtual que de virtual não passa; ao Ódio desse virtual por não se tornar realmente real e de assim nos consumir as entranhas no próprio Ódio do Amor que é e não é (afinal o Amor e o Ódio não são nem contrários, nem opostos, mas estádios mentais/emocionais, perpétuos ou não, complementares, pares e não ímpares);
4. À Estupidez que corre na Inteligência; à Inteligência insensata desse Amor que é e não é, porque não se consuma em acto – nem mental, nem físico, nem em alma, nem em corpo; à Dor de pensar que sente tremendamente o que sente, mesmo não se querendo sentir o que se sente.
Ah como o pensar dói na Dor universal do Mundo que dói e dói e dói, sem cessar, qual metáfora do coração-do-sentir que não quer sentir para não pensar mais, para não doer nunca mais, mesmo sabendo-se que essa Dor insuportável não passa jamais, nunca passará jamais! Pensar é sentir e sentir é pensar em consciência do ser-de-razão que supostamente somos: naturalmente pensantes, naturalmente emotivos, sem qualquer separação teórica entre o sentir e o pensar, entre a razão a emoção, porque a razão e a emoção são, a limite, o mesmo.
Por vezes, urge suspendermo-nos de nós-próprios e do Mundo. Evadirmo-nos, nem que seja apenas por algumas horas de sono forçado por fármacos, por outros anestésicos, porque de outro meio não dispomos para essa evasão. Pensar dói, ai como dói! E tu, ó Pessoa, bem sabes o quanto e como dói! Escreve-lo, tu, Pessoa ortónimo, na tua “Autopsicografia”, “fingindo” sem fingires coisa alguma. Pensar dói, porque o Mundo é dor que dói; porque a Vida é vida que dói em todas as suas contradições de ser e de não-ser, quase ao mesmo tempo (por mais que esta asserção seja um paradoxo nos domínios da Ciência da Lógica!) – mas será que a Vida, o Mundo se podem reger, algures, por esta Ciência da validade das regras dos juízos, do pensamento e da linguagem correctas na sua validade de formulação? A Lógica de nada serve para explicar a Vida, para dilucidar o Mundo que, no sentir/pensar, ausentes dessas rígidas regras, se formam e são!

Dizes tu, MEU QUERIDO MESTRE/MUSO ÁLVARO DE CAMPOS: “SOU LÚCIDO. MERDA! SOU LÚCIDO.” Talvez, porém, te tenhas esquecido de acrescentar: sou lúcido, tão lúcido que não preciso da Lógica para atormentar a minha vida já atormentada, a minha vida de Cansaço, de Tédio, da qual estou tão cansado por tanto tédio – “Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!/Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!” (também o confessas).

Ah, esse tédio que não passa (continuarias, ó Campos), que sempre me tortura, mesmo de olhos fechados, dormindo, sonhando. Nos meus sonhos, mesmo que sejam todos os sonhos do Mundo, sempre assoma, sempre se exterioriza, no seu conteúdo manifesto, esse tédio do tédio, esse cansaço do cansaço de ser uma criatura repleta de cansaço – pois, no seu conteúdo latente, não há eufemismos! Mas, insistem nos eufemismos! Mas, insistem nas múltiplas formas de suavização da REALIDADE. QUAL REALIDADE? A QUE EU VEJO, PENSO, ESCUTO, SINTO, TACTEIO, CHEIRO, PENSO HOLISTICAMENTE? Ou a isso a que chamam de realidade, o que é (mas o que é que é?) e que eu não sei o que o é, porque o que eu não-vejo/não-sinto, mesmo que exista em si mesmo, não existe para mim? Afinal, só existe, para mim, tudo aquilo de que tenho consciência: que sinto/penso, que penso/sinto (o mesmo do mesmo!). E o resto? Sei lá o que é o resto, o que há ou não há para além ou para aquém do que penso/sinto, do que sinto/penso, perante os deuses, Deus ou o Destino? Não sei! Mas, “SOU LÚCIDO, MERDA!”, porque não hei-de eu saber se esta lucidez sempre me acompanha, mesmo nos estádios mais curtos desta minha existência tão lúcida que, de tão lúcida que é, me torna um louco-lúcido, aquele em excesso de consciência perante a sua própria existência e a Existência de tudo o que existe para mim? Ah essa loucura (esse outro lado da razão que VÊ O TUDO e O TODO, não um distúrbio mental, não uma patologia) de sentir sempre tudo, de todas as maneiras, na dor martirizadora desta minha lucidez cada vez mais louca na sensatez da minha visão pensante e auto-crítica em demasia de Espírito-Crítico!
A REALIDADE É UMA LUTA DE TITÃS ENTRE TITÃS MAIORES E TITÃS MENORES!

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